Eu, você e os ciganos

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Eu, você e os ciganos

Déborah Proença is offline

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“A sua fisionomia me remete aos ciganos do sul da França...”

Susto. Foi o que senti e não consegui esconder. Com essa frase, pequena, minha entrevistada da semana deu o maior argumento de uma reportagem, no mínimo, interessante. Afinal, não alardeio minha ascendência francesa, muito menos a alguém que nunca vi.

Magia? Não, ciência. Quase um Sherlock deduzindo o óbvio. Somos todos ciganos! Pelo menos em teoria, pois na prática é difícil (re)conhecer a própria origem contestada pela História. Eu nunca soube que descendia de uma etnia cigana; e nunca saberei. Meu pai foi taxativo ao afirmar que minha avó, a francesa, não era cigana. Daí, a história virou lenda.

Cigano não é aquele que rouba, engana e dissimula. Cigano é como você – e eu, lógico –, um sujeito de direitos e deveres, como conta nossa colega Shirley Monteiro, em seu post O Brasil cigano & o SUS. No Brasil, só em 2011 estimava-se mais de um milhão de ciganos escondidos de suas responsabilidades sociais e desamparados pelo Estado.

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Em 2014 pipocam denúncias de maus tratos, injúria e falta de atenção à saúde para comunidades ciganas. E não por falta de serviço, mas por falta de humanidade. A realidade, no entanto, pode ser diferente.

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A Associação Internacional Maylê Sara Kalí (AMSK Brasil), numa rede de cooperação com o Departamento de Apoio à Gestão Participativa, do Ministério da Saúde, vem participando coletivamente na busca pela autonomia e protagonismo dos povos ciganos com o cuidado e carinho de quem luta pela causa.

Dentre seus projetos, a AMKS Brasil vem mapeando iniciativas de atendimento humanizado aos ciganos, que consideram sua diversidade cultural e respeitam suas tradições. Belo Horizonte é uma delas.

Numa visita à periferia da capital mineira, com um olhar menos apurado, seria possível dizer que a realidade não mudou. Ainda há mato próximo às casas e barracas e muitas pessoas sofrem com o desemprego e o preconceito.

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Contudo, poucos reclamam da saúde por lá. Isto porque os gestores e profissionais de saúde provaram que é possível implantar, de fato, um atendimento humanizado nas unidades básicas de saúde. Eles estão dispostos a aprender com o povo Calon, com suas diferenças e singularidades, e mudar se preciso for.

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Mas esta, infelizmente, é uma iniciativa pequena. É preciso compreender que estabelecer vínculos não é tarefa só do agente comunitário de saúde; começa desde a Secretaria de Saúde e termina na comunidade. O respeito e a vontade de cuidar devem ser de ambas as partes, como fazem em BH, com líder comunitário e gestão da UBS unidos em prol de uma saúde para todos.

 6 COMENTÁRIOS

fabiobhalves is offline

Olá Déborah.

Gostei de você trazer as necessidades de se pensar as especificidades da população Cigana.

Vamos fazer um exercício?

Continue nesta abordagem.

Proponha um conjunto de estratégias, utilizando Diretrizes da PNH, que possam avançar neste tema e facilite o Acesso à população Cigana.

O que acha? Pode ser?

Saudações de Fábio BH e até a VITÓRIA!!! (Coordenador da PNH)

Déborah Proença is offline

Olá Fábio!

Grata pela oportunidade de pautar esse tema. Porém, penso que sua proposta está mais para um desafio que um exercício, pois a situação é complexa. Interessante foi você ter colocado a questão do acesso À população cigana – e não DA população cigana. Acredito que este é um gargalo importante.
A cultura cigana tem forte base na tradição oral, narrando histórias de perseguição, preconceito e discriminação. Eles crescem sabendo que não devem confiar em ninguém, a não ser nos seus.
E quem se deixa tratar por alguém em quem não confia?
As famílias de etnia cigana são, essencialmente, patriarcais. A lógica difundida de “conquista” e vínculo dos serviços de saúde por meio das mulheres/ mães não funciona para eles. É preciso conquistar o pai e o avô – principalmente o avô, cuja figura é tratada com consideração e obediência.
As lideranças (masculinas) são muito respeitadas, resultando em disputas internas e sangrentas de poder. Este seria um bom espaço de diálogo. Encontrar um agente comunitário (já respeitado) entre eles, que faça uma ponte de troca com os serviços de saúde. Que ensine sobre sua cultura e como chegar até seu povo, sensibilizando as equipes de saúde para as particularidades da comunidade. É por meio da escuta que teremos acesso a realidade deles.
Uma vez estabelecido um elo mútuo de respeito e aceitação, começa o trabalho de conscientização e educação em saúde, numa articulação entre profissionais e comunidade em defesa dos direitos desse grupo específico de usuários.
Mas, partindo para uma discussão mais assertiva, alcoolismo, tabagismo e acidentes fatais de trânsito são comuns entre os homens. Hipertensão e depressão nas mulheres. Obesidade infantil e alimentação pobre também são questões sensíveis. Isto, sem citar cólera e dengue que surgem com a falta de saneamento básico nos acampamentos que se estabelecem de forma precária.
A clínica ampliada, para esses casos, é fundamental. Projetos Terapêuticos Singulares com as mulheres em estado depressivo, valorizando saberes tradicionais, como a dança, e, quem sabe, estimulando seu contato com outras mulheres por meio do ensino da dança cigana são maneiras de lidar com a doença e enfrentar o preconceito.
Em um âmbito mais político de co-gestão, atuar em articulação com outras secretarias – como a de educação no combate às altas taxas de analfabetismo – também fará a diferença. Seria possível escolher alimentos não somente pelo apelo visual e olfativo, bem como compreender a necessidade do Registro Civil de Nascimento – que a maioria das crianças não possui.
Fácil, né? Seria, mas a saúde, nas comunidades ciganas, não é prioridade. Para eles, saúde significa ausência de doença. O que seria ótimo, caso doença não significasse uma quase invalidez.
E quando se está muito doente o endereço é a emergência, o que quebra toda a lógica da Rede de Atenção à Saúde – e o sustento da família, caso o doente em questão seja o homem da casa, o único que provê.
Lembrando: o tratamento é a jato. Consegue trabalhar? Tá bom já!
Por essas e outras penso que a estratégia começa lá atrás, na confiança. Confiança é tudo...

Eva Patricia Alvares Lopes is offline

Muito legal essa sua abordagem de se colocar no lugar do outro. Parabéns, Déborah!

Déborah Proença is offline

Obrigada Eva Patrícia, mas estou longe de compreender a situação dos povos ciganos. Espero, de verdade, que a situação mude e ninguém mais precise entender o que é incompreensível...

Cláudia Matthes is offline

seja bem vinda a Rede HumanizaSUS!

Seu post encontra-se na fila de votação quando receber dez votos estará disponível para qualquer pessoa da rede. Quando receber 10 votos você poderá então votar nos posts publicizados por aqui.

Um grande abraço

Cláudia Peju

Coletivo de Editores/Cuidadores da RHS

Déborah Proença is offline

Obrigada, Cláudia, pela acolhida! Espero poder aprender com a Rede e, quem sabe, contribuir. Abraços!

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