Iconografia

O morrer e a morte

E, no entanto, quanto menos dela falamos, mais dela cuidamos. Ela está presente em todos os nossos desejos, em todas as nossas esperanças. É com a perspectiva surda e muda de sua presença que projetamos nossa ruidosa ilusão. Há algo de sinistro no fato de que só conseguimos acolher a morte negando-a.

Parece que a infinita promessa de que tudo tem valor apenas por que nos leva a outra coisa, reina em nossa comunidade de consumo, em nossa sociedade de progresso e em nossa civilização de saque e colonização. Sonhamos acordados na fé cega de que nada vale em si mesmo, a menos que  traga outra coisa, sempre melhor, sempre diferente.

A aceitação da morte e sua acolhida como a outra face amigável da vida, implica em que deixemos nossa verve infinitamente insaciável...

As Mortes

 

As mortes de que fala a personagem grevista de Saramago, são de várias características. A morte que fica intermitente no livro de Saramago é essa mesma que o Erasmo refere em seus textos.

Ela é uma condição de permanência e ciclos que são retomados. Ela tem um sentido nas teias de afetos que ligam quem morre e quem nasce. A morte ceifa o que será o ceio de onde a vida ressurge. Com a morte temos uma narrativa de entes coletivos que permanecem na descontinuidade de suas vidas singulares.

Vou deixando minha vida naquilo que toma minha dedicação, minhas horas escoam nisso, como a escrita destas linhas, em que ficam meu afeto, minhas paixões e meus sonhos.

Percepções da Morte em Três Pinturas

No passado o homem se achava relativamente preparado para o enfrentamento da questão da morte. Uma síntese complexa de concepções de mundo religiosas e do folclore criavam um esteio simbólico onde todos caminhavam em direção ao desfecho sendo socializados com valores e condutas a seguir.  Hoje, com o fim das explicações gerais sobre a morte, ela deixou de ser um terreno exclusivo da religião transformando-se em mais um dos objetos da ciência. A ciência mesma é a grande fonte de nossas dúvidas e certezas, é ela que garante possibilidades de vida maior e mais segura. O problema é que ela não debelou aquilo que é considerado  o mal maior: a morte. Ah, a ciência! Aumentou nossa média de vida, mas roubou nossa certeza da eternidade.

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