PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADE: COMO ANDA O IMAGINÁRIO SOCIAL DA PERIFERIA DE SÃO PAULO

Primary tabs


10votos

PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADE: COMO ANDA O IMAGINÁRIO SOCIAL DA PERIFERIA DE SÃO PAULO

cleusapavan is offline

Quem trabalha ou se interessa pela temática da produção de subjetividade no contemporâneo, mais especificamente, no Brasil de 2017, vai encontrar dados muito instigantes na pesquisa recém saída do forno da Fundação Perseu Abramo: “Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo”.

Trata-se de uma pesquisa qualitativa em que, com categorias originais, nos aproximamos de uma construção analítica passível de nos surpreender imensamente.

Intuíamos, mas não ainda corroborávamos com a riqueza de detalhes oferecida pela recente colheita de dados deste estudo, a consolidação dos valores neo-liberais e a mutação ideológico-subjetiva em curso no imaginário social da periferia de SP.

Vejam as conclusões do estudo (http://novo.fpabramo.org.br/content/percep%C3%A7%C3%B5es-na-periferia-de...):

" No imaginário da população não há luta de classes; o ‘inimigo’ é, em grande medida, o próprio Estado ineficaz e incompetente, abre-se espaço para o ‘liberalismo popular’ com demanda de menos Estado.

 

A dimensão da vida pública é muito rarefeita e quase sempre a noção de “público” é tratada como sinônimo daquilo que é “de graça”. Nesse sentido, a própria relação com a esfera pública está mediada por interpretações mercantis.

 

Em muitos casos, a visão de mundo é formada se espelhando não entre aqueles que pertencem ao mesmo grupo, mas entre aqueles que pertencem ao grupo onde esses indivíduos almejam chegar, é fundamental observar os desejos e as expectativas futuras dessas pessoas.

 

A ascensão social está relacionada à coragem, ousadia e disciplina e é tratada como

um resultado individual derivado da força de vontade. Muitas vezes isso significa

estabelecer um sentimento de solidariedade mais estreito com os próprios empregadores do que com aqueles que partilham a mesma condição de classe. Nesse sentido, a resiliência, mais do que a resistência é um valor positivo.

 

A lógica mercantil está presente mesmo na interpretação dos direitos trabalhistas e

benefícios sociais. As pessoas confiam mais nos programas que ofertam imediatamente recursos financeiros (Bolsa Família/Passe Livre) do que nas leis que orientam direitos.

 

Há uma busca por identificação com histórias de superação e sucesso, é nessa medida

que figuras tão díspares como Lula, Silvio Santos e João Dória Jr. aparecem

como exemplos. Em muitas circunstâncias a figura de Lula é admirada menos pelas

políticas que o governo dele implementou, ainda que essa seja uma dimensão importante, e mais porque ele próprio é um bom exemplo de ascensão social.

 

Na trajetória e no desejo de ascensão os “estudos” e não necessariamente a educação aparece como um elemento fundamental; de forma análoga a igreja aparece menos na sua dimensão teológica e mais como instituição de apoio para minimizar ou evitar o risco de seguir pelo caminho errado da desocupação e da criminalidade.

 

Voto religioso não é, estritamente, um voto conservador. Os valores religiosos neo- -petencostais podem se relacionar com elementos fundamentais organizativos da vida do trabalhador (meritocracia, teologia da prosperidade, etc), mas não são determinantes. Apresentam-se mais como identidade eletiva.

 

O “sucesso” neopetencostal se daria mais por questões organizacionais, seu papel acolhedor e de sociabilidade na comunidade do que por questões de conteúdo ideológico. Política também é vínculo, acolhimento e identidade – as igrejas nas periferias proporcionam isso.

 

Atenção para o discurso que nega o ‘mérito’ →ele é importante na construção da identidade.

A dimensão da vida privada é central para a constituição da subjetividade do indivíduo. O campo democrático-popular precisa produzir narrativas contra-hegemônicas mais consistentes e menos maniqueístas ou pejorativas sobre as noções de indivíduo, família, religião e segurança.

 

Novas pesquisas: investigar mais o papel da religião e explorar mais a diferença sobre elas.

 

Este cenário de descrédito da política, compreensão do Estado como máquina ineficaz

somada à valorização da lógica de mercado e a ideologia do mérito abrem espaços para candidatos e projetos como o do João Dória ‘um não político, gestor trabalhador que ascendeu e, por isso, não vai roubar’

 

MAS... entrevistados seguem acreditando em saídas democráticas, falam em fortalecimento dos processos de transparência e participação. No processo de formação de opinião, as condições materiais de vida e do cotidiano são preponderantes".

 

 

 8 COMENTÁRIOS

Emilia Alves de Sousa is offline

Sou uma apaixonada pelas pesquisas, pela possibilidade de mostrarem dados interessantes, como esta trazida por você Cleusa.

Quem poderia imaginar que uma metrópole como São Paulo tivesse uma periferia com a maioria das pessoas com um imaginário ainda marcado pelo individualismo, pela lógica mercantil, pela valorização da meritocracia...? Onde está a falha? O que está sendo feito para as pessoas mudarem esse imaginário?

Outro dado chama a atenção, a descrença e a desvalorização da coisa pública.  As pessoas até defendem o público, mas se pudesse colocaria seu filho numa escola particular e teria um plano de saúde privado. Um indicativo de que a coisa pública não está boa e precisa mudar.

E tenho que concordar com você, quando diz:  “Este cenário de descrédito da política, compreensão do Estado como máquina ineficaz somada à valorização da lógica de mercado e a ideologia do mérito abrem espaços para candidatos e projetos como o do João Dória ‘um não político, gestor trabalhador que ascendeu e, por isso, não vai roubar”

Obrigada pelo compartilhamento da pesquisa!

Emília

Sérgio Aragaki is offline

Cleusa, uma felicidade poder me aproximar de novo de vc, mesmo que virtualmente.

Muitíssimo importante as informações aqui disponíveis, que em muito nos ajudam a ampliar e aprofundar nossos entendimentos e análises. Sair das culpabilizações, do anestesiamento, da heteronomia.

Sair do mero discurso e afetar as práticas. Continuamos juntxs.

Sabrina Ferigato is offline

Muito lúcidos os resultados da pesquisa... embora a maior parte deles me entristeçam, creio que eles nos dão pistas importantes em relação aos caminhos que precisamos explorar mais... Criando mais redes, segregando menos e criando contradiscursos mais estratégicos, capilarizantes e eficientes do que a velha esquerda tem conseguido produzir...

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

Mais debate neste vídeo da Fundação Perseu Abramo em sua página do facebook:

 

 

Ricardo Teixeira is offline

Muito bacana publicar essa pesquisa por aqui, na RHS, Cleusa!

Esta Rede merece, à sua maneira, encampar esse debate, que vem agitando outras paragens do debate social brasileiro.

Essa pesquisa já deu e ainda continua dando o que falar...

Acho que a primeira coisa que vale a pena fazer é trazer para este espaço os vários contrapontos que surgiram, não só à pesquisa em si, mas a uma certa interpretação dos seus resultados. Enriquece poder contemplar os vários pontos de vistas que já surgiram nesse debate e não foram poucos. Tantos, que a coisa poderia ficar um pouco extensa. Então, vou indicar apenas um artigo que, na minha opinião, faz a melhor crítica à pesquisa em si e a um certo espectro de interpretações que já circularam. Gostei muito desse artigo da Rosana Pinheiro-Machado: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-periferia-liberal-e-os-riscos-da-disputa-narrativa-201cdos-pobres201d

Não deixa de surpreender que uma pesquisa conduzida por uma Fundação ligada ao PT tenha sido exaltada, imediatamente, por um movimento de extrema direita como o MBL, que viu nela a confirmação de suas teses políticas sobre o "liberalismo" das classes populares brasileiras. Mas, mais surpreendente ainda é que essa interpretação dos resultados da pesquisa tenha sido prevalente entre os próprios intelectuais petistas e estarrecedor imaginar que, dessa conclusão um pouco rápida, para dizer o mínimo, se pretenda extrair aprendizados para reorientação de estratégias comunicacionais e políticas junto às classes populares. Como disse, mesmo nas hostes petistas surgiram algumas interpretações discordantes, como a do Marcio Pochmann que vê "anarquismo" no lugar do "liberalismo" das periferias: http://www.ihu.unisinos.br/566647-valores-da-periferia-estao-mais-proximos-do-anarquismo-do-que-do-liberalismo-entrevista-especial-com-marcio-pochmann

Mas não é esse o ponto principal na discussão dessa pesquisa, a meu ver, mas muito mais as questões levantadas pela Rosana Pinheiro-Machado no artigo que recomendei acima. O que me parece realmente "sintomático" de um caducamento da esquerda (e de um certo "sociologismo" pouco fecundo, que ainda assombra os hábitos intelectuais da esquerda ou da ex-querda) é a insistência em disputar a narrativa "dos pobres". Nesse sentido, não são apenas as interpretações dos resultados da pesquisa que são problemáticos, mas a pesquisa em si e sua construção epistêmico-metodológica: cheira a naftalina que pretende conservar um certo "vanguardismo" ultrapassado das traças da história.

Não poderemos inventar novas formas de luta sem inventarmos novos modos de pesquisar. Denuncio nesse tipo de pesquisa (e boa parte do debate que costuma se seguir a esse tipo de pesquisa) como cúmplice de um modo de fazer política que não é mais, nem pode mais ser de esquerda! Há uma perspectiva, mais ou menos explícta, em torno dessa pesquisa que parece se orientar pela preocupação em "adequar" estratégias para se "comunicar" com os pobres e, em última instância, "disputar os votos" dos pobres (a insistência em usá-la para explicar a derrota do Haddad para o Dória, deixa isso claríssimo!). Esse é o pano de fundo da estruturação metodológica da pesquisa, mas que acaba se transformando numa verdadeira armadilha. Uma armadilha que captura a própria esquerda!

E, no entanto, já estamos em outro mundo! No qual outras práticas políticas e de pesquisa se apresentam! Quando os "pobres" deixam de ser uma categoria abstrata e são reconhecidos nos inumeráveis coletivos de resistência que se organizam nas periferias ou a partir de outras situações de opressão ou constituição minoritária (índios, negros, LGBT, gênero etc.), aí não podemos, impunemente, conceber a "sustentabilidade" de uma pesquisa com esse tipo de orientação metodológica. Dá pra imaginar um debate em que não-negros saiam perguntando para os negros o que eles pensam e, a seguir, produzindo interpretações sobre seus achados? Até dá, porque isso ainda acontece, mas a grita ia ser rude e com razão! Por que achamos que ainda cabe que sociólogos não-pobres continuem a pesquisar e disputar entre si as narrativas "dos pobres"? Não está mais do que na hora de se produzir outros modos de conhecer que efetivamente contribuam para a criação e potencialização de projetos coletivos de autonomia?

A esquerda não está precisando de novas interpretações sobre quem são os pobres, mas inventar urgentemente novas formas de lutar! Tanto quanto a sociologia precisa inventar novas formas de pesquisar...

Bem, se a pesquisa da FPA trouxe uma grande contribuição, a principal, pra mim, foi essa: colocar em praça pública esse importante debate, não tanto sobre seus resultados, mas sobre a pesquisa em si!

Encerro essa minha pequena contribuição, lembrando que há uma outra grande questão que nos importa, como participantes da comunidade HumanizaSUS: reconhecer o quanto tudo isso tem tudo a ver com a perspectiva sobre "humanização da saúde" que foi aberta a partir de 2003 pela Política Nacional de Humanização e, em especial, com a criação de uma rede social como a RHS para radicalizar a dimensão pública dessa Política, criando um campo de disputa das narrativas sobre a humanização inteiramente aberto e democrático, como é este espaço.

Quem está autorizado a dizer o que é "humanização da saúde", senão usuários, trabalhadores e gestores que constroem, no dia a dia, o SUS?

Só pra ilustrar como isso nos diz respeito, costumo usar com meus alunos de Saúde Coletiva um texto interessantíssimo sobre a história da Saúde Pública brasileira, que mostra como o "discurso médico-sanitário" brasileiro, em seus primórdios, no início do século passado, participou da chamada "interpretação do país" (aqui: Pouca saúde, muita saúva, os males do Brasil são... Discurso médico-sanitário e interpretação do país). A partir de meados do século XX, esse papel de dizer "quem é o povo brasileiro" foi progressivamente assumido pela sociologia (principalmente a "uspiana", mas não só). Em pleno século XXI, ainda encontramos fortes resistências, tanto no pensamento médico-sanitário quanto no sociológico, em arredar pé desse lugar de fala, que se autoriza a falar no lugar dos "outros", em nome dos "outros". Mas o meu entendimento (e costumo discutir isso com meus alunos) é que foi no campo de experiência coletiva gerado por uma política pública tão inclusiva e tão inspirada na solidariedade social como SUS que se constituiu a possibilidade de um outro modo de relação com o "outro", que não nos autoriza mais a falar em seu nome, mas em criar situações mais e mais propícias para que esse "outro", todos os "outros" tomem a palavra. É claro que isso não ocorre sempre e tantos espaços do SUS continuam a operar sob a marca da violência que nega o "outro" (daí a emergência do desafio da "humanização"!). Mas não tenho dúvida de que o campo aberto por uma política pública para todos e para qualquer um criou um campo de tensão que nos tornou muito mais sensíveis e propensos a se incomodar com certas práticas políticas e certos modos de se pesquisar, entre outras questões, que podem fazer de nós melhores cidadãos para um mundo menos violento...

Abração!

deboraligieri is offline

Ricardo querido, esse seu comentário preci(o)so me lembrou do incômodo que sinto quando ouço ser necessário dar voz aos usuários do SUS na construção da saúde pública e do cuidado, e consequentemente, na produção de subjetividade. Os usuários já tem voz, o que falta é essa voz ser escutada e ter espaço para se propagar. E na RHS encontramos este espaço e esta escuta. Durante esta semana acompanhei por alguns minutos um dos debates da 1ª Conferência Nacional Livre de Comunicação em Saúde promovida pelo Conselho Nacional de Saúde, em que uma das debatedoras, tocando nessa questão do "dar voz", usou a expressão adequada: dar fala, aos usuários e trabalhadores do SUS, e a todos que vivenciam no quotidiano a saúde pública no Brasil. Nessa pesquisa, assim como em tantas outras, como você bem aponta, faltou dar fala a (e não falar por) quem vive nas periferias de São Paulo!

deboraligieri is offline

"Como resultado geral, pode-se encontrar uma população que tendencialmente acredita na política, mas não crê em partidos; reconhece a importância da coletividade, mas almeja crescer individualmente; busca transformações, mas é pouco afeita a rupturas; anseia por novas idéias, mas é também pragmática." Só as periferias se encaixam nesse perfil? Esse não é o retrato da sociedade paulistana como um todo?

cleusapavan is offline

Queridos humanautas que aqui se manifestaram,

 

Nada como compartilhar!!!

 

Quando postei a pesquisa devo ter deixado mais ou menos claro o quanto ela me impactou. Há muito me ocupo da reflexão sobre a consolidação dos valores neo-liberais no imaginário social contemporâneo e nas formas de resistência a isso.

 

Os dados e os arranjos dados a eles me pareceram interessantes menos em relação à periferia e mais amplamente.  Sabia do interesse partidário – ajudar o PT a compreender porque perdera o voto da periferia de São Paulo -, mas havia um inusitado na iniciativa pois, até então,  não tinha  aparecido qualquer estudo nesta direção.

 

De fato venho acompanhando as repercussões e os usos que “direita” e “esquerda” vêm fazendo dela.

 

Para além das considerações  críticas extremamente ricas do Ricardo – reitero a importância do link que ele mandou  do artigo da Rosana Machado, que eu não conhecia -, os usos que têm sido feitos são cruéis. No dia seguinte à publicação, pela FPA, os jornalões foram unânimes em manchetes do gênero “colapso do discurso do PT”.  Até o Delfim Neto  surfou na onda.

 

Quanto aos usos, não há o que criticar, cada um interpreta segundo suas convicções políticas e é isso mesmo, apenas com a ressalva de que os meios de comunicação são tomados por forças dominantes e suas interpretações dominam.

 

O mais sério então, e nisso concordo plenamente com o Ricardo, são  as práticas de pesquisa em voga e, pelo menos, o debate que surge ajuda-nos a colocar em análise nossos modos de produzir conhecimento.

 

Fico pensando nas pesquisas qualitativas de 4a ou 5a geração que têm sido experimentadas por aí, Edu Passos que o diga !!

 

Seguimos nos acompanhando e socializando análises sobre os efeitos desta pesquisa e de sua divulgação??

 

Bjs Cleusa

 

 

 

Últimos posts promovidos


Raphael Henrique Travia is offline
5votos

"Nós" da RedeHumanizaSUS fazendo história na 1ª Conferência Nacional Livre de Comunicação em Saúde

No dia 19.04.2016 fiz logo cedo o credenciamento da 1ª Conferência Nacional Livre de Comunicação em Saúde para poder escolher as mesas das quais iria participar.

Últimos posts comentados


Raphael Henrique Travia is offline
5votos

1ª Conferência Nacional Livre de Comunicação em Saúde: Direito á Informação, garantia de direito á saúde

Olá Humanautas,

Começo esta postagem voltando no tempo e no CiberespaSUS, mais especificamente quando fui apresentado pela Sabrina como Blogueiro na RHS e a Jornalista Mariella comentou que achava legal o quanto as pessoas se apropriam da RedeHumanizaSUS. É deste lugar que eu escrevo e não da cadeira acadêmica ocupada por alguém que domine as técnicas de comunicação fazendo disso sua profissão.