Imergir para emergir Ocupa Nise

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Assim me vi saindo do Ceará para experenciar o OcupaNise. Muitas razões me moveram: o desejo de construir com tantos companheiros e companheiras essa universidade popular de arte e ciência, um movimento que tem me afetado muito e despertado paixões infinitamente alegres; a felicidade de reencontrar amigos, companheiros de caminhada; o prazer de vivenciar a arte em suas múltiplas linguagens; o compromisso com a educação e a luta popular....
Sai do Ceará após uma mudança de casa. Deixei tudo revirado na nova morada e voei em direção ao Engenho de Dentro, pra viver as mais intensas e inusitadas férias de minha vida. A intuição me dizia que a imersão seria profunda e fui respirando esse desejo. Não sabia muito bem como iria contribuir, mas todo meu ser ansiava por esse mergulho.
Me vejo em pleno sábado aportando a um mundo de possibilidades e desafios. Nise da Silveira nos acolhe com seu mundo polifônico e amoroso. Mergulho de cabeça nesse mundo prenhe de rituais, universo complexo, multicor, multifacetado. E imergindo entranho-me, envolvo-me e todo o meu ser se expande, me impulsiona e explode em sons, gestos, e encontros.
Tudo se constitui vivencia, intensamente polifônica, metaforicamente transpondo limites entre razão e emoção. Aqui somos inteiros na dor e no prazer. Cuidado e criação que constituem redes de conversação, onde tudo cabe: poesia, homeopatia, intuição, cenopoesia, gesto e canção. Aqui tudo se presentifica no ritual que integra e harmoniza todos os seres desta e de outras dimensões.
Aqui a vida nos chama ao cuidado, amoroso, inteiro, sem preconceito ou rótulo. A pureza não tem idade nem tamanho. Aqui tem homem lobo, espírito guerreiro, brincante; tem menino passarinho, grandioso em sua pequenez; fêmeas dançantes, e cearenses  que num relance mergulham  procurando a morte  e renascem como pombas brancas  que alçam vôo para dançar e cantar nas feiras e praças, desse Engenho no qual me embrenho sem medo de me perder. Aqui uma arara canta e pede colo, dorme e emerge em sua ancestralidade guerreira que os passos da capoeira teimam em revelar. Cada momento é novo, intenso, impreciso, etéreo e terreno; sagrado e profano.
Nesse percurso eternizado por sua intensidade, há espaço para reflexões profundas sobre o cuidar, criar, o conhecer.  Sobre a necessidade imprescindível de reconfigurar e ressignificar o cuidado. Sobre a importância desse ato politico irrompendo no espaço duro e frio do manicômio que se transfigura pelo colorido das vestes e das paredes e pelo insanidade amorosamente fluida dos que vivenciam essa ocupação.
Aqui pude compreender com toda a intensidade o que Paulo Freire propôs como inédito viável; a potencia da conjugação do verbo esperançar, onde os limites não se constituem barreiras intransponíveis, mas movimentos para os sujeitos populares exercerem o seu protagonismo. Sim pude ver o protagonismo desses seres oprimidos pela exclusão da objetividade que nega a diferença e a intensidade das paixões alegres que trilhando por zonas de indeterminação, despertam o Conatus, ou esforço de existir no dizer de Baruch de Spinoza e cantam, dançam, poetizam, pintam e despertam deuses e outros personagens míticos.
A loucura pede passagem para revelar a alteridade, a disritmia, a dissonância, a polifonia, a rebeldia do riso solto, dos gestos descomedidos, da ciência intuitiva, do  ritual....
Minha alegria irrompe, insana, prazeirosa, bailando célere como o beija flor, fluindo aromas curativos, criativos....
A vida emerge prenhe de potencias e eu vou com ela e com todos que embarcam nessa viagem-ocupação
Ah! Essa vida! Amorosamente fluida
Apaixonadamente viva!!!!
Eu, um novo ser , inteiro emerge, respira pra mergulhar de novo
OcupaNise

Tags: polifonia   ARTE   Ocupa Nise   
Estado/Cidade: Ceará/Fortaleza
 

Comentários [4]

devires intensos

querida Vera,

Teu relato nos carrega para as outras possibilidades de encarnação da experiência da loucura... Da dureza da captura pela forma doença para a potência dos devires intensos.

Seja muito benvinda à experiência RHS!

Iza

Belíssimo ...

 A vida emerge  nesse texto, transbordante de luz, e atos !

 Movimento e Saúde de vidas em liberdade de ser ...

 Só de ler, já me faz bailar  entre as palavras e sensações, sentidos e leveza. Leveza de Alma e corporeidade !!!

... Um grande abraço, de quem muito te admira !

 Shirley Monteiro.

 Destaco: A loucura pede passagem para revelar a alteridade, a disritmia, a dissonância, a polifonia, a rebeldia do riso solto, dos gestos descomedidos, da ciência intuitiva, do  ritual....

Minha alegria irrompe, insana, prazeirosa, bailando célere como o beija flor, fluindo aromas curativos, criativos....

Belíssimo !!!  e mais que essencial.

Imergir para emergir um novo ser Ocupa Nise

Assim me vi saindo do Ceará para experenciar o OcupaNise. Muitas razões me moveram: o desejo de construir com tantos companheiros e companheiras essa universidade popular de arte e ciência, um movimento que tem me afetado muito e despertado paixões infinitamente alegres; a felicidade de reencontrar amigos, companheiros de caminhada; o prazer de vivenciar a arte em suas múltiplas linguagens; o compromisso com a educação e a luta popular....
Sai do Ceará após uma mudança de casa. Deixei tudo revirado na nova morada e voei em direção ao Engenho de Dentro, pra viver as mais intensas e inusitadas férias de minha vida. A intuição me dizia que a imersão seria profunda e fui respirando esse desejo. Não sabia muito bem como iria contribuir, mas todo meu ser ansiava por esse mergulho.
Me vejo em pleno sábado aportando a um mundo de possibilidades e desafios. Nise da Silveira nos acolhe com seu mundo polifônico e amoroso. Mergulho de cabeça nesse mundo prenhe de rituais, universo complexo, multicor, multifacetado. E imergindo entranho-me, envolvo-me e todo o meu ser se expande, me impulsiona e explode em sons, gestos, e encontros.
Tudo se constitui vivencia, intensamente polifônica, metaforicamente transpondo limites entre razão e emoção. Aqui somos inteiros na dor e no prazer. Cuidado e criação que constituem redes de conversação, onde tudo cabe: poesia, homeopatia, intuição, cenopoesia, gesto e canção. Aqui tudo se presentifica no ritual que integra e harmoniza todos os seres desta e de outras dimensões.
Aqui a vida nos chama ao cuidado, amoroso, inteiro, sem preconceito ou rótulo. A pureza não tem idade nem tamanho. Aqui tem homem lobo, espírito guerreiro, brincante; tem menino passarinho, grandioso em sua pequenez; fêmeas dançantes, e cearenses  que num relance mergulham  procurando a morte  e renascem como pombas brancas  que alçam vôo para dançar e cantar nas feiras e praças, desse Engenho no qual me embrenho sem medo de me perder. Aqui uma arara canta e pede colo, dorme e emerge em sua ancestralidade guerreira que os passos da capoeira teimam em revelar. Cada momento é novo, intenso, impreciso, etéreo e terreno; sagrado e profano.
Nesse percurso eternizado por sua intensidade, há espaço para reflexões profundas sobre o cuidar, criar, o conhecer.  Sobre a necessidade imprescindível de reconfigurar e ressignificar o cuidado. Sobre a importância desse ato politico irrompendo no espaço duro e frio do manicômio que se transfigura pelo colorido das vestes e das paredes e pelo insanidade amorosamente fluida dos que vivenciam essa ocupação.
Aqui pude compreender com toda a intensidade o que Paulo Freire propôs como inédito viável; a potencia da conjugação do verbo esperançar, onde os limites não se constituem barreiras intransponíveis, mas movimentos para os sujeitos populares exercerem o seu protagonismo. Sim pude ver o protagonismo desses seres oprimidos pela exclusão da objetividade que nega a diferença e a intensidade das paixões alegres que trilhando por zonas de indeterminação, despertam o Conatus, ou esforço de existir no dizer de Baruch de Spinoza e cantam, dançam, poetizam, pintam e despertam deuses e outros personagens míticos.
A loucura pede passagem para revelar a alteridade, a disritmia, a dissonância, a polifonia, a rebeldia do riso solto, dos gestos descomedidos, da ciência intuitiva, do  ritual....
Minha alegria irrompe, insana, prazeirosa, bailando célere como o beija flor, fluindo aromas curativos, criativos....
A vida emerge prenhe de potencias e eu vou com ela e com todos que embarcam nessa viagem-ocupação
Ah! Essa vida! Amorosamente fluida
Apaixonadamente viva!!!!
Eu, um novo ser , inteiro emerge, respira pra mergulhar de novo
OcupaNise

Oi, Verinha :)

Querida, observei que havia postado o texto nos comentários, e que o corpo do post estava vazio! Estive em dúvida, com vontade de compartilhá-lo também no facebook, mas como estava, isso não era possível. Então, reeditei o post, colocando seu belíssimo texto nele. Se preferir deixo como estava. Além disso, quando a Shirley comentou, seu primeiro comentário (este aqui) ficou abaixo.

O seu post dá passagem às forças!! Não resisti.

Bjs,

Lu

Coletivo dos Cuidadores da RHS