Saúde Mental em São Paulo ameaçada de perder mais um serviço importante

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Saúde Mental em São Paulo ameaçada de perder mais um serviço importante

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

Mais um momento de perplexidade na já tão combalida rede de saúde mental de nossa cidade: o governo ameaça fechar um serviço em nome de uma tendência que vem crescendo em alguns países no sentido de balizar apenas os olhares biologizantes, supostamente científicos, sobre os acontecimentos da vida.

Os argumentos de que serviços de base psicanalítica não contam com eficácia comprovada e de que a produtividade é pequena tomaram a cena. Somos todos testemunhas hoje da onda simplificadora das vivências, numa ditadura da máxima velocidade da resolução de conflitos. A "eficiência" tem pressa. E a indústria farmacêutica também, por motivos óbvios.

Dois movimentos mundiais, o "Pas0deconduite" ( "chega de zero em conduta", numa tradução livre) e o STOP - DSM têm se batido contra esses argumentos e denunciado os modos de tratamento estratégicamente apressados.

Os links abaixo trazem mais informações sobre os movimentos de resistência:

http://www.redehumanizasus.net/12583-pas0deconduite-multiplicidade-despedacada

http://www.redehumanizasus.net/12598-coloquio-na-puc-sp-discute-a-experiencia-de-paris-com-a-questao-da-medicalizacao-da-infancia

http://www.redehumanizasus.net/13137-stop-dsm-rio-de-janeiro-entra-nesta-luta-pela-vida 

Publicamos abaixo a carta do CRIA - UNIFESP:

 

COMUNICADO OFICIAL DA COORDENAÇÃO E DA EQUIPE TÉCNICA DO CRIA-UNIFESP DIANTE DO ENCERRAMENTO DE SUAS ATIVIDADES


O nosso objetivo é partilhar a indignação diante de grave acontecimento decorrente de uma tendência que vem prevalecendo no sistema estadual de saúde.

O governo de SP, através da Secretaria Estadual de Saúde (SES), assumiu, oficialmente, que serviços de base psicanalítica não contam com eficácia comprovada. Nesse contexto, propõe encerrar o apoio financeiro que há mais de dez anos confere ao Centro de Referência da Infância e Adolescência - CRIA.

O CRIA foi inaugurado em 2002, por um convênio entre a UNIFESP e a SES, com a interveniência da SPDM. É uma instituição que realiza cerca de 1200 atendimentos mensais de bebês, crianças, adolescentes e seus familiares através de uma equipe interdisciplinar que garante uma visão e assistência global aos pacientes.

A assistência prestada pelo CRIA é abrangente e inclui pacientes com diversas patologias graves. Para nosso espanto, a diretriz atual da secretaria de saúde do Estado de São Paulo criticou severamente o fato de atendermos qualquer queixa ou diagnostico afirmando que a população alvo deve ser composta por pacientes psicóticos e autistas. Entendemos que todo sofrimento merece ser escutado e tratado sem delimitar sua atuação em função de uma única patologia, diferentemente do que prega o mainstream atual das práticas médicas e assistências vigentes em nossa atualidade.

Nossos encaminhamentos são oriundos de diversas instituições (abrigos, escolas, creches, conselhos tutelares, vara da infância, hospitais, caps e outros serviços de saúde mental) que sideradas e apavoradas diante daquilo que escapa a nomenclatura dos manuais classificatórios nos procuram e demandam atendimento a esta população, pedindo ainda, em muitas situações, supervisão para a própria equipe.

Em que espaços serão escutadas e trabalhadas nas suas questões, as crianças que estão vivendo um luto pela morte de algum parente próximo, os adolescentes adotados, devolvidos por seus pais para abrigos? Ou mesmo adolescentes em relação fusional com seus objetos primordiais que fazem em seu próprio corpo os cortes simbólicos que não estão operando em seu psiquismo, levando-os a sérias tentativas de suicídio? Sem falar ainda nas inúmeras crianças que estão com fobias que a impedem de ir à escola, estudar ou aprender? Ou ainda os adolescentes chamados delinquentes que buscam a qualquer preço uma referência? E as crianças vitimas de violência, que necessitam de um espaço para falar?

Desta forma, ainda que atendemos, ao longo destes dez anos, crianças autistas e adolescentes psicóticos (temos dois programas estruturados para isso além de um programa de atendimento de bebês que procura identificar sinais de risco para tais patologias e intervir precocemente) não restringimos assistência à estas patologias.

A razão de nossa posição se deve à nossa concepção de clínica que considera como aspecto fundamental a plasticidade dos sintomas apresentados na infância e adolescência, e além disso, o fato do sofrimento destes jovens  estarem referidos a dinâmica familiar a qual estão inseridos. Se isto, por um lado, torna a tarefa clinica muito mais complicada e desafiadora, por outro, também garante as intervenções um grande poder de êxito, tornando esta clinica muito menos sujeita a cronificacão das patologias e por isso muito mais flexível e surpreendente.

Muitos pacientes que foram atendidos no CRIA melhoraram de seus sintomas e puderam retomar sua vida e seu desenvolvimento.  Mas não nos dispomos e nem nunca tivemos a pretensão de isentar os nossos pacientes de fazer calar sua angustia. Os convidamos com disponibilidade a que eles falem e escutem a história que acompanha seu sofrimento, o que se coloca nas entrelinhas, as várias versões sobre o que se apresenta como sintoma.

O fechamento do CRIA representa também uma perda na formação de médicos residentes, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais que la realizam suas primeiras experiências clinicas com crianças e adolescentes e que aprendem que por detrás de um diagnóstico, de uma patologia, existe um ser humano que sofre.

O CRIA, por estar inserido numa Universidade, oferece muitas horas de trabalho de sua  equipe na formação de estudantes e outros profissionais da rede por meio de supervisões clínicas, aulas, palestras, seminários e simpósios. Infelizmente, a SES ignora tais atividades afirmando que a instituição produz pouco.

A produtividade de um serviço que prima pela qualidade não pode ser medida apenas levando em conta números de atendimentos. O CRIA oferece aos pacientes consultas de longa duração para que possam falar de suas questões que ultrapassam a descrição fenomenológica dos sintomas.

A SES, ao fechar o CRIA, leva em consideração as consequências para os pacientes que há anos lá se tratam? Como responderão adolescentes que já tentaram suicídio diversas vezes e que lá encontraram um espaço para falar de seus sofrimentos sem precisarem recorrer a uma forma tão dramática? E as crianças tão vinculadas aos profissionais que há anos as atendem?

Nos resta agora a lamentável tarefa de dizer aos pacientes e seus familiares que há mais restrições de assistência a eles  no quadro da nossa saúde pública. Dizer a eles que o sofrimento que os levou a buscar atendimento não é suficiente nem legitimo de merecer escuta e trabalho. E que o vínculo que fizeram com os profissionais é irrelevante. Ainda que do ponto de vista epidemiológico seus sintomas e queixas componham parte significativa da demanda de atendimento.

 

Outra carta denuncia também a afronta ao SUS:

 

Caros colegas e integrantes da rede, e colegas destinatários a quem endereço também esta mensagem, do meio acadêmico-cientifico brasileiro,


O que esta Resolução do Governo de São Paulo constitui é, como dito por Cristina Ventura e Luiza Victal, uma afronta ao SUS, sem dúvida, mas que também se desdobra em outros níveis:

a) numa afronta aos usuários e familiares que, se muitas vezes apóiam - por razões que não nos cabe aqui nem validar nem condenar - os métodos comportamentais, especializantes e "educativos", também, quando podem, apóiam veementemente as práticas clínicas amplamente desenvolvidas pelos CAPSis, que afirmam a diversidade de quadros clínicos em uma proposta de tratamento que não faz do espectro autista um selo diagnóstico a ser tratado por formas excessivamente rígidas e especializadas de adestramento comportamental mas privilegia a posição subjetiva - categoria perfeitamente objetivável no plano cintífico - do portador das diversas formas e graus de autismo no laço social. Há inúmeras experiências exitosas nesse sentido, e inúmeros serviços que as exercem e comprovam, todos da rede pública de saúde mental infantp-juvenil brasileira; Além deste fator, que diz respeito à variação n as posições dos familiares dos usuários atendidos, cabe lembrar que uma política pública responsável e conseqüente não pode basear suas decisões e diretrizes em "preferências imediatas" do usuário, caso em que deveríamos cumprir as exigências de uma determinada família que, ainda que por desespero, insista em que um parente seu seja defitivamente internado em um manicômio, ao invés de realizar um trabalho junto a esta família no sentido de, acolhendo sua demanda desesperada, apontar-lhe no entanto outras possibilidades bem mais benéficas para a saúde de todos. Uma política efetivamente dirigida aos interesses da população não pode confundir o interesse de grupos sociais (democratismo demagógico que via de regra esconde outros interesses que não os manifestados por esses grupos ) com o interesse mais amplo da população como instância coletiva e anòminamente pública (o "para todos") e não a grupos nomeados de indivíduos privados (o "pa ra alguns"). Por isso toda política deve introduzir mediações no conjunto de demandas imediatas, entrecruzadas no meio social.

b) numa afronta a todos os profissionais que enfrentam com disposição e determinação esta clínica espinhosa e difícil, mas viável e frutífera, com grande empenho em sua formação profissional, ética, conceitual e clínica, e que, por terem boa formação científica, não sustentam a unicidade e a hegemonia de uma uma só orientação técnica em seu trabalho como sendo "científica". A própria concepção segundo a qual só uma orientação seria válida do ponto de vista científico é, em si mesma, anti-científica, revelando, em gritante paradoxo inscrito em seus próprios termos, sua clara condição de enunciado ideológico, tendencioso e dogmático, movido por interesses que estão longe de basear-se na pesquisa e nos anseios verdadeiramente científicos de avanço do conhecimento sobre a realidade, nela incluindo o sofrimento psíquico.

c) numa afronta à democracia, modo de organização política da sociedade que mais se solidariza e compatibiliza com as práticas científicas, por valorizar a diversidade, a liberdade de pensamento e expressão, condições essenciais a todo pensar que, como o científico, requer livramento de amarras, preconceitos, dogmatismos religiosos, ideológicos ou mercantis para seu exercício e florescimento.

d) finalmente, esta Resolução constitui uma afronta às Leis Brasileiras, que não admitem sectarismos, partidarismos e favorecimentos parciais e tendenciosos, privatistas, portanto, nos Atos Públicos. Trata-se de uma Resolução ilegal do Governo de São Paulo, e, como tal, em uma sociedade democrática, requer coibição e,punição pelas instâncias legais, a quem cabe o zelo pelo cumprimento da lei e da justiça no Brasil, particularmente no que concerne às ações do Poder Público, em tese cioso de cuidar do Bem Comum.

O que sugiro? Que empreendamos ações concretas e cabíveis no sentido de impedir um tal desmando e uma tal privatização técnica, acompanhada de favorecimentos financeiros inequívocos por parte da uma gestão pública de saúde, após verificação das condições tanto políticas quanto legais que possam dar respaldo concreto e eficiente a essas ações.

As instâncias universitárias, integrantes da Comunidade Científica Nacional (e internacional) podem e devem ser convocadas a se manifestar, uma vez que é esta comunidade que é invocada como dando sua suposta concordância à escolha exclusiva e injustificável de um único método de tratamento a um convênio público. Convoco prontamente o Programa de Pós-Graduação em Psicanálise da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que integro desde sua fundação em 1998 e que hoje coordeno, e que conta em seu qualificado quadro docente com pesquisadores de longa experiência neste campo, bem como Programas e instâncias acadêmico-científicas co-irmãos (Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da UFRJ, Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC-Rio, entre outros), e particularmente   Faculdade de Saúde Pública da USP, por estar na cidade e no estado federativo de onde partiu esta Resolução (São Paulo), em particular o Curso de Especialização em Psicopatologia - a cujos colegas envio esta mensagem -, para que se associem a esta reação de repúdio e impedimento desta insustentável, tendenciosa e ilegítima Resolução.


Luciano Elia
Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Psicanálise do Instituto de Psicologia da UERJ e Diretor Científico da APPEC - Assistência e Pesquisa em Psicologia, Educação e Cultura, ONG da área de Saúde Mental.

 72 COMENTÁRIOS

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

 

Guattari habla de micro-fascismos que existen en un campo social sin estar necesariamente centralizados en un determinado aparato de Estado (...)

"El peligro de la segmentariedad dura o de la línea de ruptura aparece por todas partes. No sólo concierne a nuestras relaciones con el Estado, sino a todos los dispositivos de poder que trabajan nuestros cuerpos, a todas las máquinas binarias que nos cortan, a todas las máquinas abstractas que nos sobre-codifican; concierne a nuestra manera de percibir, de actuar y de sentir, a nuestros regímenes de signos. (...) 

in Deleuze, G. & Parnet, C.: Diálogos. Valencia: Pre-Textos, 1980, 160-162

Emilia Alves de Sousa is offline

A onde vamos parar com tanto "desmonte" e "desmantelo" na gestão pública? A quem interessa essas privatizações desenfreadas da saúde? É o estado cada vez mais ficando mínimo. Precisamos reagir e dar um basta nas sandices desses políticos descomprometidos com os interesses do povo!

Belo post Iza!

Beijos!

Emília

oliver.prado is offline

Poxa, vc está falando sério mesmo? 

Então além de tentar vincular a análise do comportamento à medicalização (o que é um grave preconceito, uma perversidade e uma completa ignorância) depois você quer convocar a "comunidade científica" que é composta apenas de psicanalistas?

É isso que é humanizar? E me diga se existe alguma política pública para autismo que não seja baseada em psicanálise e nesse caso onde que fica a opção de escolha do usuário?

Hoje existe apenas um método para autismo no serviço público e este é o método psicanalítico. 

A exclusão que os psicanalistas fazem é a mais perversa de todas. Estando no comando de diversas instituições, elaboram editais de concursos pedindo "obras completas de Freud" de forma a excluir qualquer um que não seja psicanalista.

Ainda todo mundo sabe que psicanalistas tem enorme resistência em relação a avaliar seu próprio trabalho e demonstrar resultados publicamente. 

 

 

 

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

Você poderia citar quais são estes locais ou equipamentos? 

Também não conheço trabalhos dos cognitivistas "demonstrando" resultados publicamente. Você poderia nos contar sobre eles?

Podemos conversar sobre o que é "comportamento". Estranha formulação que comparece em todos os relatórios de escolas encaminhando crianças com "TDAH" e outros supostos "transtornos do comportamento". Estranha formulação que se pretende científica e se baseia na mais empírica das observações.

Iza

oliver.prado is offline

O CRIA UNIFESP é um destes locais, exclusivamente psicanalista. Lá pode ter certeza de que analista do comportamento não entra nem com reza brava.

Outro local é a escola "lugar de vida", também exclusivamente e assumidamente psicanalítico. Lá também é proibido entrar analista do comportamento.

Mas a realidade é que não existem políticas públicas definidas e especializadas para tratamento do autismo. Isto está sendo construído e o edital faz parte desta construção.  

http://blig.ig.com.br/acessivelparatodos/2009/04/19/atendimento-aos-auti...

http://falandodeautismo.com.br/site/acoes-civeis/98-justica-manda-estado...

 

Existe farta literatura científica que demonstra resultados das metodologias da análise do comportamento para autismo. Não confunda com "cognitivismo".  

Aqui uma seleção de alguns estudos brasileiros e latino americanos que estão utilizando as metodologias especificadas no edital. Também resultados de bases de dados específicas sobre resultados (estes internacionais). Além disso existem universidades públicas (ex: UFSCar) que produzem de maneira sistemática estudos a nível de pós graduação sobre o tema autismo 

PECS

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1517-55452...

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S0104-5687200500... http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1516-1846200900...

http://newpsi.bvs-psi.org.br/tcc/93.pdf (TCC) http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-554520... (artigo)

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1516-1846201100...

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-56872005000...

http://cochrane.bireme.br/cochrane/main.php?lib=COC&searchExp=PECS&lang=pt 23 registros The Cochrane Library

TEACCH

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1516-1846200900...

http://cochrane.bireme.br/cochrane/main.php?lib=COC&searchExp=TEACCH&lan... 6 registros The Cochrane Library

ABA

Argentina http://www.scielo.org.ar/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1668-702720...

Colômbia http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0120-0011201...

México http://www.scielo.org.mx/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0185-3325201...

Autor: Guilhardi, Cíntia; Romano, Cláudia; Bagaiolo, Leila.

Título: Análise aplicada do comportamento e contribuições para a intervenção junto a indivíduos com desenvolvimento atípico / Applied of behavior analysis and contributions for working with individuals with atypical development

Fonte: Temas desenvolv;12(69):8-14, jul.-ago. 2003.

http://cochrane.bireme.br/cochrane/main.php?lib=COC&searchExp=ABA&lang=pt 100 registros The Cochrane Library (não inclui apenas autismo)

 

O que é "comportamento"??

O significado de "comportamento" no senso comum, no contexto do TDAH/Dislexia e no contexto da análise do comportamento são diferentes.

Autismo não é TDAH nem dislexia. 

"comportamento" para análise do comportamento significa todas as ações do organismo que tem relação com o ambiente. Logo, tudo o que uma pessoa faz (seja público ou privado/interno/mental) é comportamento.

Confundir "comportamento" (termo técnico) com "comportamento" (senso comum) é similar a confusão entre "sexualidade" (para psicanálise) e "sexualidade" (senso comum)

Qual a posição das associações de autismo??

http://www.ama.org.br/site/pt/tratamento.html

Veja que a própria associação de amigos do autista está dizendo que as metodologias da análise do comportamento são as mais indicadas.

E não confunda a AMA com as associações de TDAH/DISLEXIA. Observe que nas últimas seus sites são patrocinados por laboratórios. 

Observe que o site da AMA não recebe apoio nem de laboratórios nem de corporações médicas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

DA SECRETARIA DO DEPARTAMENTO 27-11-2012


Nota do Departamento de Psicanálise 

  
    

O Departamento de Psicanálise repudia veementemente a recente decisão da Secretaria Estadual de Saúde de extinguir o serviço do CRIA, uma instituição que vem se dedicando desde 2002 ao atendimento de bebês, crianças, adolescentes e seus familiares através de uma consistente clínica interdisciplinar. A alegação é da inadequação da terapia psicanalítica como método de tratamento das graves patologias que esse serviço acolhe.
Antes ainda, a publicação de um edital da mesma Secretaria, para clínica com crianças autistas exigia um trabalho de avaliação psicológica cognitiva e comportamental.
Somados ambos fatores à pressão crescente exercida pelos laboratórios psicofarmacológicos no intuito de padronizar tratamentos sintomáticos das doenças mentais, queremos alertar a população, as instituições públicas de saúde e aos colegas psicólogos, psicanalistas e psicoterapeutas da escalada de violência contra nossas práticas que reivindicam a apropriação subjetiva do conflito psíquico na análise de suas múltiplas determinações: históricas, familiares e sociais.


Conselho de Direção
Anna Mehoudar, Eva Wongtschowski, Heidi Tabacof, Isabel Mainetti Vilutis, Mara Caffé, Maria Antonieta Whately, Maria Aparecida Kfouri Aidar, Maria Beatriz Costa Carvalho Vannuchi, Maria Marta Azzolini e Noemi Moritz Kon.

oliver.prado is offline

Aprendemos desde a infância que mentira tem perna curta:

1 - Secretaria Estadual de Saúde não tem como extinguir um serviço de uma universidade federal. Eles cortaram a verba pelos seguintes motivos: O serviço é exclusivamente psicanalítico, deveria ser um serviço especializado em autismo e psicose mas é generalista e tem baixa produção em atendimentos.

 

2- O edital publicado foi motivado por decisão judicial na qual o estado de SP foi obrigado a ofertar políticas públicas para autismo que tivessem comprovadamente resultados para a população. Não se trata de avaliação psicológica cognitiva comportamental e sim de metodologias de intervenção baseadas em análise do comportamento. Trata-se de focar em resultados. 

 

3- Não existe relação deste contexto com outros contextos nos quais realmente a indústria da doença exerce pressão e lobby. Neste caso (autismo) o foco do trabalho não é medicamentoso e sim em aprendizagem. Não é "sintoma versus transtorno". É construção de repertório comportamental para proporcionar melhor qualidade de vida e melhor comunicação para as crianças com autismo. 

 

Só um PSICANALHISTA é capaz de fazer lobby e perversamente enganar profissionais, população e instituições com argumentos dessa natureza. 

O debate entre psicanálise e/ou análise do comportamento para autismo deveria ser um debate técnico e científico e não um debate político. 

 

 

 

 

 

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

Apesar do tom raivoso que transparece em tuas palavras, o que me remete a pensar que estas questões te mobilizam, vamos conversar a partir das questões concretas.

Quando digo que há uma estreita relação entre medicalização da vida e comportamentalismo, estou trazendo para a apreciação de todos o modo como foram construídos os DSMs ( Manual De Diagnóstico em Saúde Mental ). Este é apenas um dos exemplos e vou explicitar cada passo. Podemos fazer o mesmo com o exame dos princípios e práticas das terapias comportamentais.

O "Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea", de Alfredo Jerusalinki, traz um artigo bastante esclarecedor destas relações. "O DSM-IV: uma metafísica comportamentalista" faz um trajeto das várias referências e legitimações da construção das várias edições do manual.

Que tal irmos por aqui?

Iza Sardenberg

oliver.prado is offline

Olá Iza, você está equivocada em pensar que existem relações entre DSM (ou similares) e análise do comportamento.

Veja, quando a palavra "psicanálise" ou "psicanalista" ou "inconsciente" aparece, por acaso isso significa que realmente a psicanálise (séria e verdadeira) esteja presente??

E de qual psicanálise se fala??

Do mesmo modo quando se fala em "comportamento" ou "comportamental" ou mesmo "cognitivo-comportamental" ou "comportamental-cognitivo" é preciso verificar se isso é ou não é análise do comportamento fundamentada no behaviorismo radical. Em muitos casos não é.

Também, seria pouco provável que uma literatura da psicanálise pudesse descrever de maneira precisa a análise do comportamento e vice-versa

Assim, se vc deseja saber qual a posição da análise do comportamento (a skinneriana) sobre sistemas como DSM, veja um artigo clássico brasileiro

http://www.revistaptp.unb.br/index.php/ptp/article/view/1528/480

Se vc não quiser se dar ao trabalho de ler, saiba que a analise do comportamento não participa, não se baseia, não valida e não utiliza como critério de análise o sistema do DSM ou similares.

A única função disso é ser um rótulo (nome) que pode ser utilizado para comunicação entre profissionais

 

 

 

 

 

 

 

 

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

Caro Oliver,

Agora podemos falar a mesma língua. Como diz uma médica da UNICAMP, a Dra. Aparecida Moysés, não se faz ciência sem discussão de saberes. O conflito de idéias só faz aumentar a capacidade de crítica e produção de conhecimento.

Partindo justamente do texto que vc me pediu para ler, encontro um dos problemas que aproximam a medicalização do comportamentalismo. Mas podemos conversar sobre uma possível leitura incorreta de minha parte.

O texto "Classificação e Diagnóstico na Clínica: Possibilidades de um Modelo Analítico-Comportamental" traz explicitamente a necessidade de fundamentação do diagnóstico em "dados empíricos". Se isto não for um princípio caro à análise do comportamento, não sei nada sobre ela realmente. Observação de comportamento pressupõe distanciamento "científico" ( positivismo básico ), categorias "objetiváveis", um primado portanto do mundo empírico. Nada do que os sujeitos formulem sobre si será objeto da análise, pois o que dizem só tem sentido se estiverem  contemplados numa classificação diagnóstica feita por outros. Singularidade é algo que não se encaixa neste mundo supostamente objetivo.

A relação deste modo de "observar o comportamento" com o processo de medicalização é evidente. Veja o conceito:

"Entende-se por medicalização o processo que transforma artificialmente questões
não médicas em problemas médicos. Problemas de diferentes ordens são
apresentados como  “doenças”, “transtornos”, “distúrbios” que escamoteiam as
grandes questões políticas, sociais, culturais, afetivas que afligem a vida das pessoas.
Questões coletivas são tomadas como individuais; problemas sociais e políticos são
tornados biológicos. Nesse processo, que gera sofrimento psíquico, a pessoa e sua
família são responsabilizadas pelos problemas, enquanto governos, autoridades e
profissionais são eximidos de suas responsabilidades. 
Uma vez classificadas como “doentes”, as pessoas tornam-se “pacientes” e
consequentemente “consumidoras” de tratamentos, terapias e medicamentos, que
transformam o seu próprio corpo no alvo dos problemas que, na lógica medicalizante,
deverão ser sanados individualmente.  Muitas vezes, famílias, profissionais,
autoridades, governantes e formuladores de políticas eximem-se de sua
responsabilidade quanto às questões sociais: as pessoas é que têm “problemas”, são
“disfuncionais”, “não se adaptam”, são “doentes” e  são, até mesmo, judicializadas. aprendizagem e os modos de ser e agir – campos de grande complexidade e
diversidade  – têm sido alvos preferenciais da medicalização. Cabe destacar que,
historicamente, é a partir de insatisfações e questionamentos que se constituem
possibilidades de mudança nas formas de ordenação social e de superação de
preconceitos e desigualdades.
O estigma da “doença” faz uma segunda exclusão dos já excluídos  – social,
afetiva, educacionalmente – protegida por discursos de inclusão.
A medicalização tem assim cumprido o papel de controlar e submeter pessoas,
abafando questionamentos e desconfortos; cumpre, inclusive, o papel ainda mais
perverso de ocultar violências físicas e psicológicas, transformando essas pessoas em "portadores de distúrbios de comportamento e aprendizagem"
(http://www.crprj.org.br/documentos/2010-manifesto_forum_medicalizacao.pdf ).

 

O texto que você me envia, ou melhor, uma parte dele coloca a via empírica como um lugar privilegiado de acesso ao entendimento dos sujeitos e sua relação com as categorias EMPÍRICAS do DSM. Vejamos:

A terceira versão do Manual, O DSM-III, publicado em
1979, apresentou diferenças em relação às duas primeiras
edições, sendo que a meta principal foi a adoção de um caráter "não teórico" (Pichot, 1994, p. 238) ou de um enfoque
descritivo "que tentava ser neutro em relação às teorias
etiológicas" (АРА, 1995, p. xvii). Ao lado disso, foram
introduzidas "inovações metodológicas, incluindo critérios
explícitos de diagnóstico [e] um sistema multiaxial" (АРА,
p. xvii). Na revisão de critérios de diagnóstico, foram incorporadas "observações mais diretas de padrões específicos
de comportamentos" (Ciminero, 1986, p. 3) e ampliadas as
categorias diagnósticas - de 182, apresentadas no DSM-II,
para um total de 265 (Morey, & cols., 1986, p. 59), que ao
lado de estudos de fidedignidade tornaram o DSM-III "menos ofensivo [aos behavioristas] em termos teóricos" (Hayes
& Follette, 1992, p. 345). No entanto, as mudanças conferidas
às categorias diagnósticas do DSM-III não foram consideradas suficientemente fundamentadas em dados empíricos.

"Dados empíricos" não podem explicar nada sobre a experiência humana.

oliver.prado is offline

Iza, não tem como falarmos exatamente mesma língua, pois "empírico" tem significados muito distintos. Psicanálise e análise do comportamento embora sejam visões de mundo deterministas (diferentemente de fenomenologia e existencialismo) possuem enormes diferenças.

No que diz respeito a medicalização (uma discussão que vai além da psicanálise, análise do comportamento e psicologia) o texto deixa claro que um analista do comportamento faz sua análise de acordo com uma lógica que não é a do DSM/CID.

A singularidade tem um espaço privilegiado na análise do comportamento, todo o foco é na singularidade individual. Os indivíduos são únicos, com histórica de vida única. Mantém em comum uma história evolutiva da espécie humana e podem manter em comum uma mesma cultura, mas a história de cada um é sempre singular.

Num trabalho clínico tudo o que os sujeitos formulam sobre si (e o que eles fazem na presença do analista) é objeto de análise. Isso é comum no trabalho clínico, pois são as fontes de informação disponíveis. Se não fosse assim o que um analista do comportamento clínico estaria fazendo em uma sessão de psicoterapia? 

Também se analisa o contexto maior do ambiente em que este sujeito está inserido, com todas estas questões que você colocou acima.

O problema da medicalização ou patologização da vida não estritamente relacionado a uma ou outra abordagem e nem relacionado apenas a psicologia. É uma postura política e não técnica.

Sua forma de abordar a questão tenta vincular "empírico" a "medicalização", e acha que "empirico" é algo necessariamente negativo, que não explica nada sobre a experiência humana. 

Isso aponta para uma das diferenças entre psicanálise e psicologia (análise do comportamento incluída) e também nos compromissos de cada uma. 

No campo do autismo isso fica bastante explícito:

Eu fico com a impressão que a psicanálise está fazendo uma clínica do autismo, ignorando o empírico e as demandas tanto da sociedade como das famílias e do próprio individuo autista, em prol de privilegiar as demandas do inconsciente deste. Do compromisso em mapear ou teorizar sobre quais são os recalques ou sintomas.  (é correta a minha análise?)

Já a psicologia (usando metodologias da análise do comportamento) vai trabalhar com autismo numa perspectiva educacional e aprendizagem.

Vai se preocupar em ensinar habilidades de comunicação, em melhorar a qualidade de vida e inserir esse sujeito no mundo.

Não é uma clínica do autista e sim uma escola para o autista. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

Agora estamos num nível possível de conversa, Oliver!

Repare que centenas de pessoas ( 149 até agora ) compartilharam este post, o que denota que o assunto lhes interessa. Sigamos com argumentos consistentes.

Falar sobre as práticas concretas e suas afiliações ético-políticas de modo respeitoso nos tira também de nossas radicalizações, eu por um lado e você por outro.

Não chegaremos a um pastiche de nossas escolhas, mas caminharemos pelas veredas do trabalho clínico propriamente dito. Aqui, a política também está entranhada de um modo profundo. O contexto, como vc chama esta dimensão, não está lá fora, mas entranhado na constituição subjetiva de cada um. 

Inicio com uma pergunta: existem padrões de comportamento para a análise do comportamento?

oliver.prado is offline

Olá Iza, vamos conversar. Eu estou aproveitando todas as oportunidades.

Na imagem acima estão representados "padrões" de comportamento. A partir de diferentes relações resposta-consequência, diferentes padrões de comportamentos são modelados. 

http://en.wikipedia.org/wiki/Reinforcement#Schedules

Geralmente quando se pretende conhecer ou manipular estas propriedades do comportamento os estudos são feitos em laboratório.  Estes padrões fazem parte também do nosso repertório, mas como as relações entre as pessoas e seu ambiente é muito complexa e histórica, nosso comportamento não se torna tão "padronizado" ou previsível em comparação ao comportamento no laboratório.

Um estudante que inicia o estudo para prova na véspera pode estar se comportando de acordo com um padrão chamado FI (a curva preta na imagem)

Já um vendedor que busca diariamente bater suas metas pode estar se comportando de acordo com um padrão chamado VR (curva vemelha)

Então sim, existem padrões de comportamento. Isso é tratado como um fato.

 

Agora deixa eu te fazer uma pergunta: 

A psicanálise inegavelmente tem muito conhecimento útil produzido a partir da prática da própria psicanálise (ou em termos mais gerais, psicoterapia). 

Esse conhecimento quando se mostrou relevante (em termos práticos e produzindo resultados) foi utilizado e adaptado pela análise do comportamento em uma de suas formas de psicoterapia.

Transferência e Contratransferência: uma visão comportamental http://www.redepsi.com.br/portal/modules/soapbox/article.php?articleID=108

Você acha que uma psicanálise ou que psicanalistas estariam dispostos a entender o que se faz com PECS, TEACCH e ABA e então se apropriar disso, adaptar e usar na prática com autistas?

 

 

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

Eu sei que existem "padrões de comportamento" para os analistas do comportamento e te perguntei justamente para que a resposta viesse de ti. E com apresentação de gráficos, que no entendimento deste modo de pensar constituem o que chamam de observação, quantificação e "cientificidade".

Aí está o EMPÍRICO de que eu falava. O problema é que a própria dimensão empírica já é sempre um amálgama de um modo de ver a realidade recheado de olhares que o contróem. Esses olhares não são "objetivos" nem em laboratório. A escolha do que é observado já tem a marca de um mundo que se quer explicitar.

Se buscamos padrões de comportamento, já os agrupamos segundo um modo de pensar, que não é diretamente acessível ao que olha. Eu diria que há numa classificação qualquer muito daquela dimensão incosciente que vcs tentam eliminar da experiência humana. A objetividade é ilusória, se for baseada nos parâmetros empíricos.

Como vc mesmo disse, o comportamento humano é complexo. E a singularidade não é algo que se soma de fora, ela é essencial. Ela não é apenas contexto histórico. É muito mais. Você conhece o trabalho de Maturana e Varella? 

oliver.prado is offline

Olá Iza, mas seria muita ingenuidade pensar que o olhar do cientista é "objetivo" no sentido de neutro, sem interesse ou isolado. A ciência é uma produção cultural e o cientista também se comporta, portanto seu comportamento está sob controles  assim como o comportamento de qualquer outro.

A análise do comportamento é uma ciência do comportamento, possui uma filosofia (behaviorismo radical) que acredita que é possível estudar o comportamento cientificamente. Considera o comportamento como um fenômeno da vida e que este é determinado pelo ambiente (história passada e eventos presentes). Também rejeita o uso de entidades/conceitos mentais ou metafísicos para explicação do comportamento.

É nesse ponto que se "elimina" o inconsciente ou a mente. 

Ex: Memória (entidade abstrata, mental ou fisiológica): não se utiliza este conceito para explicar nada, pois é apenas um rótulo (nome) de um comportamento.

Lembrar: descrição utilizada, pois envolve comportamento (ação), mesmo que seja comportamento privado (ocorre debaixo da pele, não é observável externamente, pode ser observado apenas pela pessoa que se comporta ou as vezes nem mesmo ela consegue se auto-observar)

O mundo da subjetividade ou o mundo dentro da pele, embora não seja observado publicamente e as vezes nem mesmo pela própria pessoa, é entendido como um mundo de natureza igual ao mundo externo observável. Nesse sentido não existe mente-corpo e sim um organismo inteiro.

Nesse artigo dá para saber mais:

O behaviorismo radical e a psicologia como ciência http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1517-55452005000200009&script=...

 

Esta visão de mundo da análise do comportamento certamente é diferente da visão de mundo da psicanálise, assim como as áreas de estudo e aplicação também são diferentes.

Por ser uma ciência do comportamento, é possível conhecer e intervir em qualquer contexto no qual "comportamento" esteja presente. Seja humano ou não-humano.

Também é possível utilizar do mesmo referencial para atuação em diferentes contextos de produção e aplicação de conhecimento: pesquisa básica com não-humanos, pesquisa básica com humanos, pesquisa aplicada com humanos e prestação de serviços profissionais. 

Este é um dos diferenciais da análise do comportamento no tratamento do autismo. 

O acúmulo de conhecimento permitiu desenvolver métodos e técnicas para ensinar diversos comportamentos geralmente ausentes no repertório dos autistas. Comportamentos fundamentais para sua melhor integração na família, escola e ambientes sociais diversos. 

Desta forma mesmo com uma visão crítica (epistemologicamente falando), na hora da prática, isso não pode ser usado como argumento, pois a análise do comportamento é uma ciência reconhecida, é uma abordagem reconhecida na psicologia, segue o código de ética profissional e não usa de nenhum procedimento ilegal ou desonesto. 

Também se for analisar a psicanálise do ponto de vista da análise do comportamento, será possível fazer uma série de críticas e muitas delas infundadas (pois não se conhece a psicanálise o suficiente). 

Mas uma coisa é possível criticar em relação a psicanálise e autismo, sem entrar no mérito epistemológico.

A psicanálise foi construída em grande parte baseada na própria psicanálise (prática). E a prática da psicanálise supõe o analista, o paciente e o setting. Tudo o que o analista pode analisar vem do paciente. Portanto o paciente fala (mesmo sem ser com voz) com o analista.

No caso do autismo como a dificuldade do autista é justamente na comunicação e interação social, a quantidade de informações disponíveis ao analista é baixa. Corre maior risco de interpretar e ser contra-transferêncial. Isso se demonstra no fato de que a algum tempo atrás a psicanálise entendia que o autismo era fruto de conflitos com a mãe. (o que se demonstrou mais uma fantasia dos analistas do que algo que ocorre de fato).

Se por outro lado o psicanalista passar a considerar o autismo de outra forma e se focar em ensinar as habilidades de comunicação e interação para o autista, está no caminho certo, mas falta sistematização.

Como a sistematização (estruturação, descrição, objetividade) do trabalho é algo que não é típico do psicanalista, então as intervenções serão mais informais e irão demorar mais para dar resultado.

Veja este artigo:

O pensamento psicanalítico sobre o autismo a partir da análise da Revista Estilos da Clínica http://www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php?pid=S1415-7128201100010000...

Um artigo de revisão, que infelizmente não apresenta o "como fazer" com os autistas. Tem bastante reflexão, mas pouca ação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

dimensão de humanização preconizada pela PNH - Política Nacional de Humanização... 

Nossa conversa tomou o rumo da troca de saberes e da possível composição. Mas esta deve ser construída por nós e não apenas afirmada.

Pensarmos que há um campo de comum entre psicanálise e análise do comportamento não basta, é artificial enquanto desejo de composição das diferenças.

Iza

oliver.prado is offline

Em relação a PNH não acho que existam problemas com nenhuma abordagem psicológica no trabalho desenvolvido em qualquer área. Isso são princípios que estão além de um referencial técnico ou teórico.

 

 

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

O do "Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea"?

Para podermos conversar sobre a análise do comportamento e seus princípios estruturando os DSMs?

Aguardo tuas impressões...

Iza

oliver.prado is offline

Vc mandou o artigo como? 

Eu vi que é um capítulo de um livro. Tem versão digital?

Mas uma coisa vc pode ter certeza (e absoluta), princípios da análise do comportamento não estão estruturando DSM.

A relação que um psicólogo comportamental tem com o DSM ou o CID-10 (no caso do Brasil) é a mesma relação que qualquer outro psicólogo ou profissional da saúde tem: Este sistema de classificação é usado na saúde em diversos contextos e documentos.

 

 

 

 

 

 

 

Ricardo Teixeira is offline

Não tenho condições (nem muito interesse) de entrar nessa discussão. Não sou psicanalista, nem behaviorista, nem muito menos psicólogo. No entanto, todos estamos autorizados a desenvolver, praticar, aprimorar a "arte da conversa".

Uma das marcas principais desta Rede, onde as visões sobre "humanização" e outras questões relacionadas ao campo da Saúde de do SUS são as mais diversas e, por vezes, contraditórias, é a imensa capacidade de diálogo e composição na diferença. É o tom sempre respeitoso e mutuamente admirativo que pauta todas as conversações. A visão mais comum e amplamente compartilhada que temos de "humanização", nesta comunidade, é, sem dúvida, de que o que primordialmente nos humaniza é a capacidade de compor na diferença, amorosamente, assentados sobre afetos aumentativos da nossa potência.

Ao ler os comentários do colega "comportamentalista", o primeiro efeito/afeto que sentimos é de tristeza, de diminuição da potência, pelo tom agressivo, desqualificador e obstrutor da interlocução. "Argumentações" que recorram a predicados como "PSICANALHISTA" não chegam a ser intelectualmente brilhantes... Considero, ademais, bastante anacrônica, epistemologicamente, a separação entre "debate técnico" e "político" (ainda mais num campo de questões propriamente "humanas"), mas seja o que for que o colega queira dizer com "debate técnico", não posso conceber que seja um debate eivado por esse tipo de "comportamento" tão pouco civilizado. E é ele que fez desse debate, um debate inarredavelmente "político" e, infelizmente, no pior sentido dessa palavra.

Curiosamente, em paralelo a este "debate", foi publicado outro post em nossa Rede por uma colega psicanalista (http://www.redehumanizasus.net/59407-a-contribuicao-etica-da-psicanalise...). É inevitável contrastar a elegância e sofisticação da escrita desta colega, com a "feiura" dessas colocações "comportamentalistas". A gente fica se perguntando: será essa a contribuição ética do behaviorismo para a sociedade atual?

Afinal, qual é a contribuição ética do behaviorismo para sociedade atual?

Saudações humanáuticas!

Ricardo

oliver.prado is offline

Ricardo e qual é a contribuição (qualquer) que se permite que o behaviorismo faça para a sociedade atual??? 

Se toda esta movimentação está sendo feita justamente para boicotar a análise do comportamento?? 

Estão movimentando deus e o mundo unicamente pelo fato de que um edital está especificando que metodologias da análise do comportamento devem ser utilizadas no tratamento do autismo.

A análise do comportamento a décadas produz pesquisas (básicas e aplicadas) e tem farto material para treinamento e qualificação profissional para trabalho nesta área. 

Os familiares dos autistas conquistaram o direito de receber tratamentos de qualidade na justiça e nem assim pessoas que se dizem "humanas" concordam com isso.

É obvio que minhas mensagens tem um tom agressivo, pois a psicologia e a análise do comportamento estão sendo agredidas e de forma perversa.

O texto publicado aqui apresenta essa agressão e usa o CRIA como mote. O que não se fala é que o CRIA também é um serviço terceirizado. Que profissionais que trabalham no CRIA não estão lá através de concurso público.

Eu não estou escrevendo aqui para agradar ou falar bonito, estou aqui enfrentando forças hegemônicas históricas. Enfrentando o status quo que se nega a aceitar qualquer coisa que seja diferente de sua própria visão.

 

 

 

 

 

 

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

Amanhã haverá o II Encontro Paulista de Caps na Faculdade de Saúde Pública. Será um encontro preparatório para o encontro nacional e uma oportunidade para se pensar e construir estratégias de enfrentamento deste triste modo de lidar com as diferenças.

Iza

oliver.prado is offline

Mais triste é saber que neste encontro não haverá oportunidade para que nenhum contraditório possa se manifestar. 

O triste modo de se lidar com as diferenças funciona assim:

Quando os psicanalisas estão no comando das organizações e permitindo que apenas psicanalistas sejam contratados (seja concursado ou terceirizado) então tudo é ético, humano, correto. Os médicos psicanalistas também são humanos. Quando medicam, a medicação é adequada.

Quando algo diferente surge e ameaça o status quo da psicanálise, então é necessário enfrentar, mobilizar e criticar. O modo de fazer isso é sempre pela política e nunca pela técnica. 

 

 

 

 

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

São Paulo, 29 de novembro de 2012.


À Secretaria Estadual de Saúde
Ao Secretário de Estado da Saúde Prof. Dr. Giovanni Guido Cerri
Ao Chefe de Gabinete - Dr. Reynaldo Mapelli Jr.
Ao Coordenador de Saúde Mental - Dr. Sergio Tamai
Ao Superintendente do Hospital São Paulo - Prof. Dr. José Roberto Ferraro
Ao Coordenador do CRIA - Prof. Dr. Raul Gorayeb
À Equipe técnica do CRIA                     
                    

Ref. Despacho GS-SM n. 4465/2012 de 2/5/2012.


Tivemos notícia do encerramento abrupto de convenio que possibilitava o funcionamento, desde 2002, dos serviços de atendimento oferecidos pelo CRIA - Centro de Referênca da Infância e Adolescência. Esse serviço é reconhecido como modelo de atendimento a pacientes que vivem situações graves  de sofrimento psíquico e, também, como campo de pesquisa e formação de novos profissionais. Os argumentos utilizados pelo ofício enviado por essa Secretaria fazem referência ao número de atendimentos e ao fato da "abordagem ser essencialmente psicanalítica, fugindo um pouco do mainstream da psiquiatria atual". Além disso, anunciam a criação futura de 5 Centros de Referência em Diagnóstico e Tratamento para os transtornos de espectro autista.

Preocupa-nos o fato de que o saber e a experiência acumulados durante tantos anos de investimento e pesquisa possam simplesmente ser descartados sem que se leve em conta o já constituído para a criação e ampliação de outros serviços de referência. Preocupa-nos mais ainda que se sectarize o atendimento, tomando como norma a discriminação por patologias, sendo que vivemos, no campo da saúde mental e da educação, uma preocupação constante com os procedimentos que favoreçam a inclusão e o reconhecimento legítimo da convivência com as diferenças, sem que isso signifique a desconsideração por condutas específicas em momentos determinados.

Nesse sentido, não concordamos, também, com a eficácia de um possível "mainstream da psiquiatria atual"; não há um único campo de saber que possa, isoladamente, dar conta desses atendimentos. A diversidade dos sujeitos humanos e as facetas de seus sofrimentos não se resolvem pelas afirmações corporativistas da psiquiatria atual, ou de qualquer outra disciplina. É significativo que, já desde o início do século XX,  as experiências pioneiras das primeiras equipes multidisciplinares e  uma série de projetos pilotos que se implantaram em convênio com a própria Secretaria de Saúde, durante a década de 70 (1970), têm sido até hoje, reconhecidas como experiências de formação onde se valoriza o saber de  diferentes  especialidades e a criação de modalidades múltiplas de  atendimento: trabalhos com famílias, intervenções nas escolas, em centros de lazer, em oficinas etc. O que se produziu através desses serviços não se mede apenas quantitativamente ou, se pudéssemos reconhecer sua multiplicação no saber de outros serviços, sua quantificação seria muito mais significativa. É desta forma que entendemos a multiplicação e a eficácia do que podemos nomear como "projetos pioneiros".

Somos uma instituição que tem entre seus princípios básicos, ser um centro multidisciplinar de reflexão, um lugar permanente de formação, trabalho e intensificação da postura crítica, cooperando com o desenvolvimento das ciências e implementando pesquisas, cursos e serviços vinculados à realidade brasileira e voltados também para o desenvolvimento de políticas públicas de saúde mental. Este Instituto tem implementado uma série de práticas em seu espaço interno voltadas ao atendimento clínico da população e à diversidade de formações e pesquisas. Tem  também, múltiplas intervenções de atendimento, supervisão e formação no espaço comunitário e nos serviços públicos.

Nas décadas de 1980 e 1990 firmamos convênio com a própria Secretaria de Saúde do Estado e com a Secretaria Municipal, onde uma equipe significativa de psicanalistas coordenou trabalhos de supervisão, acompanhamento e formação dos trabalhadores de diferentes equipamentos de atendimento em Saúde Mental,  pois, sempre entendemos que a psicanálise não é uma prática elitista e reducionista como pode fazer crer a afirmação de uma certa área do saber psiquiátrico atual. Continuamos afirmando nossos princípios e desenvolvendo trabalhos de formação na rede pública, por meio de convênios ou parcerias. Nessas atividades, estão envolvidos profissionais de várias abordagens teórico-clínicas, inclusive psicanalistas,  já que não haveria justificativa para desconsiderar o conhecimento produzido por estes saberes.

Somos solidários com a indignação da equipe que sofre um atravessamento tão abrupto de seu trabalho. Somos solidários com a população até então atendida e que perde um importante lugar de acolhida. E queremos propor um espaço de discussão maior sobre esse ato da Secretaria, um fórum onde possamos trabalhar as questões pertinentes aos modelos possíveis de atendimento e, onde, diferentes profissionais possam ter lugar de fala para o que está atualmente sendo pesquisado, reconhecido e proposto.

Por último, considerando as ideias expostas acima,  gostaríamos de expressar ainda enfaticamente nossa discordância e oposição à exigência do Edital de credenciamento de instituições para o tratamento dos "transtornos do espectro autista" de que os profissionais deveriam pautar-se exclusivamente pela linha cognitivo-comportamental.

Atenciosamente,

Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
Departamento Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae.
Curso de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae.
Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae
Diretoria do Instituto Sedes Sapientiae.

oliver.prado is offline

Nesta carta existem dois pontos importantes que foram ignorados:

1- O CRIA (como qualquer outra instituição que recebe verba pública) não tem autonomia e não está a parte do que ocorre na sociedade. O estado brasileiro precisa ofertar políticas públicas para autismo e o CRIA deveria (sob a ótica do estado) ofertar tais serviços, mas era generalista. O estado já possui uma rede generalista (atenção primária) e foi processado judicialmente para oferecer tratamento para autismo.

 

2- Não estão envolvidos profissionais de várias abordagens teóricas. No site do CRIA estão listados apenas psicanalistas e um existencialista. É fato que um psicólogo analista do comportamento nunca seria aceito no CRIA.

Logo, a conclusão é que quando o monopólio e o controle está na mão de psicanalistas tudo é muito belo, correto, ético não-medicalizante, lindo, e humano.

Não se questiona como que isso foi construido, como que o estado permitiu isso (exclusividade da psicanálise no CRIA) 

Quando outra abordagem é especificada, então é feio, desumano, medicalizante, não é ético, etc etc.

 

 

 

 

Ramos is offline

Acompanhei a discussão entre a Iza e o Oliver e gostaria de fazer algumas considerações.
O Oliver tem razão quando sustenta a eficácia do comportamentalismo enquanto técnica terapêutica. O comportamentalismo é bem mais eficaz, enquanto técnica, do que a psicanálise. De fato, apresenta resultados. Apraz-me também o fato de que Skinner relativiza muito a importância da genética, e prioriza mais em suas análises os fatores ambientais presentes na vida do indivíduo. “Dê-me uma criança recém-nascida que a transformarei em um gênio ou em um assassino”, teria dito Skinner numa palestra em Havard. 
Por outro lado, toda técnica pressupõe uma concepção de homem, implícita ou explicitamente. Qual é a concepção de homem que o comportamentalismo abraça?
Acredito que é a ideia de que a natureza humana é condicionável e modelável através de punições e gratificações (essas últimas eram, para ele, muito mais eficientes). O comportamentalismo radical de Skinner propiciou um grande avanço na formação de técnicas e estratégias de mudança de comportamento, mas, ao mesmo tempo, a sua opção por abordar a natureza humana unicamente através do que for objetivamente observável, quantificável e mensurável levou-o a negar aquilo que é mais especificamente humano, como a subjetividade e a liberdade.
Numa de suas obras clássicas, WALDEN II, ele cria um modelo ideal de sociedade – sem violência, bandidos ou heróis, autoridade, privilégios ou classes sociais. E revela o seu fascínio por todos os regimes que foram bem sucedidos no planejamento, controle e docilização de corpos e mentes. Apresenta uma sociedade em que tudo funcionaria muito bem, pelo menos na visão do seu idealizador, o Sr.  Frazier. Walden II seria a realização de uma utopia comportamentalista bem sucedida. 
Em Walden II, Skinner revela o que pensa a respeito da liberdade. Aí, aparece um diálogo entre Frazier (o todo-poderoso que planejou e dirige esta utopia comportamentalista) e o Castle, um crítico das formas de controle biopolítico. Frazier o conduz até o alto de uma colina, onde se senta no “Trono”. De lá, pode ver e controlar tudo o que se passa em Walden II.


“— Chamamos este lugar de "Trono", disse ele  (Frazier), ajustando a lente ao olho. Praticamente, toda Walden II pode ser vista daqui.
291
Eu subo aqui ocasionalmente para me manter em contato com as coisas. Exatamente agora estou vendo a fundação de um novo armazém logo ao norte da garagem. Eles parecem estar armando o fim do concreto esta manhã. E ali está Morrison novamente no chiqueiro. Mais inseminações, acho. E logo ali. . . um carregamento de couve crespa para o aviário... O gado está longe no pasto hoje. Por que será?... E ali está o carteiro lutando com seu velho Ford pela colina. Nosso rapaz deveria... sim, ali está ele... esvaziando a caixa na cesta de sua bicicleta... O milho parece bom. Acho que nós poderemos irrigar sempre dessa maneira. Isso economizaria muito. . . Algo parece errado com o cultivador. Parando e recomeçando. Não, lá vai ele. Não, está parando de novo. Alguém tendo uma aula, imagino... Ali está a velha senhora Ackerman passeando novamente. E deve ser Esther com ela. (A cena não lembra o Panóptico de Bentham?)
(...)
— Deve ser uma grande satisfação, eu disse finalmente. Um mundo de sua própria autoria.
— Sim, disse ele, olho o meu trabalho e, veja, ele é bom.
Ele estava deitado de costas com os braços abertos. Suas pernas estavam retas, mas os joelhos estavam ligeiramente cruzados. Deixou a cabeça pender molemente para um lado, e eu pensei que a barba tornava-o um pouco parecido com Cristo. E então, com um choque, vi que ele tinha assumido a posição de crucificação. Eu estava extraordinariamente pouco à vontade, meu coração estava ainda palpitando de minha escalada rápida e do meu susto quando alcançamos o precipício. E, por tudo que sabia, o homem a meu lado devia estar ficando louco.
— Assim você não pensa que é Deus, disse hesitantemente, esperando esclarecer a questão.
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— Há uma curiosa semelhança, disse ele.
Sofri um momento de pânico.
— Consideravelmente menos controle no seu caso, imagino, disse eu, tentando adotar um tom casual.
— De jeito nenhum, respondeu, olhando para cima. Pelo menos, se acreditarmos nos teólogos. Pelo contrário, é o oposto. Você deve se lembrar de que os filhos de Deus sempre o estão desapontando.
— Ao passo que você está no comando completo. Bem, felicito-o.
— Eu não digo que nunca fique desapontado, mas imagino que o fico com freqüência muito menor do que Deus. Afinal, olhe o mundo que Ele fez.
— Uma piada é uma piada, disse eu.
— Mas eu não estou fazendo piada.
— Você quer dizer que pensa que é Deus? disse eu francamente, decidindo abrir o jogo.
Frazier fungou de desgosto.
— Eu apenas disse que era uma similaridade curiosa, ele disse.
— Não seja absurdo.
— Não, realmente. O paralelo é muito fascinante. Nosso amigo Castle está preocupado com o conflito entre a ditadura a longo prazo e a liberdade. Não sabe que está simplesmente levantando a velha questão de determinismo e livre arbítrio? Tudo o que acontece está contido num plano original, ainda que, a cada estágio, o indivíduo pareça estar fazendo escolhas e determinando a saída. O mesmo se aplica em Walden II. Nossos membros estão praticamente sempre fazendo o que querem fazer — o que eles escolhem fazer — mas nós cuidamos para que eles queiram fazer precisamente as coisas que são melhores para eles e para a comunidade. Seu comportamento é determinado, ainda que eles sejam livres.
— Ditadura e liberdade — determinismo e livre arbítrio, continuou Frazier. O que é isso senão pseudo-questões de origem lingüística? Quando perguntamos o que o Homem pode fazer do Homem, nós não queremos dizer a mesma coisa por "homem" em ambos os casos. Queremos perguntar o que alguns poucos homens podem
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fazer da humanidade. E esta é a questão central do século XX. Que tipo de mundo podemos construir — nós que entendemos a ciência do comportamento?
— Então Castle estava certo. Você é um ditador, afinal.
— Não mais do que Deus. Ou menos. De um modo geral, deixei as coisas correrem. Nunca dei um passo para apagar os maus  trabalhos dos homens com um grande dilúvio. E nem mandei um emissário pessoal para revelar o meu plano e pôr o meu povo de volta no caminho certo. A intenção original considerou os desvios e providenciou correções automáticas. É uma melhora sobre o Gênese.”


A impressão que me ficou, quando li Walden II, há alguns anos, foi a de que para Skinner a liberdade é a ilusão de uma marionete que pensa ser livre simplesmente porque não vê os fios que a aprisionam e comandam. E o objetivo do comportamentalismo é justamente descobrir quais são esses fios para melhor controlar o comportamento humano. 
O tema da liberdade tem a ver com os processos de humanização? Tem tudo a ver. Uma sociedade em que não haja liberdade é desumana. Todas as revoluções que provocaram rupturas e elevação do nível e da qualidade da vida social se fizeram em nome da liberdade. “Igualdade, liberdade, fraternidade” – os lemas da Revolução Francesa influenciaram todas as constituições pelo mundo afora que se pretendiam avançadas.
Por outro lado, a opção metodológica pelo que é observável, quantificável e mensurável acarreta necessariamente uma negação da subjetividade – que é o que nos diferencia dos animais – e da espiritualidade. Para mim, negar a subjetividade e a espiritualidade é empobrecer o homem no que este tem de mais característico e, nesse sentido, é desumanizá-lo. Sob esse aspecto, eu diria que a psicanálise, desde o seu nascedouro, foi a guardiã da subjetividade e contribuiu substancialmente para a o reconhecimento do homem enquanto sujeito e a dignificação dos tratamentos, muito embora tenha negado a dimensão do sagrado (que Jung resgatou).
O comportamentalismo está a favor da desumanização do homem, como esses trechos de Skinner parecem sugerir? Enquanto técnica, não. Pode tanto ser usado para condicionar quanto para promover mudanças libertárias. Eu pessoalmente faço uso de técnicas comportamentais associadas a uma escuta do inconsciente com grande proveito e resultados surpreendentes.
Mas há uma afinidade ou ressonância entre as estratégias colonialistas dos processos de medicalização da vida com o desejo skinneriano de um controle biopolítico plenamente eficaz. Nesse ponto, penso que a Iza tem razão.

 
Existem três questões que, embora não estejam sendo discutidas, servem de pano de fundo a este debate: 1) o que é o homem; 2) o que é a realidade e (3) o que é ciência. Dependendo das respostas formuladas para essas questões, teorias, metodologias e estratégias de intervenção podem ser construídas e elaboradas.


As pessoas são diferentes e possuem preferências as mais diversas. Cada técnica terapêutica tem a sua especificidade e o ideal, a meu ver, seria que se pudesse oferecer um amplo leque de opções para atender às múltiplas demandas.

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

Bem lembrado, querido amigo e interlocutor muito especial!

Observar o comportamento é uma prática nada inocente.

Esquadrinhar e classificar pode parecer uma tentativa de compreender os fenômenos, mas o que subjaz como critérios deve ser objeto de análise filosófico-política.

Toda intervenção do observador é constitutiva daquilo que é observado.  

 

Ramos is offline

Querida amiga,

Percebi isso casualmente ao analisar os temas escolhidos pelos alunos para a monografia de final de curso e as dissertações de mestrado. Ao indagar deles o motivo da escolha do tema, percebi que, na maioria das vezes, o aluno estava tentando através de uma temática entender a si mesmo. As escolhas que nós fazemos, no fundo, são movidas por um desejo secreto de saber quem somos. Um bipolar escolheu ser meteorologista (para estudar e prever as mudanças do tempo); um colega meu muito estressado optou por fazer a monografia do seu curso de física sobre o tema "as propriedades termodinâmicas da panela de pressão"; eu escolhi estudar o mito de Narciso no doutorado porque era muito centrado em mim mesmo, e por aí vai. Como disse o Picasso, toda pintura é um autoretrato. 

Grande abraço!

oliver.prado is offline

Iza, mas o que é inocente neste mundo?

Eu não sou psicanalista, mas conheço um pouco da psicanálise e um pouco mais dos psicanalistas.

Algo que os psicanalistas sabem fazer muito bem é não mostrar nenhuma carta. Isso se faz na atividade de psicanálise e também se faz na atividade acadêmica e nas discussões.

Percebeu que vc mais perguntou e interpretou do que explicitou algo??

A discussão não evolui neste sentido.

Se for para criticar do ponto de vista de outro referencial a psicanálise (enquanto uma psicologia) é a mais fácil de criticar:

Desenvolvida por médicos (na lógica da causa obscura e sintoma visível)

Construiu a maior parte do seu conhecimento baseado em pessoas com doenças e patologias (é uma teoria patologizante)

Avessa à regulamentação (não gosta de seguir normas sociais, se coloca a parte da sociedade)

Não estabelece objetivos (não demonstra compromisso com as necessidades nem do usuário do serviço nem da sociedade)

Não aceita cobranças por resultados (acusa isso de ser desumano)

Faz formação em pirâmide: para ser psicanalista precisa ser analisado por psicanalista "didata" 3 vezes por semana

Cria sub-grupos e divisões internas: psicanálise francesa, inglesa, dentre outras

Atribui o fracasso do trabalho ao usuário do serviço: resistência, transferência, patologias

Não considera o contexto do usuário nas análises: atende a criança com problemas, mas não orienta os pais, não orienta escola, interessa "apenas" o que a criança apresenta na análise

 

As minhas colocações estão corretas e precisas? acredito que parte delas não estejam do ponto de vista de alguma psicanálise. Mas e ai? para onde isso vai se ficarmos discutindo isso? Para lugar algum pois nunca isso levou a lugar algum

 

Se vamos debater, precisamos ter um assunto (que eu acredito que é tratamento do autismo) e todos precisam apresentar seu ponto de vista e não apenas acusar o outro ponto de vista de ser "veladamente" desumano. 

Fazer isso é psicanalisar o outro

 

 

 

oliver.prado is offline

Ramos, é muito comum a confusão entre o behaviorismo radical de skinner com as primeiras versões do behaviorismo ou o behaviorismo metodológico de Watson (a frase que você citou é atribuída a Watson e não a Skinner).

Estudos recentes estão levantando a hipótese de que nem mesmo Watson tinha a visão atribuída a ele.

Para discutir as questões que você coloca é necessário conhecer a obra de Skinner e conhecer o behaviorismo radical. Recomendo a leitura dos artigos que coloquei aqui e outros também. 

Sobre liberdade, até onde sei a psicanálise trabalha com a noção de que não existe liberdade, que somos determinados (por forças inconscientes ou psíquicas). 

É uma discussão filosófica e não entra no mérito das "liberdades civis".

Ex:

Se vc vai almoçar e escolhe carne ao invés de peixe. Essa sua escolha não é livre, não ocorre desvinculada de outros eventos. É possível escolher e isso é uma liberdade, mas não é possível escolher livremente (no sentido de que é um evento isolado de outros)

Também reconhecendo que o comportamento sempre está sob controles a função da análise do comportamento é de conhecer tais controles. De demonstrar que eles estão controlando.

Ignorar os controles produz uma falta sensação de liberdade, mas permite que os controles continuem a existir!! 

Logo o compromisso da análise do comportamento e do behaviorismo é o mais humano neste sentido. (isso em todas as esferas, seja individuais, grupo, sociais ou globais)

Walden II é uma obra de ficção, é uma utopia e é uma obra mais romântica do que técnica. Skinner sempre sonhou em ser um escritor de romance, mas não tinha jeito para essa atividade e então foi ser psicólogo. Para ler Walden II sem conhecer mais a fundo a obra de skinner ocorrerão problemas como o que você coloca. Uma ideia distorcida da obra (inclusive da obra de ficção)

Além disso não é possível analisar uma ciência, uma filosofia, uma tecnologia do ponto de vista de outra ciência. Não existe apenas uma forma de se entender o mundo e é preciso permitir que outras formas de ver o mundo existam. 

Eu não tenho dúvidas (pois é algo histórico) que a análise do comportamento e o behaviorismo sofrem preconceito e exclusão por pessoas de outras abordagens pois não conseguem (e não querem) entender a obra dado que não se desprendem de um referencial que é diferente deste

 

 

 

 

 

 

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O GARCE - CE convida a todos os pacientes para o evento "Seminário Artrites - Conhecendo tecnologias de tratamento" que será realizado dia 29/07/2017, das 13:30 às 17:00h, no Hotel Mareiro, localizado na Av. Beira Mar, nº 2380, Meireles - Fortaleza - CE.

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Na última quarta feira, dia 21 de junho, estudantes de Terapia Ocupacional da UFSCAR debateram o SUS a partir do relato da experiência de gestores, trabalhadores e usuários que narraram os limites e potencialidades do seu encontro com o Sistema Único de Saúde.

Aline Moura, terapeuta ocupacional do NASF de São Carlos; Gisele Giovanetti, articuladora da Saúde Mental de São Carlos e Raphael Travia, ciberativista e usuário do Caps de Joinville foram os convidados que dispararam o debate na disciplina de Saúde Coletiva, ministrada por Sabrina Ferigato com apoio de Rodrigo Alves.