O ESCAMBO DAS CHUVAS – uma lição de democracia entre os saberes

raylimalima | dom, 30/11/2008 - 17:17.
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Por Ray Lima (Poeta e membro fundador do Escambo )

Há 17 anos nascia o I Escambo (teatral) de Rua, hoje denominado Escambo Popular Livre de Rua, na cidade de Janduís-RN, em maio de 1991. Daquele encontro de solidariedade que tinha, por um lado, o povo sofrendo os efeitos da seca e, por outro, a inquietação dos artistas, especialmente dos grupos de teatro do estado, acossados por lutarem em defesa da cultura e denunciar a ausência total de políticas públicas neste campo. É interessante observar que os mesmos políticos perseguidores da época, atualmente fazem oposição ao Lula com discursos absolutamente em favor da democracia, da liberdade de expressão e dos direitos de cidadania, apresentando-se como senhores da ética e guardiões das boas práticas políticas. Em sua trajetória de lutas, O MOVIMENTO ESCAMBO produziu documentos, ações concretas, construiu metodologias e processos pedagógicos de intervenção nas realidades culturais e sociais, decididamente em cidades de pequeno e médio porte, mais fortemente no Rio Grande do Norte e Ceará. Isto não diminui a importância de sua influência nas práticas de muitos artistas e grupos de outros estados e cidades de grande porte como Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Brasília, Campinas-SP, Natal-RN, Fortaleza, Açailândia e Imperatriz-MA, etc. Também a presença interativa e recorrente de mestres populares da cultura, como Gilberto Calungueiro, Antonio da Ladeira, Chico Daniel; de pesquisadores da educação e da cultura popular como Oswaldo Barroso, Enrique Dídimo, Josy e Vera Dantas; de nomes nacionais como Amir Hadad, do Tá na Rua-RJ; Júnio Santos-Cervantes e do poeta brasileiro-argentino Zé Cordeiro, dão ao Escambo a chancela que merece para se afirmar como um dos movimentos sócio-culturais brasileiros mais belos, engajados e fascinantes da atualidade. Poucos movimentos populares, mormente no terreno da cultura, duraram tanto. São quase duas décadas. Existe nele um grau e uma capacidade de renovação incrível. Seja renovação dos conhecimentos, sejam renovação e aperfeiçoamento das práticas artísticas. A cada congresso realizado sentimos que os grupos renovam suas linguagens, seus atores, suas práticas. O fato de ser um encontro de celebração e intercâmbio intenso, os escambistas aprendem, se deixam aprender e apreendem o outro, levando para seus lugares de origem a cachola repleta de saberes e práticas renovadas e enriquecidas. Esta riqueza de aprendizagens em alta proporção, qualidade e velocidade faz da pedagogia do Escambo, um mundo de possibilidades, um centro móvel e dinâmico de construção coletiva de saberes diversos e carregados de significados. Outro aspecto a se observar é a intergeracionalidade dos congressos. Podemos encontrar um mestre popular como Gilberto Calungueiro sentado num banco da praça entre jovens e adolescentes conversando sobre teatro de bonecos, sobre a arte e a vida. Ou um salão repleto deles escutando e vivenciando a sabedoria de Amir Hadad; ou em salas cedidas pelas escolas públicas, pátios, praças, corredores, etc. o encontro de várias gerações onde acontece a “feira dos conhecimentos e práticas artísticas, as vivências entre os grupos. Isso tudo durante o dia. À noite, os espetáculos desenham uma nova geografia para a cidade, enfeitam as ruas de rodas coloridas e alegres, tirando o povo de suas casas para se assenhorear das histórias da vida, das artes e das coisas do mundo. É como que um abraço acompanhado de beijo coletivo, um ato de paz e amorização por meio da sinergia e do poder que a ação cultural possui de unir as pessoas. O final da programação noturna fica a cargo dos palhaços, da música e da poesia. Nesta XXIII edição do Escambo, tivemos o privilégio de receber o poeta Zé Cordeiro, carioca que reside há 15 anos em Rosário na Argentina. Chegou ao Escambo sob muita expectativa por parte dele e dos escambistas que já conhecia sua obra, porém ele era desconhecido da maioria. Por sermos parceiros de vários bons momentos da poesia no Rio de Janeiro dos anos 80/90, nos encontramos no Escambo para facilitar uma vivência sobre Cenopoesia, linguagem que criamos ainda quando morávamos no Rio, muito praticada pelos grupos que fazem o movimento. Sob nossa responsabilidade também estava a realização de um espetáculo cenopoético em companhia dos músicos Filippo Rodrigo (Natal-RN), Jadiel Lima (Maranguape-CE), Tom do Ceará (Icapuí-CE) e Johnson Soares (Fortaleza-CE). Alíás, a cenopoesia é discutida, praticada e incorporada como uma linguagem fundamental hoje do Escambo. Há muitos poetas jovens que aproveitam a cenopoesia para expressar e divulgar seus trabalhos. Bom, concluo esta reflexão apostando na esperança de que outros mundos, menos cruéis e mais bonitos, são possíveis sim. O Movimento Escambo está para alimentar essa história com a simplicidade da marchinha feita no primeiro congresso: “O escambo é troca/Todo mundo quer trocar/Troca eu, troca você/Troca aqui, troca acolá” Só depende de nós e da disposição de buscar o outro com o objetivo de nos tornarmos sempre melhores e humanamente mais potentes do que somos. É bom lembrar que, me misturando aqui com Paulo Freire, diria que “ninguém ama de braços cruzados; ninguém aprende, ensina ou se é sozinho”. Por isso já em um dos primeiros escambioses*, escrevíamos: “ É preciso aprender a semear com a máquina do tempo. É vital, mais que vital inventar:vida e verdades, sonhos e realidades; razão com alegria bailando sobre o espelho das áaguas perenes. Ainda esperamos, coitados, as chuvas do céu,quando deveríamos fazer chover no chão de caos e ilusão;umedecer as pedras, fazendo-as verter poesia; transformar em vida a energia do sol em desperdício que hoje nos flagela e definha. A fome, indústria cega e daninha, há de ser O instrumento maior de transformação, tinta e pincel, A reflexão, o painel sobre a eterna falta. Sobre a miséria a ação, o desenlace sem queda. A inteligência carcomida pela força da moeda será o túmulo dos canibais de consciência. É imprescindível e inevitável que sejamos filó Filósofos de nós mesmos. Criadores e semeadores da nossa própria filosofia. Recriadores confessos do nosso rosto. Decoradores do espaço reservado à nossa causa. Defensores incessantes do grito de liberdade, Do motivo do nosso choro, da grife do nosso riso. Precisamos estar sempre dispostos a corrigir nossos costumes;a mergulhar no abissal dos nossos valores culturais para que venhamos a festejar nossa vanguarda e celebrar a estética do brilho estelar da nossa alma. A estiagem haverá de ser nosso eterno objeto de estudo e a resistência nosso princípio, nossa viagem.”

*Boletim do Movimento Escambo, produzido e veiculado geralmente nos congressos.

Estado/cidade: Maranguape   

Comentários

Potências escambióticas!

Seus textos, sua poesia (e de toda uma galera do nordeste, que vem se apossando dessa Rede e enchendo-a de humanidade exuberante e poesia), têm propiciado momentos de grande deleite e de descoberta de outros mundos possíveis que se abrem aqui e agora, de territórios (brasileiros) em que a vida pulsa, em que a multidão se constitui como explosão "escambiótica" de singularidades.
Essa idéia da "fome como tinta e pincel", que concebe a arte e a cultura como totalmente implicadas no devir humano, me trouxe com grande força as idéias de Artaud que estão no intensíssimo prefácio "O teatro e a cultura":

"Antes de retomar a questão da cultura, eu considero que o mundo tem fome e que ele não se preocupa com a cultura; e que só artificialmente pode-se dirigir à cultura, pensamentos que são, de fato, dirigidos à fome.
O mais urgente parece, não tanto defender uma cultura cuja existência jamais salvou um homem da preocupação de melhor viver e de ter fome, quanto extrair daquilo que chamamos cultura, as idéias cuja força viva é idêntica à da fome."


É um grande privilégio para essa Rede contar com essa presença e hospedar a memória de tanto conhecimento democraticamente produzido: "O escambo é troca/Todo mundo quer trocar/Troca eu, troca você/Troca aqui, troca acolá” Só depende de nós e da disposição de buscar o outro com o objetivo de nos tornarmos sempre melhores e humanamente mais potentes do que somos.

Ray,
Note que os editores da RHS têm realizado um trabalho de inclusão de tags nos posts com o objetivo de facilitar a "catalogação" dos conteúdos que vão sendo publicados e acabam por integrar essa imensa "biblioteca de conversas", que é esta Rede, este "comum" que estamos construindo.
Talvez, você possa aproveitar algumas dessas tags em futuras publicações, para ir mantendo suas contribuições "organizáveis" em grandes grupos temáticos.

Grande abraço,
Ricardo

       Ricardo,

       Ricardo, primeiro quero agradecer suas palavras que me honram, pois acredito serem sinceras pelo que você representa como intelectual do humano e da luta por um mundo mais justo para todos. Depois revelar o quanto fiquei arrepiado pela lembrança do nosso Artaud, que além de grande ator, diretor, autor foi também um rompimento com os pré-moldados do pensamento ocidental. Teve coragem de incluir suas dores, seus sofrimentos no que fez e pensou sem despencar em apelativos sentimentais ou religiosos, atestando o discurso poético como uma razão possível, honesta e bela de ver, refletir e propor olhares novos sobre o humano e a sociedade. Inclusive ele foi na prática um grande desafio para a sociedade (sempre conservadora) encará-lo de frente e com respeito. É claro que assim como ocorreu com Van Gog com ele também a relação foi de desconfiança e maus-tratos. A medicina tradicional, por exemplo, foi uma arma apontada constamente sobre seus corpo e cérebro inteligentes. De lá para cá por conta de muita luta e sacrifícios, alguma coisa mudou, com destaque para a saúde mental em alguns países, mas a caminhada ainda é longa se quisermos mexer de vez com processos vitais mais condizentes com o que poderia ser chamado com justiça e coerência de humano. Quando não precisaríamos mais buscar ajdetivos para tudo e ficarmos o tempo todo caindo em redundâncias próximas do ridículo como: "humanidade humanizada", "humanização da saúde (que é produzida por humanos), "humanização das relações" que usamos cotidianamente sem nos tocarmos.

Creio que o grande tema sempre será a VIDA, incluindo aí todas as suas formas e universos aonde ela possa existir, e a vida em sociedade. A partir daí poderemos discutir o que precisaremos produzir em termos de conhecimentos, de práticas, de relações e sustentos para que ela, a vida, aconteça e permaneça em sua plenitude. O legal é que aí cabe todos e todas: os generalistas, os especialistas, os mestres populares, todos os acúmulos de produção e saberes das sociedades acenstrais e contemporâneas.

Por fim, como dizia mestre João Rosa, "não sei falar, mas sei dizer":        

                    I
A vida, esta sim, pode emergir da lama,
de um talo de capim. Vai surgindo
aos pouquinhos, passo a passo,
leve e firme como um passarinho;
 
                        II
A vida espreita do que nasceu
tudo o que no mundo é ameaça,
desgraça ou sorte, sempre atenta
como o pisar de pluma de garça.
                                  
                       III      
Ás vezes ela parece brincar e passa
a jogar de esconde-esconde consigo mesma.
Porta-se como gato e rato de desenho animado,
finge-se curto ou longo jogo vital.                          
                        
                      IV
Eia! Eia! Vida veloz como um jato,
quente como lavas de vulcão;
fria como morte matada,
lerda como lesma, passos de preguiça.
 
                       V
A vida faz de tudo para não morrer.
Porém, quando chega aquela hora,
ela nem responde nada. É que a morte
jamais lhe perguntou coisa alguma.
 
                      VI
A vida não tem hora para viver,
mas às tardezinhas ela gosta de comer mole;
deita a beliscar coisas em solo fértil,
onde a alegria e o prazer fazem pouso,
e juntos ficam a comemorar o instante
de ação e graça.            
 
                  Ou

então deita-se a balançar numa rede
à beira de um lago, rio ou mar;
bebe vinho, conversa lorotas,
respira pelos poros e começa
a soprar nas águas profundas da alma
na ilusão de encontrar,  em vida,
a humanidade perdida ou nunca encontrada.
 
                        VII
A vida é engraçada porque não tem mágoas.
Se as tivesse, ai daqueles que dizem cultivá-la:
os tais humanos.
  
                          VIII
Uma vez por outra ela, a vida, costuma
se agachar para ver se algum idiota
cai na tentação de passar por cima ou saltá-la.
É caso certo de notório tropeço na vida
ou de típico salto mortal.
                         IX
Às vezes me ponho a pensar...
o que a vida pensa de mim?
Quando está comigo e olha para mim?
Quando - por algum motivo - interior
ou exterior à relação que estabelecemos
entre nós, no mundo e com o mundo -
ameaça me abandonar? Por que
me abandonaria? O que faria sem mim?
Como sobreviveria se digo: minha vida.
E não vida minha dos outros?
Afinal, a vida é minha ou dos universos?
A quem pertenço, afinal?
Sou de mim mesmo, de quem me pôs no mundo ou de quem me explora feito escravo eterno?
A quem pertence o nosso ser e estar no mundo?
Quem é responsável pela vida e
pela sociedade em que vivemos?
Quem produz e como produz o comemos e consumimos?
Por que produzimos, comemos e consumimos certas coisas sem a vida nos pedir?
                 
                   X 
Sempre fui estimulado a expressar
o que penso da vida e nunca o contrário.
Será que a vida pensa? Ou tal preocupação
está dispensada?
                               
                               XI
 
Bem, isso já não tem tanta importância assim.
O tempo é bom, mas a danada da tardezinha
já se vai e com ela a vida acorda e corre.
Corre, não. Segue. Segue?

                       XII
Hoje trabalhei tanto. Convivi também.
Andei que só pela cidade.
Vi tanta coisa, tanta gente...
Mas afinal, que impressões de minha cidade
trago comigo agora? Que imagens me ficaram
dessa caminhada esperta?
O que posso fazer, a partir do que vi,
nessa cidade refletida em minha alma?
Como posso extrair dela e do mundo
a essência vital que me alimenta?
O que ontem não via e hoje enxerguei belamente?
Como agir, considerando esse novo olhar,
ainda hoje, amanhã, depois de amanhã?


Um grande abraço,

Ray Lima