Reflexões biopolíticas - Rotas de fuga dos pacientes (des)controlados

Primary tabs


13votos

Reflexões biopolíticas - Rotas de fuga dos pacientes (des)controlados

deboraligieri is offline

O QUE REVELAM AS NARRATIVAS DOS USUÁRIOS DA SAÚDE NA INTERNET SOBRE OS DISPOSITIVOS DE CONTROLE DA SOCIEDADE?

 

 
Car@s Amig@s da Rede HumanizaSUS.

Compartilho aqui com vocês algumas reflexões transpostas para o trabalho final da disciplina de "Biopolítica e micropolítica na produção de modelos tecnoassistenciais", da pós-graduação da Faculdade de Saúde Pública da USP, sob coordenação da Profª. Laura Camargo Macruz Feuerwerker.

Na verdade, este é um convite para a continuação e ampliação do diálogo na rede, através de novos comentários e reflexões que venham se somar a essas que publico agora.

Que tipo de relações construímos quando apenas os saberes técnicos são considerados legítimos e representantes da história da saúde (ou seria das doenças), em detrimento das histórias de vida das pessoas? Que sujeitos são produzidos com a valorização das regularidades, sem abertura de espaço aos riscos, às diferenças e às singularidades?

 

Tradução livre: Diabéticos - as únicas pessoas que tomam pico para não ficarem altas

 

O advento da internet na virada do milênio trouxe novas possibilidades de interações sociais nos âmbitos público e privado. Atualmente há inúmeras redes sociais onde as pessoas podem compartilhar suas experiências e manifestar sua forma de pensar a vida e o mundo. Mesmo antes disso, os blogs já se constituíam como um espaço de propagação de qualquer voz, um lugar de fala para qualquer pessoa interessada em publicar textos na internet, sem limites temáticos para o debate. Um dos assuntos debatidos nesses blogs, e a partir da última década também nas redes sociais, é a saúde, tanto sob o ponto de vista dos profissionais, gestores e pesquisadores, como dos usuários dos serviços (públicos e privados) de saúde. Uma abertura importante para pacientes que, tendo voz, nem sempre encontram espaços para propagá-la, tendo em vista sua posição desprivilegiada na relação de poder com os profissionais de saúde. Um campo onde se batalha pelo reconhecimento das experiências práticas com o processo saúde/doença como conhecimentos válidos, e essenciais à conquista da autonomia na condução da vida da pessoa.

A internet é também um espaço de realização de atividades de controle social por blogueiros e ciberativistas em saúde, seja para cobrar o cumprimento de programas de saúde pela administração pública, seja para contribuir para a tomada de decisões políticas. O SUS tem por uma de suas diretrizes a participação da comunidade na construção das políticas públicas de saúde (artigo 198, III, da Constituição Federal). Pensando a participação social para além das instâncias representativas dos Conselhos de Saúde, o ciberespaço se oferece como ambiente de contribuição irrestrita no debate político. Mas em que condições esses relatos dos usuários se constituem efetivamente em ferramentas da participação social direta no SUS? De que forma esses atores da saúde disputam seu lugar na construção da política pública de saúde? Eles exercem de fato alguma influência sobre a criação de direitos na área de saúde? Essas foram as perguntas iniciais disparadoras do projeto de pesquisa de mestrado sobre as narrativas dos usuários da saúde na internet pensadas como ferramentas de participação social, através do exercício direto do poder popular (artigo 1º, §1º, CF), gestadas no curso das disciplinas “Regulação e Regionalização das Redes de Atenção à Saúde” e “Política e Gestão em Saúde”.

Mas essas questões inciais, centradas na macropolítica de saúde, não abordam as relações micropolíticas constituintes da produção das narrativas dos usuários, e que foram paulatinamente se descortinando durante a disciplina “Biopolítica e Micropolítica na Produção dos Modelos Tecnoassistenciais”. Assim, àquelas perguntas se somaram outras: o que é saúde para os pacientes, e quais são as referências (ou influências) das concepções encontradas? O que entendem por participação social e se exercem essa atividade de forma consciente, ou seja, sabem que são atores da participação social no SUS? Que dispositivos de poder da sociedade de controle revelam as narrativas dos usuários na internet? Os relatos indicam possíveis rotas de fuga e invenções de novos modos de existência para além do modelo proposto pela sociedade de controle? Que sujeitos e que tipo de atores da participação social estão (se) produzindo nesses textos?

A produção de narrativas é instituidora de saberes, conformadores da verdade a partir da eleição de versões e fontes oficiais da história. Desta forma, o conhecimento em saúde está correlacionado a um processo de construção técnica alheia à participação dos pacientes. O registro e debate das experiências práticas dos usuários na internet podem então representar uma abertura de espaço para os “saberes das pessoas”, ou saber histórico das lutas, na definição de Foucault1. Participar da construção do saber em saúde como protagonistas/autores, e não como corpos sobre os quais a ciência atua, constitui uma vantagem essencial aos usuários dos serviços de saúde na produção de novas visibilidades, assim como de novas verdades a partir de suas histórias de vida.

O conhecimento em saúde também se correlaciona à produção de sujeitos. Os usuários, profissionais e gestores da saúde não são, mas se constroem, somos todos produtos sociais, sujeitos em constante transformação pelas práticas sociais, principalmente pelas práticas de controle e vigilância da sociedade. Da disputa de sentidos sobre saúde resulta um discurso produtor de mudanças de sentido da própria vida do sujeito. De que forma os sujeitos são produzidos a partir dessas concepções de saúde e de conhecimento em saúde?

A adesão a um projeto terapêutico padronizado para portadores de doenças crônicas pode ser analisada como um dispositivo de controle que, desconsiderando condições, possibilidades, desejos e convicções de cada pessoa, produz sujeitos com pouca autonomia na condução de seu modo de viver. Outro exemplo seria o constante desabastecimento nos serviços de assistência farmacêutica do SUS, que concentra a atuação do controle social no acesso a insumos e medicamentos, revelando-se como um possível dispositivo de medicalização da existência, já que os outros aspectos das políticas de atenção à saúde ficam relegados a segundo ou nenhum plano de debate pelos usuários pacientes.

O que dizem as narrativas dos usuários da saúde a esse respeito? Mudar de lugar nessa questão, transformando aderentes medicalizados em construtores de seu próprio cuidado e do sentido sobre saúde, favorece a produção de outras possibilidades, através do questionamento de tudo que nos submete, nos aprisiona, nos posiciona na vida. É possível fabricar outro mundo? Pensar na construção de soluções compartilhadas através de relações não hierárquicas, concedendo espaço a diversas possibilidades de existências no lugar de aprisionar as pessoas em suas doenças, quando os corpos e mentes padecem por “irregularidades”?

O poder disciplinar não se restringe à medicina e às instituições de saúde, e é exercido através de todas as formas de poder, pressupondo a submissão de pessoas (dos corpos) não individualizadas a uma certa ordem vigente e ditada por alguém ou por alguma instituição. Ele se perpetua dentro de um sistema disciplinar que, segundo Foucault2, “tende a ser uma ocupação do tempo, da vida e do corpo do indivíduo”. As redes sociais podem ser também analisadas enquanto ferramentas do sistema disciplinar, ou ainda como sistemas panópticos de vigilância: os cidadãos disciplinados/sujeitados informam regularmente suas atividades diárias, como forma de atestar sua existência (nas redes sociais e na própria vida). A ideia é viver em constante atividade de produção e de consumo de informações, pois é através delas que o sistema disciplinar intervém.

Os “resíduos” dessa intervenção são considerados como anormalidades. Aqueles que não se enquadram ao modelo de normalidade, perdem a característica de sujeitos ou são menos sujeitos, enquanto os normais são sujeitados. Seriam então as anormalidades uma forma de resistência ao poder disciplinar? A partir desse entendimento, como exemplo, uma pessoa com diabetes “descontrolada” (não sujeitada a regras padronizadas e padronizantes, mas atuante na construção de seu cuidado) teria maiores chances de descobrir outras possibilidades, um modo de conduzir a vida conforme suas condições, possibilidades, desejos e convicções. Aqui vemos, inclusive, um outro sentido para o termo “descontrole”, desnaturalizando o controle exercido não apenas em relação à glicemia de pessoas com diabetes, mas também à forma de gestão da vida dos portadores de doenças crônicas.

E como aproveitar as redes sociais e demais espaços abertos da internet em favor da produção dessas novas possibilidades de vida e de novos sujeitos? As trocas entre diferentes experiências singulares de pacientes – e também de profissionais, gestores e pesquisadores com os usuários – seriam uma forma de produzir resistências ao controle das instituições sobre seus corpos e suas vidas? É possível um outro jeito de encontrar o mundo e com outras pessoas na transformação da gestão da vida?

Essas foram as contribuições trazidas ao projeto de pesquisa pelo curso da disciplina “Biopolítica e Micropolítica na Produção dos Modelos Tecnoassistenciais”. Acredita-se que, depois de um ano e meio de estudos e trocas com os colegas da pós-graduação, as condições para o início dessa jornada em busca das rotas de fuga dos usuários da saúde não sujeitados, ou menos sujeitados – sem perder de vista que a cada “escapada” corresponde um prévio
aprisionamento ou nova captura  – no exercício da participação social em saúde, se fazem presentes. A proponente está ansiosa para descobrir as “rebeldias” construtoras de saúde que se revelarão ao longo desse caminho!

 

 

 

Referências

1. Foucault M. Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2005

2. Foucault M. O Poder Psiquiátrico. São Paulo: Martins Fontes, 2006

 

 

 13 COMENTÁRIOS

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

Déboramada,

Alegria por encontrar uma formulação de problema a ser tratado como um mergulho intensivo como só você é capaz com toda a tua singularidade efervescente. Vai ser um trabalho lindo de de se ver e se tornará com certeza mais um potente instrumento da caixa de ferramentas clínico-políticas de que tanto necessitamos hoje.

Quero muito participar desta iniciativa como um dos teus  "sujeitos de pesquisa"  pois tenho a plena certeza de que meu trabalho de cuidado na saúde foi transformado a partir da participação numa rede social de saúde como a RHS.

A RHS permite a construção das mais variadas e ricas linhas de fuga que perfuram práticas conservadoras de modos nem sempre vinculados à afirmação da vida.

Conte comigo neste lindo percurso!

deboraligieri is offline

Izamada.

Boa parte das formulações e questionamentos trazidos neste projeto são fruto da intensidade dos encontros vividos na minha militância em defesa do direito à saúde. A Rede HumanizaSUS tem um papel fundamental como espaço promotor destes bons encontros! Desde que aqui mergulhei em 2013 minhas inquietações só aumentaram, assim como o meu desejo de descobrir novas e ampliadas formas de afirmação da vida. E os encontros contigo a cada novo debate aqui na RHS fazem parte dessa nova intensidade que vem me habitando há alguns anos. Assim como com o Ricardo (de quem "roubei" a frase sobre a expectativa de descobrir as rebeldias, comentário feito por ele quando enviei o título do trabalho que escrevia empolgada), provocador de muitas das reflexões compartilhadas nesse post. E como todos os companheiros e companheiras desta nossa rede quente em torno do SUS que dá certo!

Ainda não defini a metodologia da pesquisa, mas, se for o caso, será um imenso privlégio pra mim construir o trabalho com "uma sujeita" assim tão vibrante como você! Obrigada pelas trocas, pelo apoio, pelo carinho, e pelos comentários sempre tão arrebatadores. É delicioso caminhar com uma companheira assim!

Stella Maris Chebli is offline

Belo texto para refletir! Produz vontade de diálogo, abre questões, fura a "realidade".

Tentemos continuar com as fugas, Débora, as mudanças de sentido daqueles discursos sociais que qualificam moralmente os modos de vida dos sujeitos. Na década de 70 ainda falava-se "do menor infrator" quando estavamos tentando cuidar da "infância mal-tratada". Escolhamos o "descontrole social" provocando a participação da sociedade nas políticas de estado.

deboraligieri is offline

Stellita querida.

Assistindo às aulas dessa disciplina de micropolítica, comecei a perceber o quanto a ideia de "controle" está naturalizada nas práticas de saúde de pessoas com doenças crônicas, em especial o diabetes. Controle glicêmico, controle alimentar (incluindo o controle dos horários de alimentação), controle dos níveis de colesterol, LDL.....é muito controle! Por outro lado, quase nunca são abordados os desejos das pessoas que, relacionados ao cuidado em saúde, retornam ao atos vedados, mas sem abordar toda a vida suprimida pelas regras, médico-biológicas e sociais. Em uma das aulas brincamos com a questão dos comportamentos correspondentes aos diagnósticos, geralmente associados a vedações: pessoas com diabetes seriam as que querem comer (reprimendas ao comportamento alimentar) e pessoas soropositivas seriam as que querem ser "comidas" (reprimendas ao comportamento sexual). As perguntas não deveriam ser "o que você come?" ou "quantos parceiros sexuais você tem?", mas "o que te faz feliz" e "que caminho construiremos para você viver feliz e com redução (eliminar não é possível!) dos riscos e danos pra tua saúde".

Construir sujeitos que lutem por políticas promotoras de encontros e práticas com mais abertura e menos controle é essencial à constituição de uma participação social que dispute a política por saúde, e não por doenças. Essa também é uma das questões a ser investigada: os usuários atores da participação social direta lutam por políticas relacionadas à saúde ou à doença, e por que, o que nos remete novamente aos dispositivos de controle.

Precisamos construir mais caminhos em busca do descontrole, sigamos pelas linhas tortas!

deboraligieri is offline

Sobre a questão das vedações alimentares para pessoas com diabetes, vale a pena conferir o compartilhamento de uma foto de uma "diet coke" e o debate gerado a partir dos comentários de pessoas com diabetes neste link: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10154553455976479&set=a.410835361478.196441.559871478&type=3 (acessível apenas aos meus amigos de facebook em função da restrição colocada pela amiga que publicou a foto). Por trás de um debate cheio de contribuições, o histórico dos nossos sonhos de ter mais opções de alimentação. O desejo de novas possibilidades de vida, de uma vida mais ampliada, num debate sobre a diet coke!

Emilia Alves de Sousa is offline

Querida Débora,

Que beleza o compartilhamento das reflexões do seu projeto de pesquisa de mestrado!

Dentre as suas pertinentes reflexões, destaco uma que achei muito interessante -  o que é saúde para os usuários? Há poucos meses, no HILP, realizamos uma roda de conversa com os usuários pais/acompanhantes das crianças internadas, e fizemos essa pergunta pra eles: O que é saúde para você?  A percepção que tivemos é que, ainda é muito fragmentada a visão do usuário sobre o conceito de saúde. Para muitos, a saúde ainda está muito associada à ausência de doença, simplesmente, e aí vêm os questionamentos:  Como os usuários podem participar, fazer um controle social efetivo das políticas públicas com essa visão linear sobre o entendimento de saúde?  O que está sendo feito para que eles ocupem esses espaços de produção de saúde e de sujeitos,  se apropriem  dos conhecimentos, troquem saberes  e exerçam a condição de protagonismo nesse processo? Aliás, que tipo de saúde e de sujeitos queremos produzir nesses espaços?

Valeu Débora por nos trazer esta publicação primorosa! Já fico cá  imaginando em como vai ser a sua dissertação de mestrado.

Bjs

Emília

deboraligieri is offline

Emilia querida.

Obrigada pelo seu acolhimento tão característico, e pelo apoio ao debate sobre as questões pensadas para o meu projeto! Seu comentário me fez mergulhar um pouco mais sobre a concepção de saúde dos usuários, e consequente projeção sobre os "modos" da participação social na construção das políticas públicas. Em regra, o usuário não é questionado sobre o que pensa ser saúde, a definição é imposta por profissionais e gestores (identificada à regularidade biológica) ou pela indústria farmacêutica (identificada a tecnologias duras, geralmente insumos e medicamentos de última geração). Veja como as práticas que desvalorizam os arranjos entre profissionais e usuários influenciam até mesmo a definição de saúde! Isso também se relaciona à suposta supremacia do saber técnico sobre o "saber das pessoas": ao usuário não é dado nem o direito de pensar, apenas o direito de ocupar o lugar de quem nada sabe, de quem adere, até mesmo ao conceito de saúde não construído por ele. E dai fico pensando (sim, nós pensamos!): os usuários atores da participação social lutam pelos direitos que acreditam corresponder a melhores condições de vida à população, ou por regras representativas de ideias alheias nem sempre correspondentes à afirmação da vida e da justiça social?

O HILP está de parabéns por ofertar esta oportunidade aos usuários de pensar o que é saúde. Um belo exemplo de como incentivar e apoiar o protagonismo dos pacientes-cidadãos!

Valeu, amada, por trazer esse comentário primoroso! Nem vou pensar na dissertação do mestrado, porque ainda preciso prestar e passar na prova, e mesmo assim já estou ansiosa pra começar os trabalhos!

Beijos,

Débora

Ricardo Teixeira is offline

Bem bacana, Débora!

Acho inspirada essa ideia do "descontrole" (ecoada pela Stella, num comentário acima, como "descontrole social"), tem alguma coisa que vale ser explorada a partir dessa ideia, mas ainda acho que o "ponto de fuga" desse "quadro" que você pinta é a noção de "participação". 

Há ótimas perguntas já formuladas que abrem a possibilidade de uma investigação bem interessante, mas a grande questão que sustenta essa pesquisa, na minha opinião, é sobre as diferentes possibilidades de "participar", é sobre o como, o porquê e o do quê se "participa"...

Beijão!

deboraligieri is offline

Ah, Ricardo, bacana mesmo é essa sua orientação assim em rede aberta!

Esse lance da noção de participação social, fruto da nossa última conversa sobre o projeto (na verdade, acho que todo ele é resultado dos questionamentos e provocações que você me faz desde que demonstrei interesse nesse objeto de pesquisa) me fez pensar a participação social no SUS de um jeito diferente, para além do aspecto jurídico (direito à participação), também pelo aspecto político (possibilidade de participação, como você bem colocou). Acho que a questão é mesmo buscar o como, o porquê e o do quê se participa, como forma de entender os contornos e limitações do direito à participação da comunidade na construção da política pública, e talvez as soluções encontradas (ou não!) na internet para furar esses limites (ou como os usuários se "descontrolam" na construção da política de saúde).

Obrigada por me conduzir por esse caminho tão instigante e cheio de vida, construído pelos nossos bons encontros!

Beijos

patrinutri is offline

Querida Debora, como sempre não há como ler seus textos, sempre tão profundos e instigantes sem ir fazendo anotação para não perder a riqueza das emoções da primeira leitura.

Sempre faço isso diante deste mar de riquezas reflexivas e emoçoes desenfreadas que voc~e nos inspira. Então vamos lá:

Primeira coisa que me fez dialogar com seu texto foi que ao mesmo tempo que a internet é um território livre para expressões , pode tornar-se um tribunal implacável, cheio de ódio ao mesmo tempo com muito acolhimento. Saber encarar isso é para os fortes. Há muitos que jamais se exporiam neste espaço.

Quando você aborda sobre os modos de cooptaçao da ciência e da desconsideração a respeito do conhecimento de cada um sobre seus corpos e realidades de saúde doença: penso que o usuário fala quando não adere ao tratamento. Não produz vínculo, porque não conversa com seus saberes, não faz sentido na sua realidade vivida. O usuário responde com esvaziamento, não adere ao tratamento, não vem ao grupo, tenta burlar as regras de entrega de produtos. Os ESFs cuja conceção de saúde está mais próxima de uma abordagem micropolítica, já perceberam isto e transformaram estes espaços para rodas de conversa. Mas os ambulatórios ainda deixam na conta da falta de compromisso do usuário com sua saúde.

Penso que saíde para os serviços é sempre a ampliação da clínica, exercício do conceito ampliado de saúde, atuação multiprofissional, vínculo e interação com o usuário

Relatos de experiências é sempre um lindo caminho, recheado de afeto e afetividade.

Claro que há muito desfio em tudo isto, mas minha aposta é no caminho do formato menos medcalizante e mais comunicativo, ao mesmo tempo que mais próximo dos territórios de vida das pessoas.

Espero ter consegido dialogar com suas questões sem destruir-lhes as riquezas.

Esta flor que desabrocha aponta para uma esperança que é de vida agora!

Bjs Pat

deboraligieri is offline

Pat querida.

Obrigada pelo imenso apoio e carinho! E pelo comentário ampliando o debate. As conversas aqui na RHS me incentivam à abertura das ideias em rede, pois ao risco de críticas negativas em relação ao conteúdo exposto corresponde a possibilidade de acolhimento e enriquecimento das ideias propostas, como aconteceu no caso desse post. Nem sempre o diálogo na intenet ocorre de forma respeitosa, mas quando ocorre, arriscar-se na rede deixa de ser um ato imprudente e se torna um salto para o crescimento, para novos questionamentos e novas descobertas!

Você tem toda a razão quando menciona a não adesão como uma fala do usuário. Na verdade, a recusa de "obediência" a uma prescrição é o último resquício de autonomia da pessoa na gestão da sua vida, é um grito em defesa de sua existência como paciente real, e não como paciente ideal e idealizado genericamente. Por isso faço alusão no texto à pouca autonomia do usuário: por menor que seja, e ainda que apareça apenas nos comportamentos "desobedientes", a pessoa ainda não entregou por completo a gestão da sua vida ao profissional de saúde.

E é justamente esse comportamento "desobediente" que me interessa no projeto de pesquisa, pois ele pode indicar os dispositivos de controle da sociedade operando sobre a vida dos usuários dos serviços de saúde, e também as soluções encontradas pelos pacientes "descontrolados" para viver uma vida mais feliz e com mais autonomia.

Na flor desabrochante vejo desobediências, descontroles e efetiva atuação da participação social no SUS e nas políticas públicas de saúde.

Bjs,

Débora

Raphael Henrique Travia is offline

Oi Débora,

Aquele GIF que você removeu dessa postagem estava lindo!

Conheci a Professora Laura num evento de Educação Permanente em Saúde promovido pela SES-SC em Balneário Camboriú no ano de 2011.

Sobre as rotas de fuga dos pacientes descontrolados...rsrsrsrs bem impactante este título e caiu como uma luva com uma situação recente que acabei de enfrentar e discrevi em minha última postagem. Estou me sentindo como Dom Quixote lutando contra moinhos de vento (Gigantes).

Muitas vezes a gente tende a ter a esperança de que as coisas vão melhorar quando este ou aquele prefeito entrar ou sair, entretanto as mazelas do Sistema Único de Saúde seguem ano após ano, e para além de alguns tratamentos de excelência geralmente resultantes da luta de grupos de pessoas com doenças crônicas, mas o arroz com feijão da Atenção Básica á Internação são de baixa qualidade e difícil acesso, pra falar a pura verdade sem fantasia!

AbraSUS

Raphael Henrique Travia

 

deboraligieri is offline

Rafael querido.

Também gostei do gif da mandala! Por outro lado, a imagem da insulina de ponta-cabeça me pareceu mais adequada pra retratar o texto. Mas percebi que as duas cabiam no post, então coloquei de volta o gif bonito. Obrigada por colaborar com a produção da publicação!

Acho mesmo que nossos posts dialogam, por isso trago o link do seu pra cá (http://www.redehumanizasus.net/96418-apenas-um-rapaz-no-des-encontro-latino-americano-de-direitos-humanos-e-saude-mental), da mesma forma que deixei lá o link daqui. Mas o descontrole, como relato nesse texto, é justamente a nosa linha de libertação de um caminho que não produz saúde, mas (re)produz padrões e sistemas de injustiça e exclusão.

Dom Quixote lutava contra moinhos de vento mas, embora seus inimigos fossem imaginários, sua luta era real. Acho que o SUS e a saúde pública que buscamos tem um pouco disso: um caminho árido, com inimigos (dificuldades) nem sempre tão palpáveis ou facilmente identificáveis, e com uma luta sempre presente.

Talvez esse SUS almejado seja exatamente o sistema de que já participamos ativamente nos debates em rede e nos territórios. Talvez o que falte mesmo é mais consistência no básico, no arroz com feijão, na atenção básica/primária, para melhorar a qualidade e ampliar o acesso, para que o acesso não seja fantasia.

AbraSUS!

Débora

Últimos posts promovidos


Carina Helena Bubolz is offline
3votos

Hospital Independência, de Porto Alegre, viabiliza visita de animais de estimação como estímulo à recuperação dos pacientes

A paciente Cláudia Maria Franco da Cunha, moradora do bairro Cristal, em Porto Alegre, foi a primeira a receber a visita do seu animal de estimação no Hospital Independência, na tarde desta terça-feira, dia 25 de julho. A iniciativa está de acordo com a Política Nacional de Humanização (PNH), do Ministério da Saúde e visa estimular a recuperação dos pacientes.

Últimos posts comentados


ElainePerez is offline
5votos

Pois é ...

 

Pois é...
Diálogo ritmado com Foucault e Agamben
Elaine Perez

Deu vontade de escrever palavras ligadas.
Desejo da alma que busca acordar olhos cansados.
Corpos doídos, sonhos abandonados.
Somos brasileiros e nos sentimos ao deus-dará.
Fomos atingidos à queima-roupa.
A vida está nua.
Biopoder...
Que João-de-barro, nos salve dos campos,

 do exílio, das balas,

das linhas,