Receita Para Uma Morte Feliz (Erasmo Ruiz)

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Receita Para Uma Morte Feliz (Erasmo Ruiz)

Erasmo Ruiz is offline


Você já tentou fazer uma receita? Eu adoro cozinhar. Volta e meia tento fazer pratos novos. Uma coisa eu já notei. Quando repito uma receita, o prato nunca sai de forma igual. Existe sempre alguma alteração na aparência e no paladar. Minha sábia mãe dizia que cozinhar tem a ver com o estado de humor. Coincidentemente, quando as coisas não iam bem com meu pai, a comida era uma lástima.

Os livros de auto ajuda consagram receitas para a vida. Aqui não estamos falando necessariamente de arte culinária mas de formas mais específicas de viver. A grande visibilidade deste tipo de literatura é um sinal da precariedade das políticas públicas de saúde mental, por um lado, e da insatisfação com boa parte das religiões institucionais que gradualmente transformam-se em empresas, por outro lado. As pessoas continuam buscando respostas ás questões fundamentais: "De onde vim?"; "Por que estou aqui?"; "para onde vou?".

Mentes intranquilas buscam felicidade num ambiente onde ser feliz parece ser uma obrigação e o expressar de tristeza um sinal de fraqueza e adoecimento mental. Pílulas ansiolíticas atreladas a mantras de bem estar aparecem então como soluções mágicas para o medo de viver e o medo de morrer, medos estes sempre inseparáveis produzindo sentidos um para o outro. 

Confesso que não me atreveria a escrever um livro de auto ajuda. Nâo morro de amores pelo gênero mas, fica aqui minhas dicas para se tentar morrer feliz com base na minha experiência de 54 anos de vida e de alguém que já passou uma semana numa UTI lutando ao mesmo tempo contra um câncer de cólon, uma diverticulite e uma infecção multi resistente que quase transformou-me no objeto do meu estudo, a morte. São sugestões singelas e que temo que você achará um tanto piegas e até clichês mas, vamos adiante.

1) Reflita muito antes de entrar em conflitos. Existem muitas causas nobres no mundo para serem abraçadas nos dando aquela perspectiva de que nossa existência pode estar fazendo alguma coisa pelo gênero humano. Foque suas energias nisso mas cuidado quando você pensar que irá resolver os problemas da humanidade quando alguém fura o lugar na fila. Essas pequenas batalhas diluem nossas energias e nos tira o foco de questões centrais.

2) Não vale acumular ressentimentos e ódios, principalmente com as pessoas que amamos ou tentamos amar. Uma maneira de resolver isso é impedir que as situações ganhem maior dimensão pelo não falar. Odiar estranhos é uma tarefa fácil pois não somos obrigados a conviver com eles. Odiar amigos e parentes nos enfraquece. Não se trata de impor-se a tarefa praticamente impossível de amar a todos incondicionalmente mas de pelo menos tentar atuar sobre os focos que produzem o desamor e assim potencializar espaços de boa convivência e bons afetos. Lembre-se que aquele tio chato pode ter algo de bom a compartilhar com você. Isso ainda não aconteceu porque você talvez não tenha oferecido as condições ideais.

3) O plano de existência que o mundo nos reserva (quando dá certo) parece ser um tanto melancólico. Você tem uma parte da infância roubada pela educação formal que se torna inimiga do brincar e da imaginação. Depois você faz de tudo para se aperfeiçoar num determinado saber que poderá lhe dar alguma sustentação material. Se isso funcionar, você poderá acumular algum patrimônio que vai se diluir quando você ficar mais velho com gastos para te manter vivo. Viver é usufruir do tempo. Tente ser guerrilheiro da sua vontade e lutar pelo seu tempo. Roube a maior quantidade possível de tempo do seu trabalho (principalmente quando ele não te satisfaz emocionalmente) Trabalhe para viver. Não viva para trabalhar. 

4) No final da vida, a julgar pelos milhares de depoimentos já acumulados de pessoas agonizantes, você irá se arrepender muito mais das coisas que não fez. Aqui temos que ser sábios. Não se trata de buscar realizar desejos que coloquem sua vida sempre em risco. Não consta que aprender violão, uma nova língua ou técnicas de desenho sejam atividades que te exponham ao risco significativo de morrer. Caso você almeje ser astronauta tem de fato uma tarefa quase irrealizável pela frente mas não serei eu alguém a recomendar que você aborte seu sonho. Mas, convenhamos, a vida na sua maior parte é construída pela realização de pequenos projetos que podem nos oferecer grande contentamento. Enquanto o grande sonho não se realiza, não deixe de viver o prazer das pequenas conquistas. 

5) Uma das coisas que notei depois de passar pela minha experiência limite no hospital foi que minha percepção de tempo ou de uso dele mudou radicalmente. Apesar de, estatisticamente, não ter lá muito tempo de vida comparado quando eu era mais jovem, hoje o tempo pra mim é vivido mais vagarosamente. Faço tudo de uma forma mais lenta. Estou na contramão do paradigma de que rapidez é eficiência. Vejo a vida hoje como um pedaço de uma torta muito saborosa que deve ser devorada lentamente com seu sabor sendo devidamente apreciado a cada mastigada. Experimente viajar numa bela estrada na faixa de menor velocidade. Coloque o automóvel a uns 40 por hora. Você notará muito mais coisas se não ficar pisando no aceleraador com o olhar fixo no velocímetro. Enfim, a beleza da vida só pode ser de fato notada quando refletimos de alguma forma sobre o viver. A pressa sempre foi inimiga não só da prefeição mas também da reflexão.

6) Você pode juntar a tudo isso uma dieta mais saudável e a prática regular de exercícios que aumentará suas chances de ter uma velhice menos atribulada com as doenças. Ainda assim, viver a ditadura do que se deve comer e não comer parece ser algo que limita muito o bem viver posto que um dos prazeres da vida descobrimos na mesa. Imponha-se ritmos mas se dê o direito de pequenas subversões alimentícias, principalmente nos momentos de celebração. No ano novo a combinação de leitoa assada com arroz integral parece uma coisa meio estranha. Da mesma forma, se você adora acordar cedo para dar aquela corrida, faça isso. É o prazer aliado a um sentido de disciplina que fará sua vida ter um colorido mais intenso além de dar aquela energia para atividades mais rotineiras e estafantes. Mas, por favor, naquela manhã de domingo quando seu corpo pede mais um tempo na cama ou se você é acordado com um abraço gostoso, deixe a ginástica pra lá. Namore bastante e depois durma mais um pouco. 

Acho que ao seguir essa receita você terá grandes chances de morrer potencialmente feliz ou quem sabe menos melancólico. A morte só é trágica em seu sentido emocional quando ela coroa uma existência esvaziada de projetos realizadores. Sempre faça a seguinte pergunta: "Vivo minha vida mais em função do que desejo para ela ou em função do que os outros desejam?". A liberdade plena parece impossível. A escravidão plena um horror terrível. É no equilíbrio entre o exercício dos desejos frente as expectativas impostas que parece esconder-se o segredo do sorriso do agonizante. 

Carpe Diem.

 7 COMENTÁRIOS

Emilia Alves de Sousa is online

Oi Erasmo,

Já estava sentindo muita falta dos seus textos trazendo essas  importantes reflexões sobre a tanatologia, sobre a morte. Um tema que ninguém gosta, mas que faz parte da vida, e não tem como fugir dele.

Como costumava dizer a minha mãe, “quem de novo não morre, de velho não escapa” , e é isto mesmo.  Infelizmente, todos partiremos um dia. Entretanto, poucos são os que cuidam bem da vida para não ter uma morte precoce. Normalmente, perdemos tempos preciosos  com coisas que não valem a pena, e só nos roubam  energias de vida.

Gosto muito desta frase de Charles Chaplin que diz: “a vida é apenas uma, viva a vida de hoje.” Então vivamos a vida sem desperdícios desnecessários, inclusive sem medo da morte!

Valeu amigo, e feliz retorno com suas benvindas postagens!

Bjs

Emília

Erasmo Ruiz is offline

Querida amiga!

 

Bom reve-la aqui na RHS. Quem sabe a gente em breve possa se rever pessoalmente. Como você bem disse, precisamos falar sobre a morte. Para mim é uma pré condição para se ter uma vida melhor. Bj e carinho do ERASMO

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

Erasmo querido,

Isso é uma alegria, te encontrar por essas plagas novamente!  Demorou, ou seja, terás que compensar todo o tempo em que estivestes fora. 

grande beijo!

Erasmo Ruiz is offline

Querida amiga!

 

Como disse em outro momento, para mim foi um luto complicado suoerar não se rmais editor da Rede. Agora estou inteiro nesse novo papel. as coisas ficam mais fáceis de fluir. Bj, carinho e saudade. 

patrinutri is offline

Quando li o título de seu post pensei na morte mesmo, no momento de encarar a passagem. Daí você me leva a uma receita de vida, que sempre há de se deparar um dia com a morte. Mas uma vida vivida assim "despacito", saboreada parece longa e feliz e que jamais culminaria com a morte. E sim como uma passagem.

Quanto as questões de alimentação e exercício são o meu dilema. Oh coisa difícil tomar esta atitude... será que terei que me encontarr em uma situação limite para encontrar o passo a passo de sua receita?

Espero que não. 

Bjs Pat

Erasmo Ruiz is offline

A dieta e os exercício também são desafio desse sedentário convicto! Bj no coração minha amiga!

 

deboraligieri is offline

Erasmo querido.

A ideia da morte me acompanha desde a infância, principalmente depois do diagnóstico de diabetes, em função dos "avisos" disciplinares dos profissionais de saúde, alguns deles concentrando a conversa sobre saúde mais nos riscos de morte e deficiências pelo mau controle glicêmico do que na possibilidade de invenções para uma vida feliz com a doença crônica. Algumas das reflexões produzidas nesse caminho  compartilhei no post "Diabetes e o medo da morte (ou da vida?)".

Há 4 meses meu pai faleceu em função de um avc. Antes de partir, ficou 3 semanas inconsciente na UTI. Por quase 3 meses (desde que ele foi internado até o fim do meu luto mais intenso que durou uns 2 meses), refleti muito sobre uma questão que você traz no seu texto: o tempo como aspecto e condição da construção de nossas vidas. Atualmente quase todas as pessoas se dedicam a inúmeras atividades no seu dia a dia, principalmente após o surgimento da internet e das redes sociais cibernéticas. É comum a sensação de que nos falta "tempo" para aprofundar o contato com as pessoas de que gostamos e com as atividades não laborativas que nos dão prazer. Essa falta de tempo é o substrato de inúmeros produtos e serviços colocados à disposição no mercado para consumo. E cada vez mais consumimos produtos e serviços tentando "ganhar tempo", mas este é sempre negativo. O habitual é responsabilizar a própria pessoa por sua incapacidade de administrar melhor seu tempo, mas a verdade é que estamos todos aprisionados por um sistema de controle do nosso tempo (portanto, de nossas vidas!) através de inúmeros dispositivos comportamentais, cibernéticos e não cibernéticos, que justamente nos afastam das pessoas e das experiências que nos tornam mais felizes.

Depois da perda física do meu pai, fiquei profundamente afetada por lembranças da nossa convivência por quarenta anos. Não trabalhei nos escritório, diminui minhas atividades aqui na RHS e na militância. Para sobreviver ao luto, precisei trazer à tona a relação de pai e filha presente nessas memórias, para assim eu perceber que essa é uma história viva, que meu pai segue me abraçando através dos momentos vivos em meu coração, que o tempo que com ele passei não se perdeu e permanece vivo comigo. Meu pai morreu, mas o tempo que comigo passou antes de partir não.

Meu pai teve uma vida difícil, foi bastante julgado em função do diagnóstico de bipolaridade. Mas amou intensamente, e sempre demonstrou em todas as oportunidades o amor que sentia por nós. Ele era um cara consciente da preciosidade do tempo da vida como construção de relacionamentos entre as pessoas e o mundo em que vivem, e nos deixou inúmeras fitas k7 com registros de almoços de família e das experiências compartilhadas junto das pessoas queridas. Em uma dessas fitas ele nos gravou cantando juntos (ele tentando me ensinar a cantar) "Mania de você" da Rita Lee quando eu tinha uns 4 anos de idade. Nos últimos meses ele estava um pouco cansado da vida, mas posso dizer que teve uma morte feliz, porque viveu intensamente cada experiência, porque se deixou afetar plenamente pelos momentos de alegria e de tristeza, porque viveu intensamente seu próprio tempo neste mundo. 

Assim, essas "dicas" que você traz nesse texto são na verdade ferramentas para a construção do nosso tempo conforme nossos sonhos e desejos, de tempo para viver, para resistir ao controle exercido sobre nossos corpos em prol da realização de atividades mortas. Seu texto nos convida a pensar o tempo não como um espaço a ser preenchido, mas como uma espaço que não pode ser esvaziado. E se o tempo da morte encerra ou modifica o tempo da vida, lutemos então para seguirmos este caminho mais plenos de nossas vidas, e cheios de histórias com as pessoas que amamos. 

Acabei me emocionando....

Beijo imenso!

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