ALGUNS ME CHAMAM DE LOUCO...

Este texto foi construído e compartilhado durante o I Fórum de Saúde Mental que aconteceu no início de 2008, evento da Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza, ocorrido no espaço da Universidade Estadual do Ceará-UECE.
ALGUNS ME CHAMAM DE LOUCO...
Alguns me chamam de louco
Quem sabe, eu seja um louco sim
Mas eu grito, grito até ficar rouco
Não me preocupo se acaso riem de mim
Eu grito e grito forte
Na busca de achar um norte
Respostas para os porquês
Quais porquês?
Os porquês que estão na minha e na mente de vocês
Doente mental sou eu?
Porque grito, porque falo e questiono?
Ou doente mental é nada mais e nada menos
Que uma vítima social?
Subproduto da panacéia global?
Neurose coletiva
Medo
Sintomas
Síndrome do pânico
Álcool e drogas
Distúrbios psicosociais
Tudo faz parte da loucura
Dessa panacéia global
Tudo faz parte do todo
E o todo é muito louco
A idade da razão está caduca
A razão anda maluca
Afinal, onde está a razão
Quem tem razão?
Algum louco pode explicar?
Por que o lícito é ilícito
E quase tudo que é ilícito está no ar?
Ah, o dono da TV é normal...
O Big Brotter é legal...
Anormal é não assistir
Não se ligar...
Todos ligados
Audiência total
Equilíbrio psicosocial
Desligar a TV?
Mudar de canal?
Discordar do Pedro Bial?
Ah, isso não é normal
Como ficariam nossos “heróis virtuais”?
Saúde mental é um canal – te liga meu irmão
Canal que sintoniza uma outra dimensão
A dimensão do humano para redução dos danos
Superar os danos que reduzem o humano
Que danos?
Os danos causados pela estrutura
Que massacra o ser humano
Que humano?
O humano que sou eu
Que é você
Qual estrutura?
A estrutura da própria relação Saúde x Doença x
Paciente x Servidor x gestor x usuário x fornecedor...
Esta estrutura é muitas vezes a equação da loucura e do desamor
Mas onde é que fica o nosso louco amor?
Amor que é cuidado
Amor que é cuidador
Amor que coloca o humano em primeiro plano
Amor que supera o ódio e o medo
Amor que acende a chama do que parece louco
Louco desse amor que transforma
E que supera todo aquilo que “normalissimamente” nos deforma
Sistema que procria danos
Sistema desumano
Modelo secular de saúde mental insano!
Desafio da nossa neoloucura: qual desafio?
Construir a cada passo
Um modelo mais e mais humano
Será que alguém ouviu meu grito?
E como eu vai sair a gritar?
Serão um, dez, cem, milhares e milhões de gritos
Loucos de amor, amados e amando
Loucura de amor será
Elias J. Silva – Poeta, Educador Popular – COMOV/ANEPS/Cirandas da Vida.
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Comentários
De poeta e louco...
Oi Elias,
Que belo poema! Parabéns!!!
Realmente, é difícil saber que tem razão e ou quem
tem a razão.
Dizem que de poeta e louco,
todos temos um pouco.
E o que é mesmo a loucura? É difícil de se definir o que é
normal e o que é anormal. Esses conceitos dependem
muito da cultura de cada um.
Louco é quem me chama
é quem não tem alma
é quem apaga a chama
da vida, da emoção
do sorriso, da compaixão
é quem tem medo de amar
é quem não se toca
é quem vive a reclamar
de si, de tudo e de todos
sem nada a acrescentar
Sem nenhuma pretensão. Não sou poetisa.
Um grande abraço!
Emília
Emília, que loucura! Essa de dizer...
...Que não és poetiza...Seu texto poético se funde com o meu post para ampliar a visão dessa loucura que nos aproxima...mesmo com a relativa distância espacial, uma construção se faz nesta comunicação.
Abraços,
Elias
Razão Sensível a do Louco Amor !!!
Lindo Lindo Lindo !!!!!!!!
" Nosso Louco Amor, que é cuidado e e cuidador... que vence as estradas da Vida sem medo e com Ardor ..." Me identifiquei aqui. Em alguns momentos fiquei com os olhos cheios d´'água, melhor, de emoção , porque me remeteu ao trabalho na Comunidade Maria de Nazaré, em João Pessoa, na Atenção Primária em Saúde Mental.
Trata-se de uma Pesquisa-ação em Mestrado. Meu Orientador é o Eymard Vasconcelos. Só que, além da Educação Popular estou trabalhando com a "Antropologia do Imaginário", que é muito semelhante, e aproxima a Psicologia de Jung para a ESF. Na ANTROPOLOGIA DO IMAGINÁRIO, encontramos Maffesoli, Sociólogo transgressor da Academia, e Maravilhoso, que nos vem falar do ' elogio à razão sensível'.
Quero deixar aqui, um Elogio a sua razão sensível, ao escrever este Poema. E também pedir sua autorização para publicá-lo na minha dissertação. Como voce prefere dentro das possibilidades de como devo citá-lo nas referencias bibliográficas ?? Pode ser a partir desta Rede Virtual, com certeza. Tudo bem ? o TRABALHO CHAMA-SE : " GrAImSa: Grupo de Acolhimento ao Imaginário em Saúde" onde trabalho também com as Danças Circulares dos Povos.
Já tinha escutado aqui em Natal, sobre as "Cirandas da Vida". Pensei que fossem Danças Circulares, mas me disseram que não é. Que tal me falar um pouco sobre as Cirandas da Vida ?
Até !!
Shirley Monteiro.
Olha Shirley...
...Seu comentário me alegrou muito pelo fato de você perceber alguma identificação entre práticas e vivências que fazem parte de suas experiências de vida vida e trabalho. Tenho que lhe dizer que não tenho formação acadêmica neste campo da saúde mental, na verdade, estudei teologia e virei uma espécie de sociólogo prático...entrei na saúde com o "canudo" da educação popular, um saber que tem o relevo de muitas vivências - ao longo de 30 anos - no movimento popular.
Nos últimos quatro anos mergulhei de cheio nos processos de saúde coletiva em Fortaleza, a partir do advento do projeto Cirandas da Vida - ação de educação popular e saúde, do Sistema Municipal Saúde Escola de Fortaleza, que parte das histórias de lutas e resistências das comunidades por onde as cirandas têm andado. As Cirandas constróem trilhas de diálogos entre os saberes populares e científicos, se fazem vivências de práticas de cuidado e humanização, avançam na direção da juventude em conflito com a lei, contribui com a organização da socioeconomia solidária, ambiente e moradia e, busca fortalecer uma rede de arte, cultura e saúde, entre outros processos. Eu diria de outra forma, mais fácil de compreensão que as cirandas são: caminhos de aprender; caminhos de ensinar; caminhos que levam ao povo; ao território e lugar...E que as cirandas também se constitue em movimento dentro da gestão de saúde de Fortaleza: movimento de chegada, movimento de acolhida; movimento dos olhares; o movimento da vida. As cirandas também se fazem linguagens: linguagens do universo; universo popular; linguagens que a cultura consegue multiplicar. Existe nesta rede um blog, recém criado das cirandas, que você pode ver a primeira postagem que trata sobre a I Mostra "Trilhando e Refletindo o Universo das Cirandas da Vida em Fortaleza". Outras postagem serão feitas brevemente. Sobre as cirandas ainda posso dizer que elas são atitude de cidadania e cultura popular nos processos de saúde: atitude de viver; atitude de ação, atitude integradora; corpo e alma - coração. E tudo nasce no berço da educação popular; educação popular; é caminho; é movimento; é linguagem; é expressão; é atitude; é razão; é sentimento que leva em si a transformação;
Sobre o texto, Shirley, você pode fazer o uso que achar mais conveniente. De minha parte lhe sou grato por esta referência.
Atualmente sou coordenador do Projeto Cirandas da Vida, mas tenho que fazer referência a médica e educadora popular Vera Dantas, que juntamente com outras pessoas valorosas idealizaram, a partir da ANEPS o referido projeto.
Fico a sua disposição para outras informações.
Abraços,
Elias
Quero agradecer a todos e todas...
...Que comentaram e acrescentaram valor ao texto...Quando me cadastrei nesta rede, a princípio achei que não ia ser fácil trabalhar com a linguagem poética, em vista do discurso mais formal predominante nos processos de saúde. Encaramos, então, como desafio jogar textos mais leves e não formais em sua estrutura.
Sou grato a você Simone pela possibilidade de alguns textos estarem circulando nos espaços acadêmicos;
Annatalia, sinto-me honrado com seu comentário, porque acompanho também sua participação nesta rede;
Meu companheiro Leonardo Sampaio, que grata surpresa percebere que você se cadastrou neste espaço que agora vamos poder também beber de sua sabedoria;
Sonia Mara, podemos comungar com uma idéia de loucura que se apresenta como oportunidade e contestação à inversão de valores que uma partre da mídia explora como verdade absoluta, dentro da lógica do deus mercado.
Abraços,
Elias
companheria de neoloucura
Tens mais algumas aqui pelo RS! obrigada pela inspiração artística que já circula nas salas de aula de psicologia aqui em POA!
Louco é quem me diz que ~ não é feliz
Querido Elias,
Lindo poema, que provoca e inquieta, mas aponta caminhos.
Lembrei de outro poeta: dizem que sou louco, por eu ser assim...mas louco é quem me diz que não é feliz...eu sou feliz.
Parabéns
Abraços
Annatália
Lindo poema.
Elias,
Parabéns pelo texto. Nos faz refletir por diversos ângulos da vida, profissionalmente e politicamente.
abraço
Leonardo Sampaio
Louco
Quem são os normais? tambem me questiono ás vezes sou normal porque minhas ações muitas vezes são vistas como anormais porque faço demais ou os outros fazem e menos?
E como diz meu inesquecível Raul : sujeito normal na loucora real, controlando a minha maluques misturada com minha lucides vou ficar com certeza maluco beleza!
Esta rede é fantastica...
Jussara e Jacqueline:
...Esta rede é fantastica, porque acolhe estas nossas idéias e atos e promove o encontro com pessoas como vocês...
Abraços,
Elias
louco
Fantástico seu poema...
Quem faz assim,pensa assim, tenta viver assim só pode ser louco...com carinho jussara
Lindo!
Depois desse poema
Saio a gritar contigo!
um abraço,
Jacqueline Abrantes