Humanizar o SUS é humanizar o Brasil

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O texto abaixo foi escrito pelo coordenador da Política Nacional de Humanização, Dário Pasche, em resposta ao artigo "Humanizar o SUS ou humanizar o Brasil?", do médico e professor da UnB Dioclécio Campos Jr, publicado pelo jornal Correio Braziliense no dia 4 de setembro de 2008.

 

Humanizar o SUS é humanizar o Brasil

Dário Frederico Pasche
Enfermeiro, Doutor em Saúde Coletiva, coordenador da Política Nacional de Humanização da Atenção e da Gestão do SUS (HumanizaSUS)
dario.pasche@saude.gov.br

 

Em artigo publicado por este Correio Braziliense na última quinta-feira (“Humanizar o SUS ou humanizar o Brasil?”) o médico e professor da UnB Dioclécio Campos Jr. apresenta uma série de críticas ao atual estágio do Sistema Único de Saúde, e em especial à Política Nacional de Humanização da Atenção e da Gestão do SUS (HumanizaSUS), às quais não podemos deixar de contra-argumentar.

Considerando a complexidade do tema, nos parece uma exigência política resgatar algumas reflexões elementares das quais o texto não se nutriu. Além disto, o profundo desconhecimento do que seja a Política Nacional de Humanização, uma recente conquista do SUS, aponta para a necessidade de fazer conhecer seus predicados ético-políticos e metodológicos.

Sejamos críticos, mas generosos. Esta tem sido uma recomendação de prudência aos que se dedicam à análise das políticas públicas no campo da proteção social. Críticos porque as realizações são sempre aquém daquilo que se almejava; generosos por reconhecer que se avançou, que se superou ao menos em parte a realidade que desafiava, que se confrontava com os patamares éticos estabelecidos pela sociedade brasileira no que tange àquilo que seja produzir saúde.

Mesmo os críticos mais contundentes têm apontado avanços nos SUS. Poderíamos citar muitos desses avanços, mas um em especial tem sido apontado como marca incontestável da reforma sanitária brasileira: a construção ético-política de que a saúde é um direito inalienável de cada um, esteio sem o qual qualquer luta pela eqüidade e inclusão a serviços e práticas integrais seria uma luta inglória.

Mas isto nos força a constatar que o predicado discursivo, uma vez anunciado, toma de imediato força de realidade? Nem os mais levianos seriam capazes desta afirmação. A dinâmica do jogo das políticas públicas, em uma sociedades de classes, nos remete de imediato à constatação de que a conquista e consolidação de uma política pública como o SUS é uma constante e ininterrupta luta.

A Política Nacional de Humanização da Gestão e da Atenção do SUS, criada em 2003, reconhece os avanços e os desafios do Sistema Único de Saúde. Mas não parte da negatividade, senão o contrário: identifica nas próprias realizações de trabalhadores e gestores do SUS elementos para o enfrentamento e superação de dificuldades que ainda povoam o SUS. Assim, o HumanizaSUS é uma política de re-encantamento do concreto, de valorização da capacidade de criar, de superar, de avançar mesmo considerando um leque de dificuldades e carências.

O HumanizaSUS não é uma política prescritiva. Assim como o SUS, sua enunciação não tem o poder de, imediatamente, mudar realidades. Se assim fosse, bastaria dizer: “humanizemos” e, num passe de mágica, o mundo mudaria. A Política Nacional de Humanização tem, sim, a força de um imperativo ético: aponta para a necessidade de reposicionar a organização dos serviços, as ofertas de cuidado e os processos de trabalho sem desprezar aquilo que, na medicina moderna, tomou-se como secundário ou menor: as formas de relação entre os sujeitos.

As perguntas que nos desafiam estão ligadas ao “como fazer”: Como reposicionar sujeitos na relação do cuidado e da gestão do trabalho em saúde? Como superar relações tão hierarquizadas e autoritárias que quase impedem a comunicação entre as pessoas? Como construir contratos terapêuticos que se apresentem como construção de co-responsabilização pelo cuidado? Todas estas perguntas têm um único foco: as relações de poder que se estabelecem entre gestores, trabalhadores, usuários e sua rede social.

Assim, a Política Nacional de Humanização não é uma oferta piegas e inocente, senão uma aposta radical na capacidade da produção, no âmbito da saúde, de novas relações. Relações propiciadoras de novos marcos ético-políticos para a realização do encontro usuário-trabalhador e trabalhador-gestor, entre tantos outros encontros. Esta é a nossa aposta.

A Política Nacional de Humanização, grosso modo, se apresenta como uma oferta metodológica. Ela é um modo de fazer mudanças na saúde cuja premissa é a inclusão. Considera que as mudanças no processo de produção de saúde são tarefas para os homens e mulheres que estão em relação no cotidiano das práticas. Busca incluir o outro, incorporando a diferença e a perturbação que esta inclusão dos sujeitos produz na gestão e nas formas do cuidado. Incluir para co-produzir novos modos de gerir e novos modos de cuidar. Incluir para produzir mais e melhor saúde.

Temos adotado como diretrizes o acolhimento, a ampliação da clínica, a gestão compartilhada, entre outros. Destas diretrizes, parte uma série de dispositivos que permitem operar a humanização na realidade concreta. Muitos serviços de saúde Brasil afora têm adotado esta política como orientação para reconstruir práticas de gestão e de modos de cuidar. Os efeitos desta opção têm permitido mudanças importantes no trabalho em saúde, recompondo a aliança ética de defesa da vida entre gestores, trabalhadores e usuários.

O SUS é uma política civilizatória, já nos apontava Sérgio Arouca. Conquista do SUS, a Política Nacional de Humanização, reconhecendo a força e a capacidade de criação dos sujeitos e a possibilidade de construir ações e projetos comuns, tem oferecido sua parcela de contribuição na construção coletiva de um país a cada dia mais civilizado.

 

Comentários [16]

Questionando ainda

Prezado Dário,

quando você argumenta - a partir da recomendação que deve-se ser crítico, mas generoso - que a prudência quanto à críticidade deve-se pelo fato de as realizações estarem sempre aquém daquilo que se almejava, por mais favorável que eu seja, me vejo no direito de indagar se a questão também não se mostra relevante ao "quanto" as realizações ficaram aquém daquilo que se almejava?

Porque conquanto inicio minha participação no "controle Social" através de um colegiado gestor, possuo boa experiência e conhecimentos em controle de processos, sendo treinado e pondo em prática várias "ferramentas de qualidade" modernamente empregadas.

Como em seu texto também consta destacada, é patente a complexidade do tema; Não percebo de outra forma! E é por isso, inclusive, que deve-se almejar a excelência já entendento a defasagem entre "teoria e prática" - se me permite estes termos - mas, priorísticamente, são pessoas que estão sofrendo os impactos das políticas de saúde, sejam eles altamente positivos, sejam não tanto.

A repercussão continua!

O artigo do Dário continua repercutindo: esta semana o CEBES (Centro Brasileiro de Estudos de Saúde) publicou o texto em sua página na internet. Pra quem quiser conferir ele está aqui: http://www.cebes.org.br/default.asp?site_Acao=MostraPagina&paginaId=176&mNoti_Acao=mostraNoticia&noticiaId=1062
 

Contra o ressentimento: o coletivo!

 

UFA!

matou a pau, companheiro! lavei a alma e enxuguei o jumentinho... obrigada pela capacidade de dar voz a um coletivo que ficou engasgado todos esses dias!   

Resposta publicada hoje no Correio Braziliense

Olá pessoal,

a resposta do Dário saiu no Correio Braziliense de hoje, na coluna de opinião.

Pontos para a PNH na mídia

Mariella Oliveira
Jornalista

Nucleo de Difusão da Inteligência Coletiva - PNH
61 3315 3685

Viva!! O DIÁLOGO E A CRÍTICA GENEROSA!!!

SINTO-ME FELIZ AO ME SENTIR PARTE DESTE "BRAVO E GENEROSO" COLETIVO !!! A cada dia vamos aprendendo mais sobre este SUS das práticas de solidariedade, co-responsabilização, autonomia, co-gestão.

Agradeço Dario pelo trabalho de construção do diálogo e da crítica generosa, por seu apoio intensivo aos nossos encontros e debates no cotidiano de práticas de humanização do SUS. Sua presença em Belo Horizonte, em nosso Seminario, foi fundamental para o aprofundamento e qualidade dos debates, grande abraço, Ana Rita  

Pobre colega de profissão....

Caro Dário,

Sem nada programado, utilizamos o texto do MD. Dioclésio e o seu como comparativo em nossa discussão de hoje, no nosso encontro local da UP Minuano do Curso de Pós-graduação em Humanização da Atenção e da Gestão do SUS. Já havia lido os textos, ainda não tinha tido a oportunidade de te enviar um comentário.

Sinto-me como profissional, feliz e honrada por fazer parte da grande Rede de Humanização que a cada dia cresce em nosso país em prol de um SUS que dá muito mais certo do que julgam os ultrapassados da velha-guarda, mesmo com todas as resistências que ainda vamos ter que enfrentar.

Mas tenho que te dizer que consciência social e ciência da importância das palavras e da necessidade de prudência em manifestar convicções prontas e pré-conceitos políticos arraigados desde muito tempo não são pra qualquer ser humano (ainda mais quando esse tem a convicção de ser mais humano que qualquer outro).

Por fim, como a Política de Humanização mesmo nos direciona, te agradeço por "incluir" meu colega de profissão nos verdadeiros conceitos da Humanização do SUS através da tua bela explanação.

Um grande abraço,

Daniela - Médica da ESF - Aluna apoiadora UP Minuano
 

Aposta no encontro!

Como diz a Cláudia : é por isso que me reencantei!

Não como uma apaixonada desvairada a desejar "humanizar o humano", mas por acreditar que é possível acreditar na potência do encontro como gerador de saúde!

Por acreditar na possibilidade do consenso, na horizontalidade das relações, na inclusão do usuário, do gestor e do trabalhador.

Por acreditar que um coletivo faz mais que um bem intencionado sozinho.

Se ao escolher a área da saúde desde minha potência juvenil de contribuir com a sociedade me encantei com justiça do SUS, vaguei por tempos sem me dar o direito de viver esta verdade, pela humanização torno a acreditar que nosso fazer pode produzir saúde e não limita-se a aplacar doenças.

Vale a pena acreditar no SUS, valeu Dário, parabéns pela condução do diálogo, pela sustentação do encontro, com certeza produzirá muita saúde ao debate.

Patrícia S. C. Silva

Blumenau SC
 

111 leituras em menos de 24 horas

somente esse dado, já dá um pano prá manga...arrepia.
 

apoiadora plugada nacionalmente!

querida Cláudia! só prá te dizer que te encontrar sempre plugada neste rede nacional que construímos a partir do curso aqui no sul é um exemplo contundente do quanto estamos humanizando os mais diversos humanos nos cantos afora deste país. É bom D+ enxergar assim concretamente que as conexões que plantamos estão produzindo tantas novas possibilidades. Obrigada por tua energia conectora arrebatadora! bjs
 

vespeiro

 

Moca...o curso de especialização em Humanização se propõe é mexer com vespeiro...risos...ainda estou picando...rs

Beijos no coração de quem segue mais dois passos a frente a cada fala tua: enxuta, pontual e inegualável...(irresistível)!

Sua fã:

Cláudia - Peju

Maravilhoso, companheiro coordenador!

Trocar a alternativa dicotômica e excludente do OU pela síntese conjuntiva e inclusiva do E e do É!

Claro e profundo, sereno e firme, generoso e convocador!

Obrigado, Dário!

Grande abraço,

Ricardo

otima resposta

 

  •   Dário,
  • Ótima resposta, reafirmando os princípios, método e
  • diretrizes da PNH. Ana Heckert

É isso ai Dário

Sua resposta contempla e extrapola as colocações que o Dioclécio fez em seu texto. Estou achando ótimo que esse debate tenha sido aberto. Torço que Dioclécio responda e que tudo isso continue ganhando os jornais e outros espaços. Que a TV não só mostre as filas mas que também mostre os serviços onde novas formas de produzir saúde estão transformando vidas.  A PNH é uma das políticas que afirma a possibilidade do SUS, não só no plano teórico mas tendo o atrevimento de ensaiar a construção da Utopia. O SUS DÁ CERTO! A PNH, outras políticas, os movimentos sociais e a garra e o sangue de trabalhadores e usuários tem mostrado no dia a dia essa possibilidade como fato que vai se instituindo. Parabéns Dário pela coerência e pelo brilho!

HumanizaSONHOS

 

É por isso que a gente se apaixona.

Parabéns pelo texto que contempla, representa e alimenta  o Coletivo PNH.

Do Sul

Cláudia-Peju

Valeu, Dário

 

O texto do Dr Dioclécio parece ter se atido ao que na palavra "huamnização" soa como despropósito. Daí a pergunta perplexa que parece motivar sua crítica: humanizar o humano? No entanto, HumanizaSUS não é uma palavra e sim um conceito, o que exige - de quem legitimamente deseja fazer valer o direito da crítica - o esforço de apreensão do sentido que se recompõe para além do uso comum e corriqueiro da palavra. O texto do coordenador nacional da PNH nos dá a prova desta espessura  de sentido do conceito de huamanização quando estamo no campo semântico do SUS.

Humanizar o SUS é humanizar o Brasil

Dário e Ricardo,

me senti de "alma lavada" com as respostas dadas por vocês ao artigo publicado pelo Correio Brasiliense e colocado na rede.Nós, que militamos no SUS, desde seu nacimento, não  podemos nos calar diante dessa manifestão tão destrutiva!
 

vamos em frente, com a força e garra de sempre!

Vera

 

 

vera