O Post que sumiu
Escrevi um conto ontem à tarde. Ele chegou a estar postado por cerca de três ou quatro horas. Depois um amigo, que é produtor, me ligou e sugeriu mantê-lo mais um tempo na incubadora. Vamos se ver se fazemos um roteiro e projeto para levantar recursos para filmar a história.
Neste jogo entram em cena um coletivo de criadores e roteiristas que pegam uma idéia e a desenvolvem num rumo que nem se imagina quando a produção original começa. Ou seja, mais tempo chocando o ovo. Então excluí o post e voltamos a prancheta.
A história é (atenção spoillers) sobre o dia-a-dia de trabalho de uma equipe de PSF em uma vila que tem um ponto de tráfico de drogas. Estava pensando em dar visibilidade a uma realidade ignorada em nossa vídeo-literatura.
Todos os relatos são de certa forma verdade. Conheço e tenho amigos como os personagens do conto. A ficção está em reuni-los todos em uma única e curta narrativa onde os limites entre a lei e o crime se misturam. Protocolos dão lugar a improvisos que, em tese, acabariam com carreiras na saúde. Tudo é explorado em seu aspecto dramático. Há uma simbiose parasitária entre a vida e a norma que não vamos deixar de reconhecer em nosso cotidiano de trabalho.
Parece ser um pouco fascista a idéia de que o Estado paralelo esteja se impondo ao Estado legítimo. Mas é curioso que ambos se instituam pela promessa de trazer segurança e paz as comunidades.
Este dois atributos sociais não podem ser ofertados por nenhuma força externa ao coletivo de humanos e não humanos que opera a democracia. Segurança é uma resultante da participação de todos na formação de consensos sobre o que é permitido e o que é proibido.
De outra forma o Estado não seria mais do que uma máfia legalizada que sobrevive de sugar recursos da sociedade toda, da mesma forma como criminosos fazem nos territórios de uma cidade. A promessa é a mesma: Paguem, durmam e nós lhes traremos paz.
No meu conto os dois Estados se misturam. Em suas funções diurnas e noturnas. No que é explícito e implícito. Há também as forças das culturas locais e o violento entrechoque entre modos de ser e de viver.
Acredito, como Bruno Latour, mais pessimista e Michel Serres, mais otimista, que devemos pensar para além de simples dicotomias e aceitar a árdua tarefa de compor a república na plenitude de seus coletivos, fazer falar suas vozes pela democracia.
A democracia que não separa natureza e cultura, ciência e sociedade e assume a produção simultânea de ambas e assume a responsabilidade de determinarmos nosso destino para além de moralidades binárias.
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