Estágio Curricular na Estratégia de Saúde da Família: Pensando na família como unidade do cuidado


16votos

Estágio Curricular na Estratégia de Saúde da Família: Pensando na família como unidade do cuidado

Anônimo is offline

Último ano de curso, último estágio e o tão distante sonho de ser enfermeira se aproxima... Está mais perto do que nunca!

 

Eis que surge a Estratégia de Saúde da Família como cenário de prática, aprendizado e crescimento.

 

O calendário de vacinação já estava na cabeça, o roteiro da consulta de CD e pré-natal cuidadosamente anotado no pequeno caderninho de bolso, para ser consultado quando a dúvida ou a insegurança insistisse em aparecer. O exame físico da criança, da gestante e da puérpera já estava sistematicamente organizado na cabeça. As perguntas que antecedem a citologia oncótica já estavam na “ponta da língua”. As medicações preconizadas pelo HIPERDIA e PNCT tinham sido revistas no dia anterior, numa revisãozinha rápida antes de iniciar o estágio. Um “modelo” de evolução da visita domiciliaria ao idoso ou ao portador de transtorno mental já estava anotado no caderninho de bolso, com letras miúdas que quase não davam para ver.

 

PRONTO... Não faltava mais nada! Estava pronta!

 

Enganam-se quem insiste em pensar assim... Em pensar que só isso basta!

 

Faltava-me algo, algo que nenhuma sala de aula foi capaz de ensinar. Faltava-me sair dos muros da universidade e adentrar no mais profundo e rico espaço de aprendizado e de crescimento pessoal e acadêmico: A Família!

 

A teoria aprendida em sala de aula, os textos lidos e discutidos foram importantíssimos para fundamentar e embasar a prática. Mas, ampliar o olhar sobre os indivíduos, suas famílias e seus contextos de vida foi, sem dúvida, o maior aprendizado que o estágio na USF Panatis, pode me trazer.

 

Como foi gostoso “quebrar” com a visão cristalizada decorrentes da formação de caráter eminentemente biológico que ainda persiste na maioria das profissões da saúde, e construir uma abordagem que tenha a família como foco, sujeito e objeto do cuidado em saúde. Como foi prazeroso identificar-me com as famílias, identificar como elas existem, quem são, como e por quem estão compostas, como funcionam, que papéis desempenham, quais são as forças/potencialidades e fragilidades do grupo familiar.

 

De que adiantava saber o roteiro da consulta de pré-natal, se eu não consigo ver as implicações daquela gestação na familiar e na vida daquela mulher? Se não reconheço os seus sentimentos e subjetividades?

 

De adiantava dizer a mãe para oferecer alimentos rico em fibras, sopinhas de verdura e papinhas de frutas, se ao chegar em casa o que ela têm é uma panela com um caldo de feijão “ralo” e um “pedaço de osso”, conseguido na feira-livre do bairro, pelo filho mais velho, que de velho não têm nada...apenas oito anos?

 

De que adiantava ter em mãos um “modelo” de evolução do idoso acamado ou do paciente com transtorno mental, se eu não consigo vê-los inseridos no contexto familiar, se eu não consigo ver que é o jovem esquizofrênico quem cuida da mãe acamada?

 

Diga-me... De que adianta?

 

É preciso que, ainda enquanto acadêmicos, possamos refletir sobre a família como unidade do cuidado em saúde, repensando os subsídios para o ensino/prática/formação a nível de graduação.

 

Que possamos, enquanto acadêmicos, co-construir o cuidado às famílias, reconhecendo-as, respeitando sua autonomia, favorecendo a resolução dos seus problemas e co-responsabilizando por eles.

 

Maria Concebida da Cunha Garcia

 

Acadêmica do 9° período em Enfermagem

 

(Universidade Federal do Rio Grande do Norte)

 

Enfermeiranda da USF Panatis

 

P.S: Hoje, após concluir o estágio curricular na ESF, e estando prestes a receber o tão esperado diploma de graduação em enfermagem, só me resta agradecer a “Família USF Panatis” (Natal – RN) – usuários, famílias e todos os profissionais – por me permitirem momentos maravilhosos de aprendizado verdadeiramente significativos! Obrigada, Família Panatis!

 

 6 COMENTÁRIOS

Shirley Monteiro is offline

 Concy e Jacqueline,

   Acho que conheci a Concy no aniversário de Jacqueline no Panatís, com seus contos na cadeira da memória tão novinha de decobertas recentes.

  É muito bom que profissionais do SUS em formação universitária possam encontrar profissionais orientadores de campo, como Jacqueline.

    Muitas sementes são assim semeadas em terra fértil com certeza.

    Sucesso para voce Concy, nos novos e próximos caminhos do SUS !!!

    Um Abraço,

    Shirley Monteiro.

 

Maria Concebida_Concy is offline

 

 As palavras da Prof. Hylarina me fizeram recordar as constantes discussões que surgiram no centro acadêmico na luta pela reformulação do currículo do nosso curso, algumas resistências, muita luta, a vontade de fazer diferente e o desejo de construir um currículo que realmente atendesse às necessidades sociais da saúde, com ênfase no SUS, nos impulsionaram para o caminho que percorremos hoje. Lembro-me também... Do “movimento” que isso causou na coordenação, durante o período de matrículas. Alguns questionavam: “Mas pra que duas disciplinas de Saúde e Cidadania, SACI I e SACI II? Ave Maria, ir toda quinta-feira para a comunidade...ninguém merece!” E eu? Eu e alguns colegas lamentavamos por não poder mais aderir às disciplinas do novo currículo.
Entre pros e contras, lamentações e alegrias...sem duvidas, surgem as indagações :”Se o caminho escolhido foi o certo?” O futuro, ou talvez, já o presente... está respondendo! Sim...o curso de enfermagem da UFRN está no caminho certo em busca de uma formação que seja capaz de atender as necessidades sociais de saúde, e mais que isso, que esse atendimento seja assegurado pela integralidade da atenção e pela qualidade e humanização.
E as parcerias, sem dúvida, são fundamentais!
O terreno do Panatis é fértil e os “jardineiros” que cuidam dele são pra lá de competentes. Preparam cuidadosamente a “terra”, “lançam as sementes”, e “regam” para que elas cresçam e semeie bons frutos... Neste ou em outros terrenos mais distantes. O exemplo disso, são as lembranças de Raul (residente de cardiologia, lembrado pro Jacque) e as palavras da minha amiga e colega de turma Sissy, algumas das “semestes” germinada no Panatis e que hoje, semeia boas práticas de humanização nos terrenos da residência em enfermagem ou do estágio na rede hospitalar.
Sim Jacque... Talvez sejamos “sementes lançadas ao vento que sopra em direção a terrenos férteis”. Mas mesmo distantes, não esqueceremos daqueles que nos ajudaram a “germinar”, a “florescer”... E que mesmo distantes e após o termino do estágio, continuam cuidando para que as “folhas” não murchem e a “planta” não morra! E sabe o que é mais prazeroso em tudo isso? Os “jardineiros” não são pagos para isso...eles fazem tudo apenas por amor e por acreditarem que são as sementes de hoje, que darão os frutos amanhã! Obrigada a você, e a todos da USF Panatis por serem “nossos jardineiros” e por cuidarem tão bem da gente!
Aaaah Prof. Ricardo...que honra, vê-lo por aqui! Acho que o segredo do sucesso desta rede é isso...é ver o diálogo de “sotaques virtuais” fluindo entre gestores, profissionais dos serviços de saúde, os docentes das universidades, preceptores de estágios, acadêmicos e pacientes, dos diversos cantos desse nosso Brasil!
Que possamos juntos permanecer e crescer na luta em defesa do SUS!
 
Enfim...a todos vocês, meu sincero OBRIGADA pelas palavras e pelo incentivo!
 
Abraço carinhoso,
Maria Concebida!
Ricardo Teixeira is offline

É emocionante ver esta Rede estendendo/ampliando os campos de diálogo "curriculares" e "extra-curriculares".

Esse povo potiguar parece ser mesmo uma inesgotável usina de inventividade e experimentações...

Um grande abraço, cheio de admiração,

Ricardo

Últimos posts promovidos


gustavonunesoliveira is offline
12votos

Marcus Matraga e as nossas lutas! Luto e Homenagem!

Hoje soube logo no começo da tarde, através de nota do Movimento Nacional de Luta Antimanicomial veiculada pelo Facebook da tragédia ocorrida no município de Jaguaripe. O senhor barbudo que andava se metendo em conflitos entre Fazendeiros e Indígenas foi sequestrado e assassinado esta noite de 4/02/2016. O nome dele de nascença é Marcus Vinicius de Oliveira Silva, mas nós o conhecemos com o nome de Marcus Matraga, do movimento de Luta Anti Manicomial.

Últimos posts comentados


miguel angelo maia is offline
2votos

MARCUS MATRAGA, PORQUE VOCÊ NÃO É FANTASIA...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sei que é Carnaval e é momento que o riso e o querer rir corre solto. Mas este homem não estava e não queria ser mártir, não andava com índios e caipiras de fantasia, mas reais, como nossa carne que sangra e dói.