DESINSTITUCIONALIZAÇÃO - Palavra grande! QUAL O SENTIDO QUE É PRODUZIDO? SEM MEIAS-PALAVRAS...

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Cansam, as meias-palavras...  Acompanhei a implantação de Centros de Atenção Psicossociais em duas cidades do RS. Em Santa Maria/RS, ainda na graduação de Enfermagem, em 2001 (participei de algumas atividades no Centro Social Urbano e acompanhei as primeiras instalações do CAPS II na rua Borges de Medeiros...). Minha pesquisa de oitavo semestre, ainda que focal sobre pessoas portadoras de Transtorno Afetivo Bipolar abordou o atendimento psiquiátrico hospitalar e a implantação do CAPS. E, depois, trabalhei como enfermeira, tendo acompanhado a implantação do CAPS I, em São sepé/RS.

 

Atuando como Enfermeira na Emergência Psiquiátrica do Hospital Universitário de Santa Maria, sob a supervisão da Enfª Dolores, fiquei sabendo que fui a primeira a escolher aquele local para desenvolver pesquisas de TCC (não pelo mérito de ser a primeira, o que me preocupa é se “fui a última”?). Comecei a participar da Associação de Familiares, Amigos e Bipolares de Santa Maria/RS, a AFAB, que me possibilitou conhecer mais sobre TAB.

 

A idéia de desinstitucionalizar, fechar gradativamente os hospitais psiquiátricos, destinar leitos em hospitais gerais, implantar os CAPS, isso tudo parecia “uma luz no fim do túnel”. Mentaleira, defensora da Reforma Psiquiátrica, contagiada pela possibilidade de ver tratamentos biopsicossociais que reintegrassem pessoas portadoras de transtornos mentais à sociedade, era o “sonho dourado” de qualquer estudante?

 

Compreender que controle não se faz apenas com a medicalização da loucura, e que há aspectos subjetivos, afetivos que mobilizam as pessoas a permanecer mais estáveis, sobretudo fazê-los iguais na diferença (na qual todos somos, diferentes, e não há o que se fazer sobre isso). Imaginava que um dia os preconceitos seriam vencidos, quando os “demais” (lê-se, aqueles que se consideram “não loucos”), enxergassem a todos como pessoa de direitos, cidadãos, sem rótulos, sem risadinhas e comentários (“sabia que ele/a já foi internado?”... “louco de carteirinha”...). Na verdade, que na sociedade “palcos” não fossem criados, mas que todos possam não somente desfrutar dos mesmos espaços, mas, sobretudo, obter credibilidade. E o rumo dos CAPS hoje em dia, de uma forma geral, não saberia dizer se preenchem minhas expectativas.

 

 Temos muito que avançar. Desinstitucionalizar o quê? Um termo que parece ter perdido a força, e que mais se adequava às instituições hospitalares, faz-me debruçar sobre os “joelhos dos meus sonhos” e ver que outras instituições, por exemplo, os próprios CAPS, UBS, ESF são capazes de exercer forças institucionalizantes apontando quem é louco. Compor, produzir comum, transversalizar... são tantos os desafios! Mas onde se pensa que os “loucos” são “os outros” e que há um “eu imune”, que observa e está fora do grupo, não há comum que se faça. Um ato de exibir, mostrar a loucura, como algo que se tenha de “aceitar” e não que “possa fazer parte de qualquer um, ainda que em um dado momento da vida”, para mim é uma roda furada.

 

Infantilizar a loucura, entreter a loucura, dar espaço à expressão rotulada, podem ser estratégias desviantes da Reforma Psiquiátrica que queremos. E que acolhimento é este? Equipes de Saúde Mental decidem suas agendas, com argumentos de “há que se ter organização, limites, certo”? Mas também digo que “há que se ter compromisso, corresponsabilidade para com as necessidades das pessoas”. Muito ouvi dizer, nesses últimos anos, “por ai” (não falando de algum CAPS em específico), “fulano não quer o tratamento”, e pessoas serem descartadas de seu tratamento, dá-se alta, ok? Ou, “sicrano não quer a medicação”, estando em crise psicótica! (Ser deixado à mercê da sorte, e a família que se vire!? Onde está o preparo dos trabalhadores de saúde? No sentido de produzir vínculos, relações de confiança?) E manejo há que se ter nesta hora, pois isso também é acolher, acolhimento das necessidades quando não se pode decidir sobre si mesmo, ou se está colocando em risco outras pessoas. Excesso de medicação, “zumbis do dia, que se apagam à noite”, quando “não passam dessa para melhor” (?) sob o argumento de que “reações de sensibilidade às drogas acontecem”, ou que “aspirou o alimento porque estava sedado demais”, ou porque “não foi atendido adequadamente” porque era “familiar de portadores de transtorno mental” e só podia ser “nervoso” (lê-se, novamente, “louco”) também, ou porque “é histriônico e está só chamando a atenção”, ou porque a “pressão/glicose está alta devido estar nervoso” (220/140mmhg, sempre 300mg/dl)... ou “luto não é para psicoterapia”... são tantos os ditos que já ouvi, e perguntando para mim mesma, o que era mesmo que eu acreditava? Vive-se na doença. Onde fica a cidadania? Onde estão os familiares? Aquela sociedade que não aponta, mas que integra um projeto comum. “Ai, meus moinhos, gigantes” – utopia minha? Ainda que me sentindo quixotesca, misturando tudo, quero “morar em lugar nenhum”, habitar a “ilha-reino” de More (Morus) ou a “Ilha deserta” de Deleuze?

 

As equipes de saúde mental e CAPS parecem adoecer tanto quanto seus ditos “loucos de carteirinha”. Em geral, temos muitas experiências de “profissionais de saúde” adoecendo no trabalho inclusive, mas nesses serviços específicos, especializados, isso é mascarado? A equipe não se entende? E fácil dizer que é depressão, já virou até moda! Entra-se em psicose, diagnóstico: depressão? Não gosta dos colegas de trabalho, ou é estigmatizado na equipe? Motivo do afastamento? Depressão! Todos aceitam, depressão deve significar ser menos louco? Depressão já é socialmente aceito? E aceitar que as pessoas são diferentes, sem tentar medicalizar para tornar-los mais “normais” (o que é?), permitir alguns altos e baixos... não, não se pode ter altos e baixos, deve ser TAB. Lítio e benzodiazepínicos “pode”.

 

Generalizando sim, quero poder questionar se “são tratadas as doenças de base”, se “são levados em conta os desencadeadores”? Afeto pode ser um remédio poderoso, desde que seja algo recíproco, de trocas, porque ninguém aguenta simulações. Nem aqueles que podem se achar normais. Investimento em “produções contínuas de comum” poderá garantir a transversalidade das políticas de saúde, desde que estes “encontros” deixem os rótulos de lado, infiltrados todos, misturando as singularidades, afetando-se sem medo... não é contagioso, informa-se!

 

Qual o futuro dos CAPS em geral? Politizá-los, permitir protagonismos, mas ainda assim me incomoda a forma que estamos tratando a desinstitucionalização. Parece mais uma abordagem recreacionista do que que biopolítica. Ok, isso também é importante, no entanto, existem discussões importantes a ser pautadas e, além disso, transpostas à prática, impactando na vida social dos portadores de transtornos mentais. Uma delas, as aposentadorias precoces; outra, o conhecimento de todos ao que vem a ser a Política de Inclusão (essencialmente, das diferenças!). E, por ai muitas reverberam.

 

No vídeo, que fiz para minhas memórias pessoais, estão pessoas que me afetam, são “paixões que tenho”, com as quais eu, definitivamente, quero compartilhar muitos momentos. Fiquei emocionada, porque trabalhava no CAPS I de São Sepé há 3 anos e meio atrás (entre 2005 e 2006), e devido concurso público, assumi outras políticas de saúde no Ambulatório Central da SMS. A mudança deixou muitas saudades daqueles “nossos dias”. Percebo que são tantos os desafios! E aquilo que nos incomoda tem potência de transformação. Avanços, desafios, só não se pode ficar imóvel achando que tudo que é normal pode ser segregado do que não é. Quero ver rodas e afetação em um futuro próximo. Cantar em rodas, não me refiro à geométrica, mas gosto da possibilidade de lateralizar, horizontalizar, transversalizar! OK. Foi um início... e pequenas vitórias devem ser celebradas!!! Investir e acreditar de novo, de outro jeito? Em construção? E... se equipes são novas, poder-se-á co-produzir um outro olhar? Investimentos intensivos de produção de comum. Ir até o sujeito para conhecê-lo. Não há como conhecer sem aproximar-nos.

 

Docemente, o amigo e médico Roberto (no vídeo - que também trabalha comigo no Ambulatório) apresentou Gessi, Cleni, Lurdes, Eva... (queridas minhas) às pessoas que compartilharam a tarde do dia 01/10/2009... muitos desafios. Um início. Agora, apresento à rede, “outro olhar”, o meu.

 

 Iguais na DIFERENÇA...

Apoiadora Institucional da PNH - São Sepé/RS

Obrigada pelo desabafo!

 

 

Link importantíssimo:

http://www.redehumanizasus.net/node/8188

 

Outros links:

http://www.redehumanizasus.net/node/8205

http://www.redehumanizasus.net/node/8225

 

 

 

Comentários [10]

Uma das músicas Dionísicas do post! (Bem lembrado, Pablo!)

Shine on you crazy diamond (Tradução)

(Pink Floyd)

 

Lembra quando você era novo?
Você brilhou como o sol
Brilhe, diamante louco
Agora há um olhar em seus olhos
Como buracos negros no céu,
Brilhe, diamante louco
Você foi travado no fogo cruzado
da infância e do estrelato
Fundido na brisa de aço.
Venha, mira
Para depois rir
Venha, desconhecido, sua lenda,
seu mártir, e brilhe

Você alcançou o segredo muito rápido,
Você uivou para a lua.
Brilhe, diamante louco
Ameaçado por sombras na noite,
E exposto na luz
Brilhe, diamante louco
Bem, você expôs suas boas vindas
Com precisão aleatória
Montou numa brisa de aço
Vindo em você raiva, você observador das visões,
Venha pintor, em você flautista,
Seu prisioneiro, e brilhe

Ninguém sabe onde você está
Quão perto ou longe
Brilhe, diamante louco
Empilhe mais camadas
E eu vou juntar-me a você lá
Brilhe, diamante louco
E vamos nos regozijar à sombra
No triunfo de ontem
E navegar pela brisa de aço
Venha, garoto criança, seu vencedor e perdedor
Venha, seu buscador de verdade e desilusão
E brilhe

 
(música/"pano-de-fundo" do vídeo!)
 

 

Um a mais...

Oi Lu,
 
Esse seu ultimo post vi agora só. Questões mto pertinentes as que colocas. Q. bom q. estás na rede de São sepé e tens essa critica sobre o processo da RP. Facilmente os CAPS se tornam mini manicomios. Aliás, é o que já se aponta em algumas pesquisas... desinstitucionalizar significa alterar modos de atençao, de gestão... para isso... alterar modos de pensar e sentir... tenho mergulhado mais no ambito da RP voltada aos usuários de Alcool e outras drogas. Tenho percebido que com esse pessoal além das produções em torno da noção de "louco", há também diferentes produções que os ligam a uma noçaõ de delinquencia... O desafio com estes, vejo, inclusive dentro da RP e SUS é imenso e exige mtas rodas e abertura a ver e pensar o que produz essas noçoes e como nossas práticas podem ser de resistencias a elas... 

 

O desafio é, também é auxiliar na produçaõ de práticas e saberes que falem desses temas para além do campo da saúde, que se apropriou deles a anos e que, e que, sem nos darmos conta, reforçam um funcionamento biopolítico que normatiza e que atribui lugares, distribui as forças...
 

Abraços

Douglas

 

 

Nossa UP em roda de SM na rede!!

Colega!

Tua frase diz muito: “desinstitucionalizar significa alterar modos de atenção, de gestão... para isso... alterar modos de pensar e sentir...” traz aqui um sentido importantíssimo, assinala-se isso! Assim como eu já tive minha experiência em CAPS, acredito que tu, como foste coordenador da Rede de Saúde Mental de Sta Maria/RS entendes perfeitamente o que está sendo dito aqui. Fica-se “especialista” demais! Em que mesmo? Igualmente, interessante, são as “noções” que são produzidas (abra-se um parêntese que tua tese deve estar imperdível a este respeito! – chegou ai a versão do abstract?) e são utilizadas como padrões? Ainda, reafirmo o outro sentido da RP o qual se perde, no que se trata de garantir a “autonomia/cidadania” das pessoas portadoras de transtorno mental. Não somente alterar as práticas, mas, nós, enquanto, trabalhadores de saúde temos o desafio de co-gerir debates no que tange às questões sociais! Intersetorialidade! Que não é um problema somente da SM, por isso mesmo bastante pertinente. No entanto, além de excluído socialmente, ser “o louco de carteirinha”... nightmare perfeito? Nós, trabalhadores de saúde não ressocializaremos ou desinstitucionalizaremos! A questão é potencializar os próprios sujeitos à autonomia e protagonismo. Contudo, quando vejo a correria para “assinaturas de APACs”, senão a “verba CAPS” não vem, associo às velhas “listas de presenças obrigatórias das salas de aula”, modos de “controle”... Os CAPS são “instituições” tão “boas”, que a maioria das pessoas “adora estar lá”, e outra vez eu paro e penso, “deveríamos investir mais em lazer de qualidade”, talvez assim pudéssemos “mantê-los lá” apenas para “controle quando necessário, ou periódicos”. Que saúde mental é esta que condiciona indivíduos e, vicia-os em “acompanhamento terapêutico”? A divisão em “intensivos, semi-intensivos e não-intensivos” DÓI em mim – por isso está no título do post: “sem meias-palavras”. Para mim isso se chama “rodas rotuladas”. Que tal participarmos de um grupo que “já no nome diz aqui estão os intensivos”??? Talvez se este grupo fosse intitulado de “intensivistas da liberdade” cairia bem à proposta da desinstitucionalização. Sinto-me agora uma “Bacamarte” nessas minhas “palavras-lâminas” (oi “Ray” – quero me levantar no meio da roda e puxar versos teus!! Talvez provoque arrepios, como os que senti ao te ouvir no Seminário Nacional!). Parece não ter jeito? Não precisamos “inverter a lógica”, senão aniquilá-la! (Lâminas... Ray, agora vejo, talvez seja o suicídio das palavras que não se agüentam mais...* Douglas, aqui é um link com o post do Ray, ok? Não endoideci de todo rsrsrs...) Sem falar que o discurso político de construção social, de modo a diminuir a iniqüidades já foi rotulado também? Sempre apontam partidos políticos que levantam bandeira sobre o assunto, enquanto isso deveria ser de interesse de todos. A discussão política sobre acesso aos bens não é partidária, e enquanto isso for confundido, quem tem mais vai continuar obtendo muuuito mais e quem não tem, vive da assistência social, aposentadorias e assistencialismos. “Quem tem um olho só em terra de cego é rei”, pois aqui tem-se vários com olhos multifocais, lentes de contato coloridas, implantes?

 

Apareça mais vezes, precisamos todos!
Abraços da Lu

 

 

 

Puxa! O tempo passou!!!!

E agora com as RAAS, não existem mais intensivos, semi-intensivos, não intensivos :) mas sim, registros de matriciamento, visitas domiciliares, grupo de familiares, atendimentos terapêuticos em grupos, tantas outras atividades-CAPS que podemos registrar, finalmente! Modificar a atenção e gestão... Temos RAPS, atenção psicossocial na AB, equipes de RD, Unidades de Acolhimento Transitório, Residenciais Terapêuticos, reais avanços e num porvir de nossas utopias militantes...

Não lembrava mais deste post, uma alegria ver que a caminhada desde então, valeu a pena e sigo...

Agora? É nenhum passo atrás, aliás, sempre foi.

 

:)

 

Só o vídeo que foi bloqueado :(

 

 

Desinstitucionalização

Luciane,

Suas palavras são puro Dionísio em chamas... Apolo chega apenas para organizar a festa!

Acho que, no fundo de tudo isso aí (e bem lembrado por Iza), você aponta para algo bastante foucaultiano (e aí vai também minha provocação): afinal, até que ponto o poder já não se tornou bastante flexível de modo a criar novos "espaços" - requisito, aliás, fundamental para a produção de saberes (tecnologias de controle?) ainda mais eficazes? Penso isso imaginando que talvez tenhamos chegado a uma nova forma de panoptismo, mais "legítima" sim (porque legitimada socialmente), porém gravemente silenciada (se for esse o caso) por tantos discursos em circulação, e cuja genealogia deverá e muito a reflexões como a do tipo que você faz...

Abraços!

Pablo D. Fortes

Diga-se que a comparação de início já parece insana, por isso...

... agrada?! Palavras-dionísicas, nossa! Ainda não havia pensado nisso, já a música, tudo a ver mesmo...Dionísio e Apolo, uma bela complementação "nas diferenças". Características apolíneas e dionisíacas aqui, de fato! Nietzsche entendeu que sem essa pactuação, a tragédia não seria um espetáculo possível? Suportável? A música que coloquei ao fundo dá o tom do que possa... dionísica (?), propositalmente, mas foi exatamente o que senti naquele momento, "Pablo"! Vendo meus queridos cantarem “para nós”, “quem mesmo”?

Modulação social? Modulação Universal (como a que Guattari imaginou?)... Das ditas “moldagens” (Foucault) em Deleuze para os campos em “meios abertos”, modulação constante e universal em “malhas do tecido social”!! Panoptismo? Socialmente legitimado ou socialmente ainda imposto pela oferta de “espaços vigiados”? Se são estes os espaços ofertados, por que não se tentar permitir a autonomia (lê-se aqui, cidadania não abstrata) e diminuir-se as iniqüidades sociais... Utopias? Educação, sem que uma Política de Inclusão tenha que ser imposta para que professores e pais entendam que não há diferenças que justifiquem a indiferença, além disso esta é uma tentativa que não havia sido feita antes, já as outras –separava, sendo altamente “especializada”, e não deram conta da inclusão/destaca-se! – enquanto os modos de ensinar/aprender é que estão em meio aos desafios de serem reinventados (!) – salve, salve, a Escola da Ponte? Lazer de qualidade? O que temos? E o que pode ser considerado de qualidade hoje em dia? ... seja cybers ou parques com rampas de skate! Saúde? Centros de saúde? Grupos de Saúde? O que estamos fazendo? Esperamos as doenças, e quando não as identificamos, parece que “nosso trabalho já está feito”? Trabalhamos em Centros de Doenças e por isso, trabalhadores também fiquem doentes – isso sim pode ser “contagioso”? Moradia, o que é isso? Investe-se em “pontes maravilhosas” bem espaçosa para todos! Do que reclamar? Já chega as “chuvas” que soterram e daí a prefeitura tem que se explicar dizendo “estavam em lotes irregulares”? Trabalho? Mudou-se o nome dos “escravos”: assalariados, camelôs, funcionários públicos... funcionários públicos também? Rsrsrs os que como nós não tem plano de carreira e ouvem que privilegiados somos por conseguir permanecer no trabalho – sem ser demitidos; etc etc etc)... O problema não são os discursos, mas as práticas que continuam sendo as mesmas, de uma opressão velada dos sentidos (Parênteses a todos! Voltemos à questão da saúde mental – “afetos fazem parte da produtividade” e não há “profissionalismo” que dê conta de “deixar os seus problemas em casa”- isso é roda furada), aumenta-se o salário mínimo e também o assédio da sociedade de consumo (shoppings, supermercados enormes – enlatados, condimentos, gorduras veladas, fast food... tudo ao alcance, e achamos que a fábrica fechou? Fabricamos em “série”: “doenças”, “doenças do consumismo”, “doenças mentais também: ansiedade, compulsão, vazios existenciais, desvinculações... "Taylors do futuro?” (Isso tudo dito em tarde do dia da crianças mais parece halloween?)
E aqui sento e leio Edu Passos e continuo de frente para o post, "nos joelhos, nas dobras do meu sonho dionísico -apolínico": "Cabe, portanto, interrogar de que cidadania e de que autonomia está se falando quando tomamos tais conceitos como metas para o processo de desinstitucionalização. [...] trata-se de uma luta pela emancipação pessoal, social e cultural. Nenhum desses aspectos, no entanto, está garantido de saída, essas lutas sendo efeito de um processo de produção de novas formas de viver, de afetar e ser afetado pelo outro em que a loucura deixa de ser um fenômeno totalmente exterior a nós."
Então finalizo com tua superpertinente questão:“Afinal, até que ponto o poder já não se tornou bastante flexível de modo a criar novos "espaços" - requisito, aliás, fundamental para a produção de saberes (tecnologias de controle?) ainda mais eficazes?” ... As tecnologias de controle... quem as valida? Se o poder está mais flexível, em um paralelo possível, as resistências também estariam?
 
Prazer em conhecê-lo pelas tuas palavras, super bem-vindo!!
Abraços!
Luciane
 
(Bacamarte me sentindo, para que soltar a todos? Estarão mais presos lá fora do que aqui dentro? Aqui dentro estamos salvos, dormentes, “sedados quase todos chapados, viciados em haloperidol e seduzidos por clorpromazinas”, o suicídio finalmente ao alcance? “Modulações imateriais”, uma nova tecnologia de controle!!! À mercê do controle em meio aberto... as clausuras de outrora nos são sistemas “deliciosos e agradáveis” – deleuzeanismos em pleno feriado-nacional!?)
 
"As queer as a clockwork orange"!
(Tão bizarro quanto uma "laranja mecânica")

 

desinstitucionalização

Luciane,

Teu desabafo nos faz pensar na passagem da sociedade disciplinar para a de controle - conforme descrita por Foucault e Deleuze. A nova forma de poder  também produz buracos onde resistimos...Tua indignação é um bom combustível, se bem usado...

beijo da Iza

 

Sim, Iza, deveras... "prisioneiros em campo aberto"?

... Não mais uma cidadania abstrata, mas sim a qual possibilite as experiências das singularidades!! Não se trata mais em ressocialização de indivíduos, mas em potencializá-los através de políticas públicas, garantindo o acesso à herança dos bens materiais, biológicos, naturais e psicossociais, de forma emancipatória, que promova a autonomia desses sujeitos. Investir em redes sociais de saúde? Principalmente no que se refere à geração de renda! No entanto, o que se salta aos olhos é a pouca discussão sobre isso, o tempo passa e só mudamos os nomes das "instituições". Vai-se desviando, entretendo, até quando? Em Império, Negri & Hardt investigam o " biopoder", sociedades de controle! Vamos do biopoder à biopolítica... o anti-poder! De produção de subjetividades... das singularidades para the common (o comum)... Na multiplicidade de subjetividades, a multidão! Sim, os buracos onde resistimos, Iza!  Apostando no alargamento da subjetividade emancipatória! Recolocar o social de volta no jogo!
Bela colocação, "o plus do post"?
Beijos,
Luciane

 

Sem meias-palavras...

HU!

Haveremos de continuar a (des) construir espaços como este, nos encontrar, muitas vezes, conversar e compor com as diferenças...Autonomia, corresponsabilidade, protagonismo.

Produzir redes de vida, para a vida, na potência da singularidade radical de cada pessoa. É um desafio a longo prazo, talvez para a vida toda.

Quem conhece tua caminhada, entende o quanto este encontro foi importante para ti, mexeu com "quase" todos nós, afinal somos diferentes.

Este tema vem te acompanhando de muitos anos, e eu que te acompanho desde sempre, já ouvia tu falar em compor com as diferenças.

Entendo que de certa forma somos todos afetados, TÁLOKOTCHÊ?!!

A diferenciação está no rótulo? (...muito prazer: Esquisofrênico José da Silva..., muito prazer: Diabética Maria dos Santos...ou Olá, HIV fulo de tal....). Está para nós essa (des)construção, vamos colaborar, infiltrar PNH, co-gerir.

Adriana

Tem coisa que dói e a dor é sempre algo "latente"?

Lutar contra o preconceito? Já ouvi falar que não se luta contra ele, senão "podemos o estar reforçando"! Mas como trazer isso à discussão se a maioria "finge" que não tem? Na hora "h", acho que a maioria deles "está é morrendo de medo de ser visto como "louco" rsrsrs. Enquanto isso muitos "loucos de carteirinha" vivem a vida "normalmente", porque "o normal deles é ser diferente"! O que tu sabes que me "fere" e dai viro "fera" porque ninguém é de "ferro" (quanto "f"!) é ver que "os rotulados loucos não tem problema algum de aceitar a todos como legítimos outros". Então eu me pergunto: quem são os loucos da vez? Ser diferente - todos somos! Vemos e vivemos o mundo com nossas "lentes" singulares, OK. O que me refiro é o quanto todos podemos aprender com os "loucos de carteinha" (expressão que já deveria ter saido da moda, mas a ouvi na semana passada?)... Vamos continuar trocando o nome dos lugares sem mudar as práticas? O palavrão da "desinstitucionalização" pode ser um "assombro" que ninguém quer enfrentar? Políticas de Saúde servem para o quê? Redes, um desafio! Mas que passa por estas questões bem particulares quando se trata do "medo da loucura". Talokotchê?

Luciane