ALGUNS ME CHAMAM DE LOUCO...

Elias J. Silva | qui, 16/04/2009 - 19:37.
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Este texto foi construído e compartilhado durante o I Fórum de Saúde Mental que aconteceu no início de 2008, evento da Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza, ocorrido no espaço da Universidade Estadual do Ceará-UECE. 

  

ALGUNS ME CHAMAM DE LOUCO...

  

Alguns me chamam de louco

Quem sabe, eu seja um louco sim

Mas eu grito, grito até ficar rouco

Não me preocupo se acaso riem de mim

 

Eu grito e grito forte

Na busca de achar um norte

Respostas para os porquês

Quais porquês?

Os porquês que estão na minha e na mente de vocês

 

Doente mental sou eu?

Porque grito, porque falo e questiono?

Ou doente mental é nada mais e nada menos

Que uma vítima social?

Subproduto da panacéia global?

Neurose coletiva

Medo

Sintomas

Síndrome do pânico

Álcool e drogas

Distúrbios psicosociais

Tudo faz parte da loucura

Dessa panacéia global

Tudo faz parte do todo

E o todo é muito louco

A idade da razão está caduca

A razão anda maluca

Afinal, onde está a razão

Quem tem razão?

Algum louco pode explicar?

 

Por que o lícito é ilícito

E quase tudo que é ilícito está no ar?

Ah, o dono da TV é normal...

O Big Brotter é legal...

Anormal é não assistir

Não se ligar...

 

Todos ligados

Audiência total

Equilíbrio psicosocial

Desligar a TV?

Mudar de canal?

Discordar do Pedro Bial?

Ah, isso não é normal

Como ficariam nossos “heróis virtuais”?

Saúde mental é um canal – te liga meu irmão

Canal que sintoniza uma outra dimensão

A dimensão do humano para redução dos danos

Superar os danos que reduzem o humano

Que danos?

Os danos causados pela estrutura

Que massacra o ser humano

Que humano?

O humano que sou eu

Que é você

Qual estrutura?

A estrutura da própria relação Saúde x Doença x

Paciente x Servidor x gestor x usuário x fornecedor...

 

Esta estrutura é muitas vezes a equação da loucura e do desamor

Mas onde é que fica o nosso louco amor?

Amor que é cuidado

Amor que é cuidador

Amor que coloca o humano em primeiro plano

Amor que supera o ódio e o medo

Amor que acende a chama do que parece louco

Louco desse amor que transforma

E que supera todo aquilo que “normalissimamente” nos deforma

 

Sistema que procria danos

Sistema desumano

Modelo secular de saúde mental insano!

Desafio da nossa neoloucura: qual desafio?

Construir a cada passo

Um modelo mais e mais humano

 

Será que alguém ouviu meu grito?

E como eu vai sair a gritar?

Serão um, dez, cem, milhares e milhões de gritos

Loucos de amor, amados e amando

Loucura de amor será

 

 

Elias J. Silva – Poeta, Educador Popular – COMOV/ANEPS/Cirandas da Vida.

 

Comentários

De poeta e louco...

Oi Elias,

Que belo poema! Parabéns!!!

Realmente, é difícil saber que tem razão e ou quem

tem a razão.

Dizem que de poeta e louco,

todos temos um pouco.

E o que é mesmo a loucura? É difícil de se definir o que é

normal e o que é anormal. Esses conceitos dependem

muito da cultura de cada um.

Louco é quem me chama

é quem não tem alma

é quem apaga a chama

da vida, da emoção

do sorriso, da compaixão

é quem tem medo de amar

é quem não se toca

é quem vive a reclamar

de si, de tudo e de todos

sem nada a acrescentar

Sem nenhuma pretensão. Não sou poetisa.

Um grande abraço!

Emília

 

Emília, que loucura! Essa de dizer...

...Que não és poetiza...Seu texto poético se funde com o meu post para ampliar a visão dessa loucura que nos aproxima...mesmo com a relativa distância espacial, uma construção se faz nesta comunicação.
 

Abraços,

Elias

Razão Sensível a do Louco Amor !!!

 Lindo Lindo Lindo !!!!!!!!

 " Nosso Louco Amor, que é cuidado e e cuidador... que vence as estradas da Vida sem medo e com Ardor ..." Me identifiquei aqui. Em alguns momentos fiquei com os olhos cheios d´'água, melhor, de emoção , porque me remeteu ao trabalho na Comunidade Maria de Nazaré, em João Pessoa, na Atenção Primária em Saúde Mental.

  Trata-se de uma Pesquisa-ação em Mestrado. Meu Orientador é o Eymard Vasconcelos. Só que, além da Educação Popular estou trabalhando com a "Antropologia do Imaginário", que é muito semelhante, e aproxima a Psicologia de Jung para a ESF. Na ANTROPOLOGIA DO IMAGINÁRIO, encontramos Maffesoli, Sociólogo transgressor da Academia, e Maravilhoso, que nos vem falar do ' elogio à razão sensível'.

  Quero deixar aqui, um Elogio a sua razão sensível, ao escrever este Poema. E também pedir sua autorização para publicá-lo na minha dissertação. Como voce prefere dentro das possibilidades de como devo citá-lo nas referencias bibliográficas ?? Pode ser a partir desta Rede Virtual, com certeza. Tudo bem ? o TRABALHO CHAMA-SE : " GrAImSa: Grupo de Acolhimento ao Imaginário em Saúde" onde trabalho também com as Danças Circulares dos Povos.

  Já tinha escutado aqui em Natal, sobre as "Cirandas da Vida". Pensei que fossem Danças Circulares, mas me disseram que não é. Que tal me falar um pouco  sobre as Cirandas da Vida ?

  Até !!

 

  Shirley Monteiro.

 

 

Olha Shirley...

...Seu comentário me alegrou muito pelo fato de você perceber alguma identificação entre práticas e vivências que fazem parte de suas experiências de vida vida e trabalho. Tenho que lhe dizer que não tenho formação acadêmica neste campo da saúde mental, na verdade, estudei teologia e virei uma espécie de sociólogo prático...entrei na saúde com o "canudo" da educação popular, um saber que tem o relevo de muitas vivências - ao longo de 30 anos - no movimento popular.
 

Nos últimos quatro anos mergulhei de cheio nos processos de saúde coletiva em Fortaleza, a partir do advento do projeto Cirandas da Vida - ação de educação popular e saúde, do Sistema Municipal Saúde Escola de Fortaleza, que parte das histórias de lutas e resistências das comunidades por onde as cirandas têm andado. As Cirandas constróem trilhas de diálogos entre os saberes populares e científicos, se fazem vivências de práticas de cuidado e humanização, avançam na direção da juventude em conflito com a lei, contribui com a organização da socioeconomia solidária, ambiente e moradia e, busca fortalecer uma rede de arte, cultura e saúde, entre outros processos. Eu diria de outra forma, mais fácil de compreensão que as cirandas são: caminhos de aprender; caminhos de ensinar; caminhos que levam ao povo; ao território e lugar...E que as cirandas também se constitue em movimento dentro da gestão de saúde de Fortaleza: movimento de chegada, movimento de acolhida; movimento dos olhares; o movimento da vida. As cirandas também se fazem linguagens: linguagens do universo; universo popular; linguagens que a cultura consegue multiplicar. Existe nesta rede um blog, recém criado das cirandas, que você pode ver a primeira postagem que trata sobre a I Mostra "Trilhando e Refletindo o Universo das Cirandas da Vida em Fortaleza". Outras postagem serão feitas brevemente. Sobre as cirandas ainda posso dizer que elas são atitude de cidadania e cultura popular nos processos de saúde: atitude de viver; atitude de ação, atitude integradora; corpo e alma - coração. E tudo nasce no berço da educação popular; educação popular; é caminho; é movimento; é linguagem; é expressão; é atitude; é razão; é sentimento que leva em si a transformação;

Sobre o texto, Shirley, você pode fazer o uso que achar mais conveniente. De minha parte lhe sou grato por esta referência.

Atualmente sou coordenador do Projeto Cirandas da Vida, mas tenho que fazer referência a médica e educadora popular Vera Dantas, que juntamente com outras pessoas valorosas idealizaram, a partir da ANEPS o referido projeto.

Fico a sua disposição para outras informações.

Abraços,

Elias

Quero agradecer a todos e todas...


 

...Que comentaram e acrescentaram valor ao texto...Quando me cadastrei nesta rede, a princípio achei que não ia ser fácil trabalhar com a linguagem poética, em vista do discurso mais formal predominante nos processos de saúde. Encaramos, então, como desafio jogar textos mais leves e não formais em sua estrutura.

Sou grato a você Simone pela possibilidade de alguns textos estarem circulando nos espaços acadêmicos;

Annatalia, sinto-me honrado com seu comentário, porque acompanho também sua participação nesta rede;

Meu companheiro Leonardo Sampaio, que grata surpresa percebere que você se cadastrou neste espaço que agora vamos poder também beber de sua sabedoria;

Sonia Mara, podemos comungar com uma idéia de loucura que se apresenta como oportunidade e contestação à inversão de valores que uma partre da mídia explora como verdade absoluta, dentro da lógica do deus mercado.

Abraços,

Elias

companheria de neoloucura


 

Tens mais algumas aqui pelo RS! obrigada pela inspiração artística que já circula nas salas de aula de psicologia aqui em POA!

Louco é quem me diz que ~ não é feliz


 

Querido Elias,

Lindo poema, que provoca e inquieta, mas aponta caminhos.

Lembrei de outro poeta: dizem que sou louco, por eu ser assim...mas louco é quem me diz que não é feliz...eu sou feliz.

Parabéns

Abraços

Annatália

Lindo poema.

Elias,
Parabéns pelo texto. Nos faz refletir por diversos ângulos da vida, profissionalmente e politicamente.

abraço
Leonardo Sampaio

Louco

 Quem são os normais? tambem me questiono ás vezes  sou normal porque minhas ações muitas vezes são vistas como anormais porque faço demais ou os outros fazem e menos?

 E como diz meu inesquecível Raul : sujeito normal na loucora real, controlando a minha maluques misturada com minha lucides vou ficar com certeza maluco beleza!

Esta rede é fantastica...

Jussara e Jacqueline:

...Esta rede é fantastica, porque acolhe estas nossas idéias e atos e promove o encontro com pessoas como vocês...

 

Abraços,

Elias

louco

 Fantástico seu poema...

Quem faz assim,pensa assim, tenta viver assim só pode ser louco...com carinho jussara

Lindo!

Depois desse poema

Saio a gritar contigo!

um abraço,

Jacqueline Abrantes