Blog de Marco Pires

A velha e incrível questão.

 

A culpa e o poder.


Eu, vocês e o papeleiro da esquina já estamos no poder. O mundo é a soma dos erros e acertos de todo a humanidade. No formigueiro é assim. Mesmo todos cumprindo seu dever automaticamente, sem nenhum erro ou desvio, nada impede que um humano ou uma chuva causem uma catástrofe e centenas de milhares de formigas morram sem ter nenhuma culpa. São os caminhos em que os seres são lançados ao longo do tempo e do mundo. Pode haver alguma autonomia.

Mas será que não podemos nos conformar que ela de fato é pequena? Será que nossas grandes realizações políticas, filosóficas, tecnológicas não são a continuação natural do caminho iniciado pelas bactérias primordiais neste planeta, como afirmava Carl Sagan?

Uns mais iguais que os outros...

Concordo com a ideia do crescimento do processo de democratização da participação e inclusão social das minorias no Brasil, especialmente na última década. No entanto, a extensão da dignidade humana na forma de atributo igualitário que nivela todos diante da lei, seja em direitos, seja em deveres, ainda não é plena. Grande parte da redução das desigualdades sociais em nosso país se deve a inclusão no mercado de consumo, apenas.

O novo.

 

Fica, parece imóvel
Crônico
Na verdade acumulando...
Quietamente
Até que a explosão iminente
É anunciada por tremores
Parece uma perturbação
Passageira
Mas vai adiante
A sinergia transborda
E daí
A crise se instaura
E vai ser norma, então
Parecendo imóvel.

A violência e a maioridade penal

 

As vítimas que agonizam de forma barulhenta, são odiadas profundamente. Elas atrapalham o impulso moral que separa o mundo entre cidadão de bem e bandidagem. É uma forma simples de rotular e produzir a sensação de justiça racionalizada como retribuição. Mas o problema é que a metamorfose das vítimas até a condição de criminosos e vice e versa, atrapalha o (con)senso comum.

Os pressupostos filosóficos e ontológicos sobre a natureza do bem e do mal são vários. O que não muda é o desejo de culpar, punir e, finalmente, sacrificar alguém.  Comodamente os mais fracos, vulneráveis, vítimas de negligências e de abusos se encaixam melhor no figurino do mal.

Redução da maioridade penal.

A grande farsa da proposta de redução da maioridade penal é a de tentar encobrir o fato de que tudo tem consequências. Oferecer retribuição a um delito juvenil é uma forma de se convencer de que ser filho de um pai ausente, de uma mãe doente e ter morrido socialmente antes de ser assassinado, pode ser um fato menor. Um nada que não tem conseqüência na existência de ninguém.

A Educação e a reprodução da Desigualdade Econômica


As perspectivas de inserção econômica da comunidade onde dou aulas são tão precárias, quanto o modelo de inclusão social que lhe é endereçado. Neste aspecto, os conjuntos de saberes que são mobilizados pelos núcleos familiares matrilineares, de onde vêm nossos alunos, são pré-escolares e tem referência em uma cultura em permanente instabilidade.

Fragmentos da monografia: O que tem mudado e o que tem permanecido.


Sinto a necessidade de explicitar um dos pressupostos filosóficos que fundamentam minhas reflexões. A mudança na sociedade para mim é constante. Não é, no entanto unidirecional. A história é um ciclo recorrente de ascensões e quedas que não tem sentido além de si mesmos.

A noção de progresso que assumo é a de John Gray . Por ela observamos acumulação apenas no conhecimento expresso em forma de tecnologias cada vez mais complexas. Elas mudam o ser humano (e suas relações sociais intermediadas pelos artefatos tecnológicos) de modos que nunca podemos prever ou compreender completamente (Gray, 2007).

Contando a história das histórias...

 

 

As maneiras de ver e narrar, uma, mas também todas as vidas, são sua própria essência. No que diz respeito aos humanos e a limitada perspectiva com que podem ver o que há, o mundo é a realização da potência de descrevê-lo. Uma subjetividade é a objetividade que surge de narrar e valorar o mundo que nos chega aos sentidos.

As narrativas da Dor e do Prazer


As narrativas da Dor e do Prazer

Somos seres híbridos de razão e instinto, seres miscigenados entre sentimento, emoção e cálculo. Trazemos em nós a irritação dos sentidos. Pensamos que uma ruptura nos separou da cadeia mais ampla em que estamos implicados. Achamos que não somos mais os seres naturais que fomos na alvorada de nossos dias sobre a terra. Mas só há pouco inventamos nossas histórias de sentido, começo meio e fim.

Recentemente nossos mitos através dos feitos de memória e da linguagem dão um reconfortante sentido ao mundo inóspito e misterioso em que estamos imersos. Durante milênios fomos seres integrados ao mundo natural. Hoje, pensamos que não somos mais. Ledo engano.

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