Crônicas da Clínica (UNIVAP) - Valsinha

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Crônicas da Clínica (UNIVAP) - Valsinha

Paulo Barja is offline

Beatriz é sorridente. Quase sempre! Possui sólida formação cultural e parece apaixonada por música. Há alguns anos enfrenta um problema raro, usa cadeira de rodas e, no início do trabalho na clínica, ouvimos dizer que "tem um sério problema de memória".

O trabalho com Música & Saúde sempre nos surpreende. E é bom que aconteça! Às vezes até planejamos um roteiro de atividades (um "repertório do dia", seria mais apropriado dizer), mas, em 2 ou 3 minutos, tudo toma outro rumo. E, neste dia, mais uma vez foi assim. Bom que aconteça...

Cheguei cansado à clínica (noite muito mal dormida), pensando: "Hoje não vou conseguir tocar..." - escolhi e separei então alguns cds para ouvir e interagir com os integrantes da "nossa orquestra". Mas, meio por hábito, liguei o teclado e... comecei a tocar uma valsa que havia composto anos atrás. Terminando, comentei algo sobre aquilo ser uma valsa, uma valsinha...

- "Valsinha"... do Chico Buarque! A "Valsinha"... 

- Bia, você conhece a Valsinha do Chico?

Então veio aquele sorriso. De iluminar o dia e umidecer os olhos (como agora, enquanto escrevo). 

Comecei a tocar a Valsinha, do Chico. 

Beatriz começou a cantar. Cantar, sim - com letra e tudo.

Eu não me lembrava da letra toda... Beatriz cantava... me ajudava a lembrar...! Cantamos juntos a música toda, os demais iam chegando e ajudando a marcar o ritmo. Cantamos de novo! Eu ainda não lembrava direito de um trecho... 

A coordenadora da clínica parou na porta.

- Vem cantar com a gente! Estou com dificuldade, não sei a letra toda, você conhece?

A coordenadora sabia direitinho a primeira estrofe... Todos juntos, nós sabíamos tudo! Juntos, recompusemos a música.

Sempre amei a Valsinha do Chico. Mas nunca foi tão linda a Valsinha do Chico...! Naquela segunda-feira, cedinho, na clínica... 

"O mundo compreendeu... e o dia amanheceu em paz"

P.R.Barja

Tocando...     

Parceria...!

 7 COMENTÁRIOS

Emilia Alves de Sousa is offline

Que emocionante Paulo! História de vida, de afeto, de subjetividades! Momentos como estes são produtores de sujeitos e de saúde. E juntos seremos mais!

E a vida se restabeleceu... e a noite adormeceu

e um novo dia amanheceu.

Este post é um forte candidato para rodar no  carrossel. Põe uma imagem, ok!

Um forte abraço!

Emília

Paulo Barja is offline

Oi Emília, 

obrigado! Afeto compartilhado se multiplica, e nosso ânimo se renova! 

Vou procurar uma imagem aqui,

abraços! 

       Paulo 

Maria Luiza Carrilho Sardenberg is offline

Adoro as tuas postagens, Paulo!

São um bálsamo para as mazelas do cotidiano, como a valsinha do Chico. Literalmente, como a letra que fala numa deriva do homem que chega em casa, desterritorializando tudo à sua volta.

Iza

Paulo Barja is offline

Iza, 

 entrar aqui, ler, ver, sentir gente como você e tantos fazendo coisas boas... isso é bálsamo e nos fortalece, com doçura...

 abraços! 

       Paulo 

jacqueline abrantes gadelha is offline

Paulo,

Tua descrição de "recomposição" me fez lembrar uma passagem de um dos livros da série Histórias de Canções: Chico Buarque (autoria de Wagner Homem).

Vou resumir um pouco:

Wagner conta que Chico recebeu a música de Vinícius  na Argentina onde fazia show com Toquinho (em 1971) e tempos depois, enviou a letra pelo correio. Vinícius responde sugerindo alterações no nome para “valsa hippie” e em alguns dos versos. Entre elas, propõe: “ Olhou-a de um modo mais quente do que comumente costumava olhar...E não falou mal da poesia como era mania sua de falar”

Chico responde:
“Recebi as suas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra com hiato e tudo gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo[...]Valsa hippie é um título forte. É bonito, mas parece forçação de barra, com tudo o que há de hippie à venda por aí [...] Eu prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. A solução é mais bonita e completa, mas eu acho que ela diminui o efeito do que segue. Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippie. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio [...] Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou xingou mesmo) a vida tanto e convidou-a pra rodar. Convidou-a para rodar eu gosto muito, poeta, deixa ficar."

Também amo a valsinha de Chico e agora ainda mais.

A sua história de “recomposição” empresta-lhe o canto e a luz do sorriso de Bia; somada à ideia  de que “juntos sabemos tudo” renova  o convite para rodar...  fazer o dia amanhecer em paz!

Um abraço forte,

Jacque

Paulo Barja is offline

... Jacque, obrigado pela presença... e pela bela história compartilhada...! Compreendo bem o Chico... acho que a Valsinha tinha que ser mesmo como é... inda mais agora... a força da simplicidade, é daí que vem a luz, né... 

Por sinal, acabei de me lembrar de um poema antigo... acho que vou postar... 

Abraço...! 

                   Paulo 

Paulo Barja is offline

... o filho da nossa cantora querida esteve hoje na Clínica da universidade. Veio de Campinas...! Foi muito bom conhece-lo, e sentimos que ele ficou contente também. Rede sendo ampliada...! 

Saudações a todos!

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