Blog de Marco Pires

Cobrando por fora: Farinha pouca, meu pirão primeiro.

 

 

"Descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da malignidade destilada e instilada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria. A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce, ainda hoje, em muita autoridade brasileira predisposta a torturar, seviciar e machucar os pobres que lhes caem nas mãos..."
Darcy Ribeiro

O custo da igualdade e o preço do privilégio

Merda d'artista, Piero Manzoni.

Perdoem-me o título, mas tenha a santa paciência. A gente corre, se consome tentando consolidar o SUS e seus princípios, efetuar suas diretrizes e eliminar as iniquidades do sistema. Mas as leis da termodinâmica são implacáveis. A quinta parece ser mesmo absoluta. Tudo degenera. Olha só a notícia da Zero Hora de hoje:

 

19 de maio de 2010 | N° 16340

MAIS OPÇÕES

Supremo amplia serviços do SUS

A exploração da demanda reprimida como vantagem mercadológica

 

Introdução

São cerca de 700 milhões de Reais que entram a cada ano no município de Porto Alegre através do Fundo Municipal de Saúde, gerenciado pelo prefeito e secretário municipal, sob fiscalização do Conselho Municipal de Saúde. Portanto uma parte importante na engrenagem da economia da capital dos gaúchos depende desta fonte de recursos.

Nesta sentença curta estão articulados explicita e implicitamente conceitos e relações sociais que não estamos acostumados a pensar em conjunto. Economia, ciência e política se articulam para criar instituições. De um lado é preciso decifrar a interação destes diversos fatores e de outro entender a relação desta interação com a permanente realidade de crise do sistema de saúde pública brasileiro.

A racionalidade formal não é a personagem principal

 

Uma avaliação preliminar nos leva a concluir que algo está errado na forma como investimos os recursos destinados ao setor da saúde em nossos pais. Os dados pipocam pelas páginas dos jornais é difícil encontrar uma costura analítica que os articule dentro de um mesmo campo conceitual minimamente coerente. A crise no atendimento a demanda divide espaço com as notícias sobre o faturamento dos convênios privados e públicos de saúde. Tudo cresce: da expectativa de vida aos investimentos. O recenseamento epidemiológico é baseado em evidências que mudam num mapa construído a cada semestre e atualizado semana a semana.

Regulação dos fluxos de demanda e considerações finais

A regulação dos fluxos das demandas é dinâmica. A pressão é efetuada sobre o cotidiano dos serviços de saúde. Esta por ser imediata não é gerida apenas a partir da esfera das plataformas macro-políticas. O atendimento da demanda é financiado com recursos arrecadados no passado imediato. O gasto é feito no cotidiano de eterna crise. E a crise é retratada e falada na mídia impressa e eletrônica até a náusea. Isto gera o efeito, talvez não pensado, de se deixar a sociedade num estado de ansiedade constante em relação aos sistemas de saúde. Esta é uma razão que pode explicar a dificuldade de se efetivar o controle social e qualificar o planejamento voltado para o bem comum.

O pensamento fragmentado e suas conseqüências

 

Porém a questão central é que temos uma série de linhas de corte bastante modernas nas formas conceituais de se abordar o tema da saúde. Moderno no sentido que Bruno Latour empresta ao tema. De certa forma fica "cada um no seu quadrado" e aspectos extremamente imbricados e articulados são tratados como distintos. Olharmos mais detalhadamente este processo histórico e cultural nos permite entender como os gastos são feitos. A partir daí poderemos planejar a forma de realizarmos mais e melhores investimentos em saúde.

O capítulo da seguridade social e o estado democrático de direito

 

Considerando o tema pela abordagem preconizada na constituição brasileira, temos na saúde pública um setor da economia que é singular dentro da regulação da economia de mercado em geral. Ou seja, o sistema de saúde também é regido pelas leis de mercado, mas as extrapola em grande medida com conseqüências culturais e políticas significativas.

O perfil epidemiológico de uma população demanda dos poderes constituídos uma série de ações de cuidado, prevenção e tratamento. Já, quando tratamos de mercadorias e serviços, o acesso dos consumidores se dá por seu padrão aquisitivo e respectiva classe social. Quem pode tem. Quem não pode, não tem e se vê excluído do acesso ao consumo.

O mercado de trabalho em saúde e suas peculiaridades

Neste tópico do mercado de trabalho, cabe lembrar todas as complicações de se remunerar o trabalho em um setor específico da economia com uso diversificado de especialidades de mão de obra e capacitação técnica. Acrescentamos o fato que os salários da maioria dos trabalhadores da área da saúde ser muito baixo. Sendo que a diferença entre o maior e o mínimo salário paga na área seja, por sua vez, muito alta.

Na saúde temos uma infinidade de carreiras, modos de contratação e papeis diferenciados conforme os níveis de complexidade de cada tipo de atuação profissional. Estes papéis, em relação ao sistema como um todo, surgirão diferentes se levarmos em conta que o sistema tem setores sub-financiados e outros com financiamento superavitário.

Saúde em Porto Alegre: Exploração da demanda reprimida como vantagem mercadológica

Tenho pretendido uma abordagem ampla do SUS que amplie o cenário de análise. Mesmo partindo questões muito pontuais como o cartão SUS, o financiamento. o trabalho em saúde, entre outros.

Me proponho a pensar o Sistema como costumamos desejar pensar a saúde de nossos usuários. Realizar uma abordagem em simetria com o que propomos como atenção integral.

Assim poderemos planejar e executar tendo em mente esta dinâmica complexa que integra as várias faces do SUS em um todo complexo e multifacetado. Uma mistura de conhecimento científico, práticas políticas mais ou menos democráticas e o perfil cultural de nossa população usuária.

Felicidades

 

As palavras, segundo José Saramago, são mal ditas, não malditas como poderia se entender apressadamente. São, apenas, mal faladas para os que as acolhem como ouvintes ou leitores. Há sempre um ruido que distorce a mensagem e dá uma margem a interpretação subjetiva do receptor.

Os males humanos podem todos se dever aos desacordos e mal entendidos suscitados de palavras mal ditas. Mensagens mal recebidas.

A linguagem é o solo de onde brotam os seres humanos. Ainda que exista um mundo fora das nossas representações, sem elas não temos condições de ser humanos. A linguagem, presente na vida animal e vegetal, para nós tem um significado que por vezes supera os fatos e os reedifica segundo nossos meros pontos de vista.

Divulgar conteúdo