Agradecimentos ao Sr. Tech

gustavonunesoliveira | dom, 13/12/2009 - 09:54.
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 "Zaratustra tinha adormecido um dia debaixo de uma figueira, porque fazia calor, e com o braço protegia o rosto. Veio então um víbora que o picou no pescoço, soltando Zaratustra um grito de dor. Quando afastou o braço do rosto, olhou para a cobra; então ela reconheceu os olhos de Zaratustra, contorceu-se desajeitadamente e tentou afastar-se. - Ainda não! disse Zaratustra, ainda não lhe agradeci! Acordou-me a tempo. Tenho ainda um longo caminho para andar. - "O caminho que lhe resta já não é muito grande, disse tristemente a víbora: o meu veneno é mortal". Zaratustra começou a rir: - Desde quando o veneno de uma cobra matou um dragão? perguntou ele. Reabsorve o seu veneno. Não é suficientemente rica para me fazer presente dele. Então a víbora tornou a enlaçar-lhe o pescoço e sugou-lhe a ferida." (Nietzsche, Assim falou Zaratustra, "A picada da víbora")

 

Depois de algumas semanas longe da rede, voltei. Logo de cara vi mais um ataque do pretendente a "empresário da Humanização", o Sr. Reginaldo Tech, da empresa "Humaniza Brasil", especializada em venda de palestras de auto-me-ajuda a ser aprendiz de "Justus".

Seu post e seus comentários nessa rede vêm causando incômodo em algumas pessoas, pelo oportunismo e cara de pau dessa figura ao tentar utilizar esse espaço democrático e dedicado ao debate, para uso comercial, tentando recrutar pessoas que no fundo não comungam dos mesmos valores dessa rede e fazer propaganda para atrair gestores desinformados e simpáticos aos mandamentos do "mundo corporativo" para que contratem suas palestras.

Eu mesmo fui contatado através de um comentário em um dos meus posts, em agosto desse ano, e convidado a participar dessa empresa. É claro, postei um texto sobre outras possibilidades de expressão das experiências exitosas do SUS. Aí o cara aproveitou! Normal (para um oportunista, claro.).

Mas tudo isso me provoca pensar no quanto essa rede é democrática. Louvável que ninguém tentou bloquear o blog do Sr, Reginaldo Tech. Que seus comentários não foram "moderados" como acontece em outros blogs. Que não houve ataque massivo e nem deselegante ao tal corajoso. Para mim é assim que deve ser.

Prezado Sr Tech. Fique aí nos acordando para ver que os valores expressos em suas ações vem nos lembrar que para uma boa parte das pessoas viventes, a vida se resume a lutar por um eu-indivíduo, voraz por notoriedade vazia, por afirmar-se sobre a impotência, no gozo de ver o outro ajoelhar-se. Fique. Seja bem vindo. E de muitas formas tentaremos lhe dizer que este não é o espaço apropriado para comércio. Para vender seu peixe você poderia ser ainda mais corajoso e disputar no mercado, como todos os outros.

Certamente o Sr. Tech revela a fragilidade de sua empresa ao tentar penetrar nos espaços públicos desta rede, tentando imitar os grandes complexos farmacêuticos com seus vendedores de laboratórios que invadem aos montes as unidades de saúde do SUS. Como já vi vendedores de planos de saúde privados atuando dentro do prédio do Ministério da Saúde. Gostaria que não estivessem lá, mas estão. Posso reclamar, como não deixei de fazer neste post. Mas enquanto persistem as víboras, elas precisarão olhar nos olhos de sua pretendida vítima e perceber o quanto elas mesmas vivem submetidas e separadas do que podem.

Agora, para terminar, lanço um desafio: Vou entrar no site do HumanizaBrasil e fazer comentários, vamos ver se o Sr. Tech permitirá as manifestações assim como nós as temos permitido.

Um grande abraço a todos e, em especial, ao Sr. Tech.

Tags: Humanizasus   mercado   democracia   auto-ajuda   

Comentários

no email

   Gustavo,

    Com relação a esta questão de outros delitos e ilegalidades abusivas por parte deste senhor, em relação a PNH respondi na íntegra o que penso, no email; espero que leias para ampliarmos esta reflexão. Eu não tenho certeza quanto ao que penso e sinto em relação ao que escrevi, mas acho que cabe uma avaliação jurídica mais ampla, ... está no email !!

       Abraço. Shirley.

      

 

 

DO QUE OS PERVERSOS PRESISAM???

O Sr. Tech precisa de limites. É assim que compreendo o sentido de embate de Dario. Quando um sujeito com uma forma de se relacionar como a deste senhor nos invade, como o fez,  no mínimo temos que dar limites, pois o "perverso" só se coloca no seu lugar a partir da explicitação das normas, regras e possíveis consequências dos seus atos. E não é isto mesmo que estamos constatando no seu novo post? Ele pede desculpas e "reconhece" seus delitos. Tenho dúvidas de que sente o que suas palavras dizem... Vamos ver se vai se manter no que diz.

Abraço, Angela.
Um abraço, Angela Maria Hoepfner. Psicóloga e Formadora da PNH-SC.
 

Tens razão Pati, não tem

Tens razão Pati, não tem como deixar isso sem resposta. É preciso mostrar nossa indignação.

Bjo com saudade,

Ju

O público, o privado e a privada

Como prometi eu fui ao site do Sr. Tech e fiz comentário em um dos posts dele. Isso foi no dia 14/12, há 3 dias. Ele ainda não aprovou a publicação do meu comentário. É claro que ele precisa se proteger de comentários que possam prejudicar o seus negócios...

Tudo bem se ele passar a debater na rede como cidadão portador de direitos que é. E não como mercador de "soluções" fast food.

Continuamos afirmando que essa rede é aberta e não podemos abrir mão desse valor para resolver o incômodo que o Sr. Tech nos causa.

Mas será que há outros valores que o Sr. Tech fere com sua atitude? Será que não há crimes sendo cometidos contra essa Rede, contra a PNH e contra o bem público?

Não caberia uma consulta/denúncia ao Ministério Público? Que eu saiba há uma divisão de algum órgão público que investiga crimes na internet...

Acho sadio que a rede saiba dos limites, dos direitos e deveres de cada um que dela faz parte. Saber do uso justo de suas ferramentas.

Acho que o Sr. Tech nunca leu os termos de uso dessa rede. A meu ver ele pode ter ferido o item "14" daqueles termos. O que fazer se isso de fato ocorreu?

Cada um de nós tem direitos individuais. Mas ninguém tem o direito de fazer do público a sua privada!

Gustavo Nunes de Oliveira

outro dia a discussão numa radio corria flouxa


 

a questão era as morte no transito.

Até que entrou um cidadão na discussão e falou:

como era um mecanico poucos ouvidos a ele.

 

E ele disse coisas simples, estrada estão em péssimas condições

veiculos tem potencia de 200km por hora

e o governo ganha pela potencia dos corros

então pensar o que?

 

???

Depois de escrever o recado, fiquei me perguntando: será que o Sr. Tech não conseguiu o que ele queria? olha quantas mensagens postadas aqui e quantas pessoas acessaram (eu inclusive) o seu site. Perverso isso....

É isso mesmo Ju

Acho que sim foi mesmo o que aconteceu. Ganhou notoriedade entre nós por nossa indignação. Mas como deixar isto sem resposta?

Bjs Pat
 

Comercializar o SUS????? Como Assim????

Como a Carolina, também fiquei MUITO ASSUSTADA com o que li no site do Sr. Tech, ele “usa” as diretrizes da PNH de forma equivocada. Comercializar o SUS é o cúmulo do cúmulo. Caro Sr. Tech, se estás tão interessado assim em contribuir, te convido a participar do Curso de Formação de Apoiadores Institucionais da Gestão e Atenção à Saúde, para conhecer a PNH e ver como pessoas sérias e que estudam muito lutaram e lutam para fazer o SUS que dá certo.

 

Juliana UP Há-braços

Consultoria?


Visitar o site deste senhor realmente me assutou...
Fiquei indignada ao ver no "portifólio" equipes 
SUS que contrataram seus serviços enquanto 
poderiam buscar por formação muito mais 
qualificada junto aos verdadeiros formadores/
apoiadores da PNH!

Carolina Camilo Correia
Enfermeira. Aprimoranda em Saúde Coletiva.
Hospital das Clínicas da FMUSP.
São Paulo/SP.

Consultoria militante!

No inicio deste ano, passei por maus bocados. Fechei minha vida em Porto Alegre e vim pra João Pessoa, aceitando um convite para ajudar na implementação da Redução de Danos. Por motivos que não quedam claros (o que me faz pensar que sejam excusos), o convite foi desfeito, e eu me vi desempregado, há mais de 5000 Km de minha casa, de meus pais e amigos.

Naquele momento, fui incentivado a investir no trabalho de consultoria na área de álcool e drogas. Felizmente, eu consegui diversos trabalhos ao longo do ano. Hoje, sou redutor de danos no CAPSad de Cabedelo (cidadezinha ao lado de Jampa), e sigo contribuindo com gestões e serviços, quando convidado. Nestes momentos, os princípios da PNH estão sempre junto comigo.

Hoje, considero-me um profissional da transformação. Ganho dinheiro para ajudar na construção do SUS, e não me sinto um mercenário por isto. Tenho um desejo: trabalhar para construir o poder popular. O território no qual atuo é o da Saúde (poderia ser qualquer outro!), e dentro da saúde, o meu foco é o das políticas dirigidas a pessoas que usam drogas.

Jamais abriria mão, em um centímetro que fosse, das coisas nas quais acredito. Aceito de bom grado a todos os convites para trabalhos alinhados com a construção do SUS. Dia destes, recusei um convite para participar de um "amplo processo de humanização do manicômio de João Pessoa" (sic), pois acho que humanização é acabar com os manicômios.

Enfim: gosto de ganhar dinheiro com meu trabalho. Mas não arredo um centímetro de meus ideais.

[   ]s

www.denispetuco.com.br

Dênis tuas contribuições com a rede

dão sinais de quem vc é!
 

Muito obrigada, por estar aqui!

bjos

Cláudia

(lembra da mochila em Brasília, na entrada do hotel...risososso)

A Postura Ética

 

   Dênis,

      Admiro teu trabalho e coragem, por isso é preciso ressaltar aqui, diferenças gritantes, no que diz respeito a diferentes formas, de se trabalhar para colaborar com o SUS, e ganhar financeiramente com isso.

      Universidades privadas, que entram nos Programas PET-Saúde, a tua modalidade de trabalho, o Sr. tech, estão no mesmo tema, mas de formas muito diferentes.

      Ética, Respeito, Co-laboração que vejo em voce, faz toda a diferença em relação à Arrogância e oportunismo que vemos na outra situação !!

      Um abraço,

      Shirley Monteiro.

 ps- Fico feliz que estejas continuando o mestrado com o Eymard, e conseguido trabalho em Jampa, mesmo sem te conhecer pessoalmente.

Obrigado!

Oi Shirley!

Obrigado por suas gentis palavras (e ao Gustavo também!). O mestrado está cada vez melhor!

Apenas uma ressalva: sigo sem ser chamado a contribuir com a gestão, tampouco com os serviços ou políticas ligadas à secretaria municipal de saúde da capital dos paraibanos. Neste momento, atuo como redutor de danos no CAPSad de Cabedelo (cidade vizinha à João Pessoa), como oficineiro no CAPSad ligado ao governo do estado da Paraíba, e como supervisor no CAPSad de Campina Grande.

A gestão de João Pessoa, depois de ter feito com que eu deixasse o Rio Grande do Sul com proposta de trabalho, não me convida nem mesmo pra chá com bolinhos...

[  ]s

www.denispetuco.com.br

Sei bem ...

 

    Denis,

 

   Sei como é isso. Eu com a pesquisa do mestrado em Atenção Básica, tive apoio e acolhimento da equipe do PSF de Maria de Nazaré, e da comunidade; mas o pessoal do Distrito que visitava a Unidade de vez em quando, e muito raramente, não teve interesse algum nos trabalhos que transcorriam , e até atrapalhou quando criou uma escala móvel para as ACS, de modo que as que tinham assiduidade no nosso Grupo, sendo deles co-criadoras, não conseguiam mais estarem juntas, em um mesmo encontro.

   Mas a gente vai contornando, e abrindo novas possibilidades !!!

   Bjos.

   Shirley.

Ao conterrâneo

Oi Dênis,

Bom encontrar mais um conterrâneo nessa rede! Vendo o seu relato fiquei querendo te dizer que a sua história é singular, no sentido que te investe um sujeito de valores. Muitos colegas nossos vivem esses "perrenges" na vida profissional. Nosso país ainda não aprendeu a valorizar esse tipo de serviço. E raramente as instituições públicas brasileiras acolhem esse tipo de talento (de construir aquilo que tem força pública) e ficamos muito vulneráveis às regras do mercado. Essa dimensão da vida moderna-contemporânea que nos faz vendedores de nossa vitalidade, saber, experiência e força de trabalho é apenas uma das dimensões que nos constitui como sujeitos. A questão não é se devemos nos sentir mal em sermos remunerados pelo nosso trabalho. Acho justo que pensemos em sermos pagos pelos nossos serviços, e bem pagos, quando nossa sociedade constitui parte importante das relações de trocas sociais por essa via. É legítimo sim. O que devemos nos perguntar é se é essa a única possibilidade de se viver! O quanto tudo isso é necessário e nos faz mais livres e capazes de compor com as forças ativas da vida.

É por isso, caro companheiro, que louvo sua abertura e generosidade em contar parte de sua história de vida e comungo da sua postura ética.

Entretanto, vamos deixar claro que a crítica às ações do Sr. Tech se referem ao seu oportunismo de utilizar esse espaço público para fazer propaganda e da sua empresa. Pois agindo dessa forma, ele explora de maneira privada e covarde esse espaço. Privada e inadequada porque usa de uma abertura democrática e de uma espaço sustentado e constituído por pessoas ligadas e algumas delas pagas por serviços e recursos públicos, com interesse exclusivamente privado (que duvidar disso olhe os posts de hoje no site do figura que não poupa elogios a sí mesmo). E covarde porque, ao fazer isso, ele se hage de maneira desleal com outros "concorrentes" que não fizeram a mesma coisa que ele.

Essa é a crítica falou?

Abraço

Gustavo Nunes de Oliveira

Muito obrigado!

Caro Gustavo: mesmo não o conhecendo, tenho admiração pelo seu trabalho e sua militância. Quero dizer que aprendi muito com as suas críticas, pois concordo quando você fala sobre o uso desse espaço tão importante que é a Rede HumanizaSUS. Concordo e passo a usá-lo da forma como os idealizadores desse espaço pensaram. Desculpe-me se utilizei inadequadamente o espaço, mas o fiz sem pretensões ou aproveitamente. Apenas quis mostrar aquilo que faço. Penso que o meu trabalho é colaborativo e estou sempre aberto às críticas para aprimorar meus conceitos e práticas. Muito obrigado mesmo! E que todos possamos, inclusive nos momentos de críticas, absorvermos as várias realidades que existem no país e na saúde pública... construindo uma sociedade melhor para os nossos filhos. Abraços!

Reginaldo tech

Que bom é conversar!

Caro Sr. Reginaldo Tech,

Vejo que entendeu a nossa intenção e agradeço muito a sua devolutiva. Para todo lado há guerra, o que não tem melhorado em nada o nosso mundo. Essa nossa conversa nunca se tratou de guerra. Mas sim um bom combate. O combate necessário para não alisar as coisas, para não tornar homogêneas as diferenças que enriquecem a vida. Esse é o bom combate. Do qual saímos todos mais amplos do mundo e da vida. Menores de nós mesmos. Mais próximos do que nos diferencia de nós mesmos. Mais cheios de vida. Que bom é conversar! Não é companheiro?

Abraços,

Gustavo Nunes de Oliveira

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Assim fica fácil!

 O SUS não pede direitos autorais nem mesmo reclama para si um centro de comando e privatização de políticas públicas. Parece-me que está havendo um merchandising de idéias alheias que nega toda a dimensão coletiva da PNH. Alguém acredita que a PNH é uma franquia? Garanto que a Rede HumanizaSUS não partilha disso!

Privatizar o bem público para vender palestras????????

Assim não dá, né pessoal?! Fica fácil!

 Ricardo Sparapan Pena

 

obrigada pela delicadeza das orelhas pequenas

Gustavo, querido! nada como sair das cavernas e descer as montanhas para encontrar uma outra praça pública como a que encontrei nesta rede. Que bom encontrar orelhas suficientemente pequenas para compartilhar valores nobres como os que nos lembras aqui. Obrigada pela mensagem, obrigada pelo profeta. Obrigada pela agudeza da crítica. Adorei!  

CUIDADO COM O ANDOR QUE O SANTO É DE BARRO

Prezado Sr Tech!

Conheço bem pessoas como o senhor! São daquelas que em pouco tempo, sem muito trabalho para pensar, só querem usufruir e ganhar através daquilo que muitos estão construindo há muito tempo e com muito estudo e trabalho.

Olha só: construir algo consistente leva tempo e dá trabalho. Portanto pode ir tirando a sua "mãozinha" do que é nosso. A PNH é de uma grande coletividade que sabe o que está fazendo.  Tome muito cuidado com o andor que o "seu" santo é de barro, viu? A qualquer momento pode quebrar. E tomara que quebre mesmo!!!! rsrsrsrsrsrs

Angela.

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Dois dias longe...

Voltar e me sentir também representada por vocês! Que defesa comp@nheiros!! Estava ansiosa para ver o que "andava acontecendo", fiquei sem acesso. Somos muitos, muitos que não só acreditam no SUS, mas fazemos acontecer, das mega às pequenas cidades. Eu tinha certeza que este não poderia ser um sonho, é um coletivo que existe e faz valer sua voz quem sabe o que diz!

Com muita honra em participar  deste coletivo,

destas  realidades que farão a história

da democracia em nosso SUS-Brasil!

Um  abraço a todos,

EU também estou por aqui,

Luciane - HU!

Reavivando Drummond

Quando vejo posturas como as do Sr Tech, fico imaginando quais seriam os limites para a mercantilização do corpo e da vida. Não se trata de buscar sentidos morais do tipo "anjos" ou "demônios", muito menos de se colocar num papel de "salvador do mundo". A principal questão é o enfrentamento de uma forma de sociabilidade que, no campo da saúde, é negadora da vida. 

Nada contra que possamos vender serviços, afinal, fazemos isso o tempo todo. Vendemos nosso trabalho transformado em "ferramenta" que afirma a vida e que luta cotidianamente para que as pessoas tenham dias melhores. No entanto, dependendo da forma como trabalhamos, estaremos adentrando nos limites do desumano que sequestra o subjetivo, que aprisiona a emoção, que legitima a "exploração" da força de trabalho.

Quando penso uma humanização "mercantilizada", confesso que sinto arrepios. Posso vender o "acolhimento"? Posso alugar a "visita aberta"? Posso lotear uma boa "ambiência"? Eu acho isso meio estranho, algo como se começássemos a mercantilizar as carências e, de certa forma, ajudar a validar a lógica da medicina privada que acha natural alguém não poder usar UTI mesmo que precise dela já que o contrato do plano não permitia isso. 

Defender o SUS é defender a priorização da vida frente às necessidades geradas pela sociabilidade baseada no mercado. Essas duas lógicas estão em colisão. Não posso assimilar a idéia de transformar a humanização em sabonete. Transformar humanização em mercadoria é, paradoxalmente, investir na desumanização.
Se a gente agir dessa maneira, então, seremos indivíduos encarnados no poema de Drummond, nós como seres que se transformam na coisa que consumimos. 

Eu Etiqueta
 
Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
 
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.

 

 

Quais problemas queremos superar? O que queremos mudar? Que saídas oferecemos? Todo os dias me defronto com estes questionamentos. 

BELAS PALAVRAS !

  Adorei ,

    Abraço a todos ! E tomara que ele seja minimamente digno, para ler todas estas respostas, deste post, de seu próprio, e incluindo o de Jacque com filme da fala do Erasmo.

     Bjos.

     Shirley Monteiro

 

Engasgada!

Que bom ler isso aqui, pois estava muito engasgada para responder a altura para este sanguesuga do trabalho alheio.

Querer fazer comércio em espaço público como tem feito este cara é no mínimo antiético, para não dizer desonesto e deplorável!

Felizmente há neste rede pessoas como Gustavo , Erasmo, Marcos, Dário, Claudia e tanto outros que não se furtam em indignar-se em favor da causa pública.

Grande abraço, Patrícia mais calma agora com esta reação!
 

Sr. Tech

Gustavo e Marcos, vocês foram precisos, absolutamente radicais na defesa do espaço

público que é a RHS. Adorei a idéia de Gustavo de "ir" ao site deste empresário de meia

pataca e muita cara de pau.

Dário

Ufa, sinto aliviada

Muito obrigada Dário por esse teu comentário~!
 

Estava esperando...com ficha na mão...tuas palavras fazem acreditar que a PNH não é brincadeira.

Um beijo grande na alma e no coração.

E obrigada Gustavo e Marco por serem porta-vozes de um SUS QUE DÁ CERTO......um beijo a todos.....

com carinho

Cláudia

Sr. Tech.


Até a tecnologia é mais humana que o Sr. Tech. Assim como a víbora se digna a recolher seu veneno a vê-lo ser neutralizado ele deveria ser menos cheio de si e mais modesto.

 Nosso "eu" indivíduo só se institui no instante em que, reconhecendo sua impotência, se potencializa no reconhecimento do outro. Vendo o outro, torno possível ver a mim mesmo. É um jogo.

Na dialética senhor escravo de Hegel faltou, segundo Serres, o desdobrar no tempo. Ninguém é o senhor sempre e uma condição não define a outra fora da efêmera e sempre retornável relação.
 

Tech retorna como um fantasma e não como novidade. Seu veneno é autofágico. Come a sua potência e absorve seu inoculador na repetição monótona da dança de seus argumentos. Tolerá-lo é ser magnânimo diante de sua lenta decomposição.

Permitamos a ele executar seu programa, incapaz de se reinventar ele vive dos restos de identidade que recicla em seus conceitos, enquanto nós vamos sendo sempre outros, em paz com o que fomos e implacáveis com o que há de ser superado.
 

Não vele mesmo o olhar por cima dos ombros que distrai nosso andar.