A humanização do Pré-Natal


17votos

A humanização do Pré-Natal

Gustavo T is offline

 

Uma parte importante da humanização do parto é o preparo da mulher e sua rede social antes o parto. Para que ela possa saber que o parto é um evento que depende primeiramente dela e secundariamente da equipe de saúde. Saber dos seus direitos (direito a acompanhante, direito a ficar com seu filho imediatamente após o parto, direitos trabalhistas, direito a não fazer episiotomia de rotina, à privacidade, à movimentação no trabalho de parto, a escolher quando permitir o toque vaginal, entre muitos outros). Porém, a atividade clínica do pré-natal geralmente enfoca os riscos biológicos, os exames e medições. A maior parte dos gineco-obstetras, quando na atenção primária, tem pouquíssima disposição para aprender fazer um pré-natal minimamente adequado. Com formação basicamente cirúrgica e hospitalar, o pré-natal normal e mesmo o parto normal costumam despertar o mais profundo tédio, quando não uma repulsa explícita nestes profissionais. Mas mesmo a(o) enfermeira(o) ou médico de família e comunidade têm dificuldades de fazer um pré-natal para além do check list orgânico, assim como os gestores cobram pouco mais do que um número mínimo de consultas e exames. Pouco se conversa com as gestantes sobre mudanças corporais, sobre a sexualidade, sobre exercícios que preparam o períneo (e não basta conversar, tem que ensinar a fazer), sobre métodos não farmacológicos de alívio da dor (ensinar massagens para os acompanhantes), sobre respirações, sobre os medos, sobre experiência familiar com parto, sobre o preparo dos outros filhos, sobre o que é o trabalho de parto e seu começo, sobre o pós-parto, sobre massagens para criança (shantala, por exemplo), sobre a visita ao serviço de saúde em que ela fará o parto,  etc´s e etc... Enfim, pouco se conversa sobre a vida neste momento mágico, em que ela transborda. Mesmo os grupos de gestantes, não raras vezes, são tão ruins que precisam comprar as gestantes com brindes, perdendo-se a oportunidade de troca de experiências, de relatos de parto, de construção de redes de apoio.
O óbvio, embora talvez não ululante, como diria o Nelson Rodrigues, é que, quanto mais a gestação é valorizada com todos os seus significados, mais fácil é o diagnóstico de problemas orgânicos quando eles acontecem, e maior o envolvimento das mulheres no tratamento. De forma que, em vez tentar submeter as mulheres a um pré-natal frio e sem sentido, a humanização do pré-natal está a nos exigir um salto de qualidade. É um excelente momento para construir uma rede em defesa da vida e de fortalecer as mulheres para enfrentem as tiranias da nossa cultura contra a vida (e o sexo), infelizmente explícitas na forma como os serviços de saúde costumam tratar as parturientes.

Um instrumento que se destaca a cada dia são as redes de mulheres em defesa do parto. Hoje, predominante fora do SUS, uma imensa e poderosa rede de mulheres se articula para conquistar sua cidadania gestacional. Com o aumento do acesso à internet, a expressão virtual destas redes precisa ser aproveitada e potencializada sempre que possível.Deixo aqui alguns links: 

www.partodoprincipio.com.br,
www.maternidadeativa.com.br,
www.amigasdoparto.com.br
http://samaumamaternidadeconsciente.blogspot.com/

http://br.groups.yahoo.com/group/materna_sp/

 

 7 COMENTÁRIOS

Ginetta is offline

Boa noite Gustavo, achei muito pertinente sua reflexão sobre esse aspecto da humanização. Trabalho em uma maternidade e tivemos momentos críticos esse ano como greves, superlotação e meu local de trabalho quase que fecha. Mães tendo seus bebes em corredores, outras voltando para casa com contrações, pois o hospital estava selecionando gestantes de risco. Foi muito triste esse período e eu ficava imaginando o quando essas mães estavam desamparadas pelo sistema nesse período. Um momento que deveria ser de alegria, tornou-se o mais trágico possível. A gestantes precisam desse ">acolhimento e dessa troca de experiência, assim como da dismistificação de hábitos e costumes errados com relação a alimentação, entre outras coisas.

Abraços!

Gustavo T is offline

Emília

Infelizmente as mudanças tem sido mais lentas do que gostaríamos. A descrição que você faz do seu parto ainda é a mais comum. Tanto os gestores, a começar pelo MS quanto os movimentos das mulheres na sociedade, precisam lutar para apressar as mudanças. A Rede Cegonha tem esta proposta e é uma grande oportunidade. Abraço Gustavo

Emilia Alves de Sousa is offline

Oi Gustavo,

Muito boa a sua reflexão sobre um tema tão importante e necessário que e´ a humanização do pre´-natal e do parto. Como esses cuidados que abordastes aqui fizeram falta na gestação e parto da minha filha. Eu sou de um tempo, em que atendimento com esse zelo e respeito pela vida era uma raridade, portanto posso falar com propriedade. Ate´ que o meu pre´-natal não foi dos piores. Entretanto, o meu parto foi a pior experiência da minha vida, de tanta falta de respeito e sensibilidade dos profissionais que me atenderam. Me senti feito um animal, em que todos tinham o direito de fazer o toque, como se estivessem diante de uma vaca prestes a parir. Nem o direito de gritar me deram. Fiquei em trabalho de parto, sentindo dores das 3h00 `as 11h00, (horário em tive minha filha), sendo tocada de hora em hora, por uns “cavalos não batizados”, e ainda me chamando de “mulher mole”, quando me contraia e gemia. Foi um processo tão dolorido, que eu cheguei a pedir que me deixassem morrer, (choro), pois achei que a morte seria um alivio pra tanto sofrimento e humilhações. Veja bem a minha situação, estava em Rio Branco/AC, a trabalho, longe de toda a minha família, dependendo só de umas amigas de trabalho, e ainda sendo destratada, e diga-se de passagem, num hospital da rede privada, (O Santa Juliana), que de santo só tinha o nome. Foi uma experiência que eu espero que nenhuma mulher passe na vida. O parto constitui um dos momentos mais sublime de uma mulher, e deve portanto, ser tratado com respeito, com atenção e responsabilidade. Deve ser um ato humanizado em todas as suas dimensões/procedimentos.

Parabéns pela matéria! Inclusive, me ajudou a desentalar um pouco esse nó de tristeza que eu sinto até hoje por não ter tido um parto humano.

Um forte abraço!
Emilia

 

Últimos posts promovidos


Marcos Moreira Lira is offline
5votos

Relatório de Vivência Do VEr-SUS Imperatriz-MA, 2016.1.

VER-SUS IMPERATRIZ MARANHÃO 2016.1

VIVENTE: MARCOS MOREIRA LIRA

RELATÓRIO DE VIVÊNCIA. IMPERATRIZA-MA JANEIRO/2016

O seguinte relatório apresentara em contexto resumido, dez dias de vivência patrocinados pelos Ver-SUS, vivenciado por Marcos Moreira Lira, graduando de Ciências Humanas e militante pelo coletivo UJC (União Juventude Comunista), uma vivência realizada do dia seis de janeiro a dezessete de janeiro de 2016, iniciando-se oito horas da manhã do dia seis e encerrando onze horas do dia dezessete.

Últimos posts comentados


Clyton Antonio de Paula Houly is offline
2votos

#MOSQUITADAZIKA FEZ ATIVISMO NO RASGADINHO, MELHOR CARNAVAL DE RUA DA CAPITAL ARACAJU

BLOGUEIRA DA RHS MARCIA MEIRELLYS CRIOU E VESTIU A FANTASIA DA MOSQUITA, E COMO SE NÃO BASTASSE, COMPÔS A LETRA DA PARÓDIA E CANTOU EM UM DOS TRÊS PALCOS DO RASGADINHO ARACAJUANO. MELHOR IMPOSSÍVEL, NÃO É???

ALÉM DE CANTAR TAMBÉM CONSCIENTIZOU OS FOLIÕES, EM DOIS MOMENTOS, NA SEGUNDA E NA TERÇA-FEIRAS DE CARNAVAL.