CARTA ABERTA AO CREMERJ

Versão para impressãoSend by emailPDF version

CREMERJ proíbe entrada de doulas, parteiras e obstetrizes em partos hospitalares do rio de janeiro

CARTA ABERTA AO CREMERJ 

Como médica-obstetra, cidadã e ativista do Movimento pela Humanização do Parto e Nascimento no Brasil, venho tornar público o meu repúdio à resolução 266/12 do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (CREMERJ), que veta a presença de doulas, obstetrizes e parteiras em partos hospitalares.

Com essa resolução arbitrária e que não se justifica a partir da série de "considerandos" com que o CREMERJ inicia o seu texto, esse Conselho demonstra uma lamentável falta de conhecimento de todas as evidências científicas correntemente disponíveis pertinentes à importância das obstetrizes e doulas em um modelo de assistência obstétrica humanizado e centrado na mulher. Mais ainda, vai contra as diretrizes do Ministério da Saúde e a Política Nacional de Humanização da Saúde.

A participação das obstetrizes (profissionais formadas em curso superior de Obstetrícia) não somente integra o modelo transdisciplinar de assistência ao parto, mas tem demonstrado resultados SUPERIORES a outros modelos, como é bem demonstrado na revisão sistemática da Biblioteca Cochrane: em um modelo de atenção promovido por obstetrizes, as mulheres têm menor risco de hospitalização antenatal, de analgesia regional e parto instrumental. Têm maior chance de partos sem analgesia, parto vaginal espontâneo, maior sensação de controle durante o nascimento, atendimento por uma obstetriz conhecida e início do aleitamento. Adicionalmente, têm menor risco de experimentar perda fetal antes de 24 semanas e menor duração da hospitalização neonatal. A recomendação dessa revisão sistemática é que deve-se oferercer um modelo de atenção promovido por obstetrizes à maioria das mulheres e AS MULHERES DEVERIAM SER ENCORAJADAS A REIVINDICAR ESSA OPÇÃO.

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/14651858.CD004667.pub2/abstra...

Em relação às doulas, outra revisão sistemática da Biblioteca Cochrane incluindo 21 ensaios clínicos randomizados e mais de 15.000 mulheres avaliando os efeitos do suporte contínuo intraparto evidenciou que mulheres que receberam esse suporte tiveram maior chance de ter parto vaginal espontâneo, menor necessidade de analgesia de parto, menor risco de relatar insatisfação com a experiência de parto, menor duração do trabalho de parto, menor risco de cesariana, parto instrumental, analgesia regional e nascimento de bebês com baixos escores de Apgar no 5o. minuto. A análise de subgrupo evidenciaou que o suporte contínuo intraparto era MAIS EFETIVO quando providenciado por DOULAS!

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/14651858.CD003766.pub3/abstract

Em maio de 2012, eu tive a oportunidade de publicar um comentário para a Biblioteca de Saúde Reprodutiva (RHL) da Organização Mundial da Saúde (OMS) em parceria com a Dra. Leila Katz, avaliando essa revisão sistemática da Cochrane. Em nosso comentário, PUBLICADO NO SITE DA RHL com o aval da OMS, nós concluímos que TODOS OS HOSPITAIS DEVERIAM IMPLEMENTAR PROGRAMAS PARA OFERECER SUPORTE CONTÍNUO INTRAPARTO, integrando doulas nos serviços de maternidade, UMA VEZ QUE OS MELHORES DESFECHOS MATERNOS E NEONATAIS SÃO OBTIDOS QUANDO O SUPORTE CONTÍNUO INTRAPARTO É OFERECIDO POR DOULAS. Essa estratégia é particularmente importante quando os gestores desejam reduzir as altas taxas de cesarianas em seus hospitais ou países.

http://apps.who.int/rhl/pregnancy_childbirth/childbirth/routine_care/cd0...

No país campeão mundial de cesarianas, no qual nos deparamos com a vergonhosa taxa de 52% de cesáreas, que superam 80% no setor privado, situação que se repete no próprio Rio de Janeiro, onde a taxa de cesáreas na maioria dos hospitais privados ultrapassa 90%, o CREMERJ tem se omitido de forma indesculpável e, mais que isso, dá mostras de que pretende alimentar e perpetuar esse modelo perverso que tantos danos e sequelas tem provocado às mulheres brasileiras.

Em vez de combater a epidemia de cesarianas desnecessárias, o CREMERJ fecha os olhos à lamentável INFRAÇÃO ÉTICA das cesáreas SEM INDICAÇÃO MÉDICA, sob pretextos mal definidos por condições não respaldadas pela literatura. Diversos estudos demonstram que as absurdas taxas de cesárea nos hospitais brasileiros não ocorrem por pedido das mulheres, uma vez que a maioria das brasileiras continua demonstrando preferência pelo parto normal. O QUE JUSTIFICA ENTÃO TAXAS DE MAIS DE 90% DE CESÁREAS? Por que, em vez de fiscalizar, indiciar e PUNIR os médicos que ENGANAM suas pacientes e realizam cesarianas desnecessárias, infringindo assim o Artigo 14 do Capítulo III do Código de Ética Médica vigente em nosso país (que veda ao médico a realização de atos médicos desnecessários), o CREMERJ, na contramão das boas práticas baseadas em evidências, quer COIBIR estratégias que comprovadamente reduzem as taxas de intervenções e cesarianas desnecessárias?

Não podemos nos calar diante de tamanha arbitrariedade e tentativa de legislar sobre o corpo feminino, desrespeitando a autonomia e o protagonismo da mulher. O Conselho Federal de Medicina, o Ministério Público e o Ministério da Saúde devem ser notificados dessa tentativa absurda do CREMERJ de transformar o parto em um ato médico e desconsiderar tanto a atuação de outros profissionais no atendimento transdisciplinar ao parto e nascimento como o próprio DIREITO das mulheres de escolher COM QUEM querem ter os seus filhos e quem querem como acompanhantes nessa experiência única e transformadora do nascimento.

Melania Amorim, MD, PhD
Médica-obstetra
CRM - PB 5454
CRM - PE 9627
Professora de Ginecologia e Obstetrícia da UFCG, Professora da Pós-Graduação em Saúde Materno-Infantil do IMIP, Pesquisadora Associada da Biblioteca Cochrane, Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq e Coordenadora do Núcleo de Parteria Urbana (NuPar) da Rede pela Humanização do Nascimento (ReHuNa)

 

Comentários [7]

Incluindo um pouco mais de análise/perturbação...

Sabrina, acho seu movimento pelo direito de escolha do parto, incluindo outros profissionais nesse processo, fantástico! Afirmo bem isso. Virei fã, após acompanhar todo esse movimento. No entanto, conheço muitas mulheres que deixariam de ter filhos, se por exemplo, as cesarianas eletivas deixassem de ser possíveis. Acompanhei muitos pedidos de mães "de primeira, segunda e terceira viagem", no desespero, solicitando uma cesária no SUS e ser "obrigada" ao parto normal, porque é um princípio ser apenas com "indicação". Veja, a discussão pode se estender... E me pergunto, quais os problemas que poderiam ser associados (rejeição, raiva, de saúde mental mesmo) quando não é uma gravidez desejada? E também já vivi situações de mães que ao chegarem ao hospital, não encontram obstetras para atendê-las (alguns ficam de sobreaviso "em casa", não é mesmo?), e terem seus partos feitos por pessoas da equipe de enfermagem que "aprendem na marra"... e o cidadão chegar apenas depois! Não pense que é por desconhecimento, ou por falta de leitura ou mesmo de confirmação in loco, que um parto normal pode ser a melhor via. Eu penso que afirmar o desejo no SUS é difícil, porque sabemos do limite e, dai então, as outras formas naturais, humanizadas, virão a aumentar as alternativas de parto, tranquilizar as futuras mães! No entanto, discordo que o foco da argumentação seja a necessidade da diminuição das cesárias sem indicação, por exemplo. Acredito que respeitar o desejo de qualquer mãe (por desconhecimento, ou pelo seu desejo - sem julgamentos de ser absurdo ou não - de fazer uma cesária!), por menos compreendido que ele possa ser, é necessário. Falamos em fazer redes que sigam, guiem-se pelos caminhos dos usuários, mas quando ele fala, tentamos convencê-lo? Ou para um lado, ou para o outro. "Acho" mesmo que no SUS temos o desafio maior de aceitar o usuário (como qualquer um de nós) na sua diferença, e ainda assim sustentar uma abordagem, ou um atendimento humanizado na medida que ele nos diz sem receios o que necessita e não naquilo que acreditamos - seja por ciência ou não, que é melhor para ele... Nesse caso, "elas".

Achei o vídeo do parto em casa lindo!!!!

Muitas mães podem vir a se sentir melhor com essa alternativa, sem dúvidas!

Bjos,

Luciane

cesárias eletivas

Luciene, td bem?

Acho que seu comentário é muito pertinente e reflexivo. 

Acredito que o direito de escolha da mulher em relação ao tipo de parto ou cesárea é aquilo pelo que devemos lutar. Mas acho que essa escolha tem maior potência quando ela é realizada conscientemente,  levando em conta as informações disponíveis, os aspectos subjetivos, objetivos e todos os agenciamentos que um parto pode trazer.

Se uma mulher opta consciente e informada por uma cesárea, sabendo de todos os riscos  aos quais ela e o bebe estão submetidos ao optar por realizar, sem indicação, uma cirurgia de grande porte, ela deve ser respeitada. considerando por exemplo, que os aspectos subjetivos para ela da vivência de um parto natural fossem mais ameaçadores ou danosos do que a cesárea, como os exemplos que vc citou, sem dúvidas, e em qualquer uma dessas situações é a escolha e o referencial de segurança da mulher que deve ser priorizado.

Outra alternativa a situações como as que vc sitou é o parto poder ser um momento para elaboração desses aspectos subjetivos, o que exigiria uma equipe disponível e preparada para isso, se fosse a opção da mãe.

No entanto, infelizmente, vemos no Brasil, em geral é uma falsa "escolha" por essa via de nascimento, sendo que a maioria das mulheres são privadas das informações sobre esse procedimento ou são induzidas a realizá-los. A questão não é mais somente a do limite entre vida e morte, mas dos modos de viver.

É muito complexa essa sua questão, especialmente por estarmos nos referindo à um ato médico (a cesária eletiva). Hoje as mulheres tem direito no Brasil a optar por um ato médico, mas tem baixíssimo grau de autonomia de gestão do processo de gerar, ou parir, esse sim um ato feminino.

Neste sentido, pensando em termos de saúde pública e de cidadania, reduzir os índices de cesárianas desnecessárias é reduzir o número de mortes materno-infantis (de 5 a 8 vezes maior do que no PN), o uso de UTIs neonatais,de complicações pós-parto, etc... é humanizar o processo de nascer e de parir, desde que essa humanização não atropele a subjetividade materna, mas sim a potencialize!

 

 

Sabrina

 

 Belas e Sábias  ponderações ! Receba meu abraço.

 

 Shirley Monteiro.

abraço

Um forte abraço pra vc também Shirley! e um abraço cheio de leite! rs

Considerações

  Muito interessante a possibilidade de um debate dialógico desse tema, a partir deste necessário Post , e o comentário da Luciane.

  Sou  super a favor do Parto Normal, da valorização deste momento como  intensidade da saúde e da vida em sua plena expressão da natureza e dos afetos de vínculo e confiança. Daí a importância das Doulas, e de se respeitar os saberes, desejos, vivencias pregressas e as escolhas das Mães, acima de tudo !!!!

  Então depara-se com este terceiro elemento trazido pela LU: E quando  a Mãe  deseja a Cesariana, quando tem uma vivencia paralisante acerca do Parto natural ?? Sua subjetividade deverá ser incluída em toda sua complexidade e diversidade, sem dúvida, aliado aos necessários esclarecimentos sobre parto natural, o cesariano, e outras possibilidades. mas sempre privilegiando-se a permanência de uma escuta inclusiva sobre a escolha, e desejos desta mãe.

  Abraços,

 Shirley Monteiro.

beleza de post, Sabrina!

Compartilharei no facebook para fazer reverberar esta bela luta pela humanização da vida.

Iza

Atitude equivocada!

Uma atitude arbitrária, descabida sem dúvida, e que deve ser repudiada. A mulher, como dona do seu corpo, deve ter autonomia pra decidir pelo tipo de parto que julgar mais adequado pra si.  Vivemos num contexto de mudanças, de protagonismos, de avanços,  e não podemos permitir retrocessos.
Apoio totalmente os movimentos de protestos a essa atitude equivocada! Vamos resistir e dizer não ao CREMERJ!


Emília