O Homem e a Morte: Uma poesia de Manuel Bandeira

Os espaços para aprender a morrer são muito exíguos. Como já foi destacado em outros posts, estamos em meio a falta crônica de um processo socializador para a morte. Dai que autores como Maria Julia Kovacs proporem uma educação para a morte. Partindo-se da premissa que a educação se configura como processo formal (o que aprendemos nas escolas, nos currículos estruturados etc) e informal (o que aprendemos mais ou menos de forma espontânea e/ou motivados por interesses diletantes), na ausência de uma "pedagogia" para o morrer objetivamente sistematizada, propomos a companhia dos poetas nessa caminhada como excelente maneira informal para nos prepararmos frente a morte.
Neste sentido, cumpre aos poetas serem a matriz de tradições filosóficas e aquilo que Antonio Gramsci chamava de núcleo de bom senso no senso comum. Assim, talvez a poesia seja um dos últimos redutos artísticos com significativa produção cultural sobre a morte e o morrer, produzindo sentidos que podemos nos apropriar para oferecer sentido às nossas próprias vidas.
Nos últimos anos podemos dizer que se consolidaram as representações da morte em seu sentido mais negativo. Estamos no reino dos esqueletos e das aberrações monstruosas, de figurações dos corpos em adiantado estado de putrefação nos perseguindo como zumbis. Creio que isso, além de exprimir uma certa percepção coletiva sobre a morte, acaba meio que retroalimentando essa mesma percepção. Haveria alternativa à estas imagens tão feias? Vejamos a seguir um belo poema de Manuel Bandeira:
O HOMEM E A MORTE
O homem já estava deitado
Dentro da noite sem cor.
Ia adormecendo, e nisto
À porta um golpe soou.
Não era pancada forte.
Contudo, ele se assustou,
Pois nela uma qualquer coisa
De pressago adivinhou.
Levantou-se e junto à porta
- Quem bate? Ele perguntou.
- Sou eu, alguém lhe responde.
- Eu quem? Torna. – A Morte sou.
Um vulto que bem sabia
Pela mente lhe passou:
Esqueleto armado de foice
Que a mãe lhe um dia levou.
Guardou-se de abrir a porta,
Antes ao leito voltou,
E nele os membros gelados
Cobriu, hirto de pavor.
Mas a porta, manso, manso,
Se foi abrindo e deixou
Ver – uma mulher ou anjo?
Figura toda banhada
De suave luz interior.
A luz de quem nesta vida
Tudo viu, tudo perdoou.
Olhar inefável como
De quem ao peito o criou.
Sorriso igual ao da amada
Que amara com mais amor.
- Tu és a Morte? Pergunta.
E o Anjo torna: - A Morte sou!
Venho trazer-te descanso
Do viver que te humilhou.
-Imaginava-te feia,
Pensava em ti com terror...
És mesmo a Morte? Ele insiste.
- Sim, torna o Anjo, a Morte sou,
Mestra que jamais engana,
A tua amiga melhor.
E o Anjo foi-se aproximando,
A fronte do homem tocou,
Com infinita doçura
As magras mãos lhe cerrou...
Era o carinho inefável
De quem ao peito o criou.
Era a doçura da amada
Que amara com mais amor.
Ao vislumbrar o poema podemos notar que parece subdividir-se em duas partes. Com relação a primeira estamos mais acostumados. Fala do pavor provocado pela idéia de morrer e do quanto podemos buscar mecanismos (reais e/ou imaginários) para fugir o máximo possível da morte. Ele não quer abrir a porta ao terrível esqueleto...pelo contrário, refugia-se no leito como um símbolo que nega a morte e ao mesmo tempo parece trazer refúgio e conforto. No entanto, quer queiramos ou não, a morte sempre está presente em nossas vidas.
Então, o protagonista do poema é surpreendido ao perceber que a morte não era tão terrível assim. E lá esta ela agora representada por uma doce mulher, um anjo, quase a imagem de uma bela mãe a trazer conforto, carinho e paz frente a uma vida de dissabores. Bandeira parece resumir com propriedade os extremos do sentimento com relação a morte e retoma parte da tradição romântica e simbolista ao apresenta-la como uma mulher.
No entanto, não existe um acordo. Na verdade, a morte parece ser as duas coisas ao mesmo tempo. Algo que traz medo pela dissolução que provoca, pelo convite ao desconhecido, mas também algo que não poderemos a nos furtar em encontrar um dia. Não seria melhor então investir nessa segunda imagem, pensarmos num anjo que proporciona refúgio, mesmo que, em certa medida ainda sejamos tomados pelo medo?
Que fique então a lição de Manuel Bandeira. A morte pode entrar em nossas vidas a qualquer momento pois lá está ela sorrateira batendo à porta. Quando isso acontecer, não haverá escapatória. A intensidade de sofrimento e dor nesse instante dependerá então de qual imagem cultivaremos. Penso, repenso e não consigo encontrar quase nada que seja mais reconfortante que o abraço da mulher amada!
ERASMO RUIZ
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Comentários
Contos de enganar a morte
Erasmo,
lembrei-me de um livro do Ricardo Azevedo chamado Contos de enganar a morte. Vc conhece? Meu filho de 9 anos trouxe dia desses da roda de biblioteca da escola e fez um conto inspirado em um dos que tem no livro. Entre outras coisas, acho, ele estava lidando com a doença da avó paterna que faleceu depois de muito sofrimento. Este tema que vc tem trazido na rede certamente merece esses desdobramentos todos.
cristina lopergolo
Razão do enigma...
Meu caro Erasmo:
Para dialogar com você, compartilho um texto que escrevi pensando na morte, na vida e na Severina (Morte e vida severina). Não sei bem que links esta minha poesia quebrada faz com sua dissertação profunda a respeito deste tema tão próximo da realidade nossa (humana e campo da saúde). O admiro não só pelo que você escreve aqui, mas pela sua mente capaz de viver matando o medo da morte que há em nós e vivenciando a coragem de fazer-nos entender que em meio a nossa incompletude, só a morte nos completa, posto que não é vazia...Bem, nem sei se era bem isso que eu quaria formular, mas já foi, está dito...mas há ainda tempo para rever enquanto vida houver. Morrer é inevitável...Meu desejo é morrer daqui algum tempo (quem sabe não tão logo), gozando das faculdades mentais, sem dependencia cultural da lógica do vil mental...Deus do céu, que aventura é esta que estamos vivendo? Ou mesmo morrendo sempre um pouco dia após dia...Quero ainda morrer assim no tempo mais que possível desse finito sopro que habita em mim.
Razão do enigma e o enigma da razão
Conhecer os mistérios possíveis existentes entre o céu e a terra
Entre os homens e os deuses
Arrebatar-se de perguntas e respostas inquietadoras
Problematizar os mundos submersos no interior das almas e dos corpos
Emergir e ressurgir das cinzas e dos fósseis
E re-encantar-se diante das revelações e mistérios que somos
Recuperar elos perdidos do “nós” que sou eu
E do “eu” que somos nós
Mundos subjetivos dos corpos e das almas
Universos apocalípticos de símbolos e sonhos
Linguagens e desejos que não se superlativisam com um só beijo
O beijo é tão somente o sinal do enigma que permeia o corpo e a mente
O enigma de não saber qual é o limite da nossa débil razão
Razão de ser?
Razão de crer?
Razão de ter?
Razão de não sei o que?
Razão de não ter razão?
Razão de viver?
Razão de morrer...
Eis a questão que submete o amor ao desejo
Desejo e amor que se conflitam nos corpos e nas mentes
Misterioso labirinto de corpos e almas no curso da vida
Nesta insaciável sede de “conhecer-se” para “conhecer-te”
Sondar-me-ei para revelar-me
Entregar-me-ei para (des)enigmatizar-te
E a cada mergulho no substantivo de mim mesmo
A cada imersão no superlativo que somos nós
Fica mais distante e obscura a idade da razão
E os enigmas vão sendo decifrados
Viver é o caminho mais que possível do movimento que somos
Viver sem essa busca constante do “conhecer” é um pouco mais que morrer
Eis a razão que apreende a lógica de que a razão não tem idade
Ser – viver é conhecer
É preciso matar em mim e em você a vida sem razão
Este é o sentido do nosso vôo enigmático – voar, voar!
Pisar nas estrelas e sentir o chão
Sentir o chão mesmo nas estrelas
Chão de estrelas da transformação
Deus do céu! Que aventura é esta de viver morrendo?
Elias J. Silva – Educador Popular.
Caro Elias!
Meu amigo. Nessas andanças da humanização estamos nos devendom mais convivência e cotidiano não é verdade? Quem sabem a partir de novembro quando estiver fora do meu papel de consultor, eu me embrenhe nas cirandas? Achei linda sua poesia e reflexões sobre a morte. Campeias com a dúvida e, em alguns instantes, a toma como amiga e comapnheira. Ev não seria a morte a maior das dúvidas? Creio que na saúde precisamos tematizar essa questão sempre e sempre. SDe formos capazes de lidar melhor com a morte...então lidaremos melhor com todas as coisas pois tudo parecerá "menor", estaremos livres de qualquer sujeição como nos ensina Montaigne.
Se me permitires caro poeta, utilizarei qualquer dia destes esse trecho como epígrafe:
"Eis a questão que submete o amor ao desejo
Desejo e amor que se conflitam nos corpos e nas mentes
Misterioso labirinto de corpos e almas no curso da vida
Nesta insaciável sede de “conhecer-se” para “conhecer-te”
Sondar-me-ei para revelar-me
Entregar-me-ei para (des)enigmatizar-te"
Abraço forte companheiro!
"Não tenho medo da morte"
Em uma canção, trago o belo olhar de Gil sobre a morte:
Não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte é depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou
então nesse instante sim
sofrerei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida.
beijo,
Jacqueline
Caríssima Jacqueline
Eita que Gil é Gil! LInda a forma como ele coloca a problemática do morrer...tão comum...tão simploes...tão difícil...tão fácil...tão do outro....tão meu! Bj e carinho do ERASMO
MORTE REALIDADE.
Querido Erasmo.
Essa figura chamada morte, é uma constante em nosso dia á dia. momentos é amiga, outros é cruel. o certo é que temos
que saber lidar com ela.pois nos dá revolta quando a mesma nos tira o de mais querido! temos que esvasar nossa dor. é
fazer a coisa certa: viver enquanto a morte não vem.
Um grande Abraço.
Raimunda Modestino
Teresina-Pi
Abraços.
Raimunda
Teresina -Piauí
Olá cara Epicurista
Raimunda!
A sua fala sobre a morte me remeteu a Epicuro:
"Habituados a considerar que a morte é nada para nós, do momento que todo bem e todo mal reside na sensação, e a morte é privação de sensação. Por isso, a noção correta de que a morte é nada para nós, torna alegre o fato de que a vida seja concluída com a morte, não lhe concedendo um tempo infinito, e sim lhe subtraindo o desejo da imortalidade. Não há nada de terrível na vida para quem tenha compreendido bem que não há nada de terrível no fato de não viver mais. Por isso, é tolo quem diz temer a morte, não porque trará dor ao momento em que ela se apresentar a nós, mas porque nos faz sofrer na sua espera; com efeito, tolamente pode causar sofrimento na espera, ao mesmo tempo em que não faz sofrer com sua presença.
Portanto, o mal que nos faz ter arrepios, ou seja, a morte, é nada para nós, a partir do momento que, quando vivemos, a morte não existe, e quando, ao contrário, existe a morte, nós não existimos mais. A morte, portanto, não se refere a nós, nem quando estamos vivos, nem quando estamos mortos, porque para os vivos ela não existe, e os mortos, ao contrário, não existem mais. Os outros, por sua vez, fogem por vezes da morte como do pior dos males, outras vezes a [procuram] como alívio [das desgraças] da vida. [O sábio, ao invés, nem rejeita a vida], nem teme o não viver mais; com efeito, a vida não lhe é molesta, e ele também não crê que a morte seja um mal. Assim como para o alimento, ele não se serve dele em abundância, mas escolhe o melhor; também não procura gozar o tempo mais longo, mas o melhor." (Carta a Meneceu).
Poisn sigamosm vivendo todos, cultivando o prazer das escolhas racionais que constituem a alegria de viver posto que a morte, para nós, de fato, não existe!
Bj do ERASMO
Morte
Sem palavras para expressar no momento, vc me faz acreditar que é possivel e vale a pena insistir no assunto, que maravilhoso termos vc na rede.
Oi Sônia!
Sou eu que fico feliz pela sua convivência. A consequência em insisitir no assunto é termos uma vida cada vez melhor, não é verdade? E termos uma vida melhor nos habilita a lidar com humanidade o sofrimento do outro.
Bj e carinho do ERASMO
Morte e Beleza
Querido Erasmo,
Voce talvez não tenha a noção de como é bom poder entrar em contato com este outro modo de pensar a morte, trazido por vc.
E por falar em poema, lindo poema do Manuel Bandeira!!! O Ferreira Gullar tem um maravilhoso, chamado "Morrer no Rio de Janeiro". Vou tentar achar e colocar na rede.
Beijos tanáticos
Cara Maria Luiza!
Obrigado pelo incentivo! Fico muito feliz com sua sinalização. Deixo contigo o poema que você se referiu. mMuito bonito e merece um post a parte qualquer dia destes. O Ferreira Gullar é maravilhoso quando não fala de Reforma Psiquiátrica (rsrsrsr). Como parece concluir o poema, o "antídoto" da morte é uma síntese entre memória e beleza!
“Morrer no Rio de Janeiro”.
(Ferreira Gullar?)
Se for março
quando o verão esmerila a grossa luz
nas montanhas do Rio
teu coração estará funcionando normalmente
entre tantas outras coisas que pulsam na manhã
ainda que possa de repente enguiçar.
Se for março e de manhã
as brisas cheirando a maresia
quando uma lancha deixa seu rastro de espumas no dorso da baía
e as águas se agitam alegres por existirem
se for março
nenhum indício haverá
nas frutas sobre a mesa
nem nos móveis que estarão ali como agora
– e depois do desenlace – calados.
Tu de nada suspeitas
e te preparas para mais um dia no mundo.
Pode ser que de golpe
ao abrires a janela para a esplêndida manhã
te invada o temor:
“um dia não mais estarei presente à festa da vida”.
Mas que pode a morte em face do céu azul?
Do alvoroço do verão?