Reforma Psiquiátrica no Brasil: a visão de uma estudante de Medicina

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Reforma Psiquiátrica no Brasil: a visão de uma estudante de Medicina

marinamendesmelo@gmail.com is offline

           

Logo ao ler a primeira página do texto Reforma Psiquiátrica e Saúde Mental no Brasil (Brasil, 2005) fiquei impressionada. Como assim o processo de desinstucionalização já possui três décadas? Algo que na minha percepção era atual e do século presente já viveu uma trajetória tão longa e marcante. Trajetória esta complexa e cheias de percalços, que embora seja linda no papel demonstra através do nosso cotidiano uma realidade completamente diferente.

            Há três anos comecei a frequentar o Hospital Escola Portugal Ramalho em virtude das três disciplinas de psiquiatria que tivemos e posso dizer com tamanha propriedade que aqueles mesmos pacientes que estavam internados no começo do meu curso, se fazem presentes ainda hoje perambulando em suas instalações. Claro, novos rostos surgiram em meio a dezenas de pacientes, mas aqueles mesmos exclusos, apáticos e indiferentes ainda ali fazem morada.

            Acredito que a mesma ideia de depósito de Barbacena de certa forma ainda se faz presente. Cada vez que conheço uma nova ala do hospital eu fico literalmente aterrorizada; as condições de higiene e o “respeito ao eu” passam longe de suas dependências. Os internos parecem realmente regredir e se desfazer de tudo que os tornam homo sapiens. Mas como mudar a associação entre o mundo da loucura e o mundo da exclusão presente desde meados do século VXII do dia para noite? Permito-me dizer, impossível!

            Nesse aspecto que surge a Reforma Psiquiátrica, com todos os seus anseios e busca de esperança para este setor tão marginalizado da sociedade. Com isso, o que se percebe são avanços presentes de forma notória em alguns Estados desde o começo dessa luta contrastando com um caminhar de passos lentos de Alagoas sobre esta questão.

            E como acabar com o maior manicômio público do Estado sem uma mínima estruturação?

            Sem sombra de dúvidas o CAPS tem sua importância. Nos dias que lá pude conviver, percebi a dedicação e profissionalismo de todos os seus trabalhadores e o impacto positivíssimo na vida de seus usuários.

            O CAPS se mostra um ponto da rede essencial, como o texto citado acima exatamente explica, e puder acompanhar isto na prática. O CAPS atrela desde atividades de autoconhecimento, autonomia e acompanhamento clínico até a produção de renda para os seus frequentadores. Tarefas estas que a meu ver é imprescindível para a reinserção do doente mental na esfera social. Apenas com remédios e eletrochoque, por exemplo, o paciente não evolui, como afirma o filme “Em nome da razão”; seu tratamento deve atrelar ainda a esfera cultural, social, política... Ações estas que o CAPS e demais componentes da rede procuram desenvolver.

            Contudo, muito ainda falta. Acredito que seja mais uma questão política do que falta de vontade dos próprios trabalhadores desta realidade. Durante a convivência, percebi que a Reforma é anseio e desejo de todos! Acredito ainda que muito do descaso que se tem pela própria Reforma é o fato de não conhece-la. Nesse sentido, me tomo como exemplo, através da experiência pude apagar preconceitos e compreende-la, algo que para mim antes era inviável. Como acabar com um manicômio? Onde colocar os residentes? Como eles serão controlados? Como os profissionais vão atuar? Perguntas estas que preenchiam e norteavam o meu pensamento.

            Assim, com o estágio e sobretudo com o texto da Reforma Psiquiátrica pude clarear meus pensamentos. Entretanto, vou em oposição ao texto ao não acreditar na realidade quase ideal que ele quer passar. Infelizmente, o Brasil não é assim e mascarar os fatos negativos expondo apenas os positivos não é viável.

            Nesse cenário, o Hospital Escola Portugal Ramalho apresenta cerca de 160 pacientes hoje em dia e para atender sua demanda seriam necessários aproximadamente 7 CAPS III. Como progredir com a ideia de desinstucionalização de forma tão rápida como está sendo proposto em nosso Estado se o modelo de CAPS III nem faz parte da nossa realidade?

            Sendo assim, sou totalmente a favor da Reforma e concordo plenamente com as atrocidades apresentadas pelo filme e por outros textos sobre o assunto, vejo uma pequena parcela delas todos os dias ao passar pelos corredores do hospital. Contudo, que ela se faça de forma adequada e estruturada, começando com a superação dos estigmas trazidos pelos próprios profissionais. Assim, em minha opinião, não acredito que estejamos prontos para esse grande passo, e se todos assim pensassem não seria mais um processo incompleto/jogado que se tomaria forma no Brasil.  As conquistas vêm aos poucos, assim como as ações que devem usadas como base!

 

 

 

          

 

 

 

 7 COMENTÁRIOS

Emilia Alves de Sousa is offline

Olá Marina,

Muito legal a sua postagem! Corroborando com as suas reflexões, compartilho o post da Psicóloga Iza Sardemberg que traz o documento técnico Desinstitucionalização e Atenção Comunitária no Brasil como contribuição ao debate da crise pela qual passa a política de saúde mental no cenário atual

. http://www.redehumanizasus.net/93684-desinstitucionalizacao-e-atencao-comunitaria-no-brasil

AbraSUS!

Emília

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

Olá Marina,

Tua postagem é mais que fundamental. Nesta semana comemoraremos  o dia da Luta Antimanicomial, com um intenso desejo de continuar as lutas pelo respeito aos modos mais amorosos e inclusivos de cuidar das pessoas. 

AbraSUS!

Sérgio Aragaki is offline

Mariana,

Parabéns pela postagem. Colabora muito nas reflexões, discussões e mudanças nas práticas para melhoria da saúde.

A luta é contínua e estamos, infelizmente, em desvantagem. Muitos são os interesses contrários à melhoria da saúde, à diminuição dos estigmas e preconceitos. E muitas pessoas, mesmo favoráveis à saúde enquanto produção de vida (e não de lucro), acabam ajudando a reproduzir e sustentar o modeloo que predomina - adoecedor para todos e todas.

Seguimos na luta. E é bom sempre lembrar que a proposta desde sempre foi criar os serviços substitutivos em rede e progressivamente ir diminuindo os leitos dos manicômios, para então fechá-los. Um processo que tem sido discutido e pactuado há anos. Mas que, muitas vezes, não tem ocorrido conforme pactuado em reuniões oficiais dos gestores, por conta de desinteresses e interesses contrários.

Vamos manter e ampliar também nossas redes de pessoas e instituições a favor da saúde.

Abraço,

patrinutri is offline

Prezada Marina,

Muito boas tuas provocações em nos fazer pensar sobre a política de saúde mental no Brasil.

Nesta semana em que se comemora o dia da Luta Antimanicomial.

Temos, cada vez mais, que apostar nos caps como serviços de referência para cuidados de usuários. Mas temos muito mais que fortalecer o tema desde atenção básica, onde o vínculo se controe mais proximamente das redes socias dos usuários e sua famílias. Instrumentalizar as equipes através do dispositivo de matriciamento, consulta compartilhada e rodas de conversa de estudos de casos no sentido da promoção da saúde mental.

Outra luta, a meu ver, deve ser pela qualificaçao de leitos para usuários de saúde mental em hospitais gerais, para que possamos diminuir os estigmas em torno destas pessoas. Outro dispositivo aliado a desintitucionalização são as residências terapêuticas que tem recebido baixo investimento pelos gestores do sus, mas que seria uma importante alternativa aos manicômios para usuários sem rede social acessível.

Aqui em SC, onde moro, temos câmaras técnicas de saúde mental, onde a rede é amplamente debatida e os serviços, trabalhadores , gestores, juntamente com usuários e universidade tem somado esforços para promover saúde e em especial fortalecer a economia solidária como modo de autonomia para a reinserção dos usuários na sociedade com trabalho e renda.

Seguimos na conversa.

Bjs Patrícia

Raphael Henrique Travia is offline

Oi Marina,

Muito bom saber que você é uma estudante sensível a causa da Reforma Psiquiátrica, isso é muito raro nos dias de hoje.

A Reforma Psiquiátrica é uma necessidade urgente, pensa comigo quantas pessoas a psiquiatria ainda vai matar nos manicômios até conseguir que o processo de desinstitucionalização ocorra de  " forma adequada e estruturada", e se você estudar um pouco esse processo vai justamente perceber que a luta antimanicomial não é um movimento uniforme pois ele abarca diversas lutas e contra reformas em si. O processo é debaixo pra cima e bem controverso!

AbraSUS

Raphael

Marcelo Dias is offline

Marina,

suas dúvidas também eram dúvidas daqueles que deram início ao movimento da reforma, porém com a diferença de não poderem se basear em ações que já tinham dado certo no SUS, diferente do que ocorre agora e que pode ser utilizado por vocês aí em Alagoas. Mas concordo que a desinstitucioinalização é algo complexo sim e que não acontece com a simples construção de CAPS. Até porque hoje sabemos de vários CAPS que funcionam literalmente como substitutivos dos manícômios, tornando-se mini-manicõmios de portas abertas, às vezes entrando mais pacientes do que saindo.

Nessas 3 décadas, houve acertos e erros e hoje acredito que devemos rever tudo o que conseguimos até agora e talvez abandonarmos algo do já alcançado e partirmos pra novos territórios. 

Abraço e sorte na caminhada!

ruiharayama is offline

 Olá Marina,

  importante que você esteja empenhada em levar essas suas indagações e desejos por uma sociedade sem manicômios para frente. O que é muito importante em cursos da área da saúde, que nos ensinam a perder a humanidade. 
 Para além do texto e da experiência da reforma psiquiátrica brasileira, vale a pena pensar no maplo leque da RAPS - rede de atendimento psicossocial - e que inclui os CAPS e os Hospitais com leitos psiquiátricos, unidades de acolhimento e residências terapêuticas.

Digo isso porque normalmente os médico ficam sempre vendo disciplina da Saúde Mental, e todas as vivências, sobre a chave da doença e do sofrimento. Saúde é muito mais do que isso.
Olha, segue um belíssimo relato de experiência da Rede Sampa.
http://www.redehumanizasus.net/96034-trabalhadores-do-sus-cartografam-po...

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